Geografia: As principais correntes metodológicas da Geografia e conceitos-chave

Diversas são as correntes metodológicas da Geografia, que refletem, de certa forma, o período de quando foram criadas e pensadas. No entanto, o conceito de geografia é deveras antigo, datando dos tempos de Heródoto e de Estrabão, que viam na delimitação espacial do território questões de extrema importância para as relações interestatais. No século XVIII, o filósofo Immanuel Kant, após escrever obra relacionada à geografia física, conferiu a esta matéria o caráter que a moldaria no século XIX, à época dos colonialismos e dos imperialismos, a geografia como ela é entendida atualmente. Pode-se dividir as correntes em contextos históricos distintos, como a época pré-unificação alemã (Geografia Tradicional), pós-unificação alemã (Geografia Humana/Política), período entreguerras (Geopolítica / Geografia Humana), mais recentemente com o advento da técnica (Geografia Pragmática) e, por fim, já no fim do século XX (Geografia Crítica).

Os principais autores da Geografia Tradicional foram Humboldt e Ritter. Essa corrente foi a responsável pela esquematização da geografia, no sentido de dividir as diferentes áreas que a geografia seria responsável; por isso é conhecida como a corrente que imprimiu a dicotomia entre as possíveis geografias. Além disso, o método utilizado era baseado no empirismo puro e simples, diferente das correntes posteriores. Enquanto a Geografia Física estudaria o quadro natural dos espaços, aproximando-se às ciências naturais, a Geografia Humana entenderia as relações humanas com o espaço. Outra dicotomia se dá entre Geografia Geral e Regional, em que a primeira estudaria os fenômenos do mundo, subdividindo em categorias, como a geomorfologia e a hidrografia, a segunda, como se pode inferir de seu próprio nome, é aquela que estuda uma área limitada de um determinado espaço.

Um dos principais eventos da Geografia moderna foi a unificação alemã, que demonstrou a importância do papel dos territórios nas Relações Internacionais. Seu principal autor foi Friedrich Ratzel, que cunhou e percebeu a importância do termo Lebensraum, ou espaço vital, em que ele aplica as questões políticas como determinantes da Geografia Humana (Antropogeografia e Geografia Política). Ratzel acredita que a natureza influencia a constituição social, pois é ela que fornece a riqueza, material tão cobiçado pelos homens, e por causa dessa riqueza que o homem deve delimitar e tomar posse de seu território. Exemplo histórico desse pensamento é o expansionismo bismarckiano, por meio de sua Realpolitik. Em tempos posteriores, com base na teoria ratzeliana, o cientista político Rudolf Kjéllen apresenta a Geopolítica como outro ramo da Geografia. A Geopolítica é uma corrente multidisciplinar, no sentido de entender diversos fatores (Política, Sociologia etc.) como forma de se garantir o espaço territorial de um determinado país.

Após a criação do termo Geopolítica, aplicado no contexto da unificação alemã, a Geografia Humana veio contrapor essa corrente. O seu principal autor foi Vidal de la Blache, que preferiu despolitizar o discurso da Geopolítica. Para ele, deve-se levar em consideração o componente criativo da ação humana, não somente a sua valorização pelo poder, bem como a História como ciência nessa relação entre homem e espaço natural. Além de ser uma contraposição entre teorias distintas, é uma diferença nos pensamentos alemão e francês. Vidal de la Blache acredita no possibilismo, ou seja, que o homem pode transformar o seu meio, em detrimento do determinismo de Ratzel, que acredita no meio natural dado como a principal ferramenta que pode ser utilizada pelo homem, não havendo transformação alguma no meio em que se vive.

Com o avanço, no pós-guerra, dos setores científico, tecnológico, social e econômico, teóricos, principalmente, estadunidenses, passaram a adotar o positivismo lógico como forma de entender a geografia. É a chamada Geografia Pragmática/Quantitativa, ou Teorética (no Brasil), surgida nos anos 1950 do século XX, que inova no método de pesquisa. Ao passo que em tempos pretéritos o empirismo era utilizado, na Geografia Teorética pesquisas de campo, informações quantitativas e métodos não geográficos (matemáticos e estatísticos) são agora empregados.

Em oposição a essa corrente, surgem a Geografia Humanística e a Geografia Radical. A primeira relembra a filosofia dos primeiros pensadores da Geografia, como Kant e Hegel, bem como contemporâneos, como Edmund Husserl, na qual retoma a valorização do indivíduo por meio de sua relação com o meio natural (intuição, percepção, apreensão); é nessa corrente que termos como espaço e lugar voltam a ser estudados,  apresentando definições distintas. A segunda retoma a análise marxista, em que os modos de produção e as formações socioeconômicas são mais importantes, pois, o espaço e o lugar são conceitos resultantes das atividades do homem em relação ao espaço que ele ocupa.

Nos anos 1960 surge a Geografia Crítica, como forma de entender a geografia em outros termos, tendo como principal autor Milton Santos. Essa corrente surge à época do ambiente contestatório nos Estados Unidos, em função da Guerra no Vietnã. Ela delimita-se pela mesma corrente humanística que a Geografia Humana, mas baseia-se, contudo, no materialismo histórico e dialético, além de ambicionar ser crítica e atuante. Essa nova visão dada à Geografia resultou na aproximação a movimentos sociais – ampliação dos direito civis e políticos, combate à pobreza – e no entendimento da Geografia como um processo social em relação ao espaço, distanciando-se dos estudos de padrão realizados preteritamente. Pode-se citar como exemplo Milton Santos, que entende a desigualdade social como um fenômeno que estabelece a divisão territorial do trabalho e a hierarquização dos lugares, demonstrando, dessa forma, que não apenas o uso do espaço, mas atitudes provenientes do topo da pirâmide social também influenciam a geografia.

A Geografia progrediu e aperfeiçoou-se conforme o tempo e o pensamento das épocas. Embora seja retrógrado pensar em uma Geografia meramente como o ambiente em que vivemos (Geografia Física), diversos aspectos, das diversas correntes, devem ser entendidas e levadas em consideração atualmente. A contribuição de Milton Santos na Geografia Crítica é essencial para refletir tanto nas relações entre o homem e o meio natural, como na função e na interdependência do homem com o meio técnico-científico-informacional, situação na qual o mundo se encontra.

CorrentesGeo

Conceitos-chave da Geografia

  • Espaço
    • Geografia Tradicional: Espaço ainda não é conceito importante
    • Geografia Quantitativa: Centralidade para o conceito de espaço (localização e distância)
    • Geografia Crítica: é constituído por uma dimensão morfológica (conjunto de formas) e por uma dimensão social. Para Milton Santos, o espaço é “uma forma. Conteúdo, um conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações”.
    • Geografia Humanista: vê o espaço de maneira menos objetiva, criando a percepção de espaço vivido (valores), topofilia (afeição) e topofobia (aversão).
    • Região
      • Geografia Tradicional: sociedade x natureza. Regiões naturais equivalem ao determinismo geográfico. Obra de Ratzel, Antropogeographie.
      • Regiões geográficas
        • Possibilismo: relação da sociedade com seu meio
        • Empirismo: geógrafo tem de descrever a região, uma vez que elas já existiam
  • Geografia Quantitativa: critérios para definir as regiões
  • Regiões Homogêneas: formação da região se dá de forma homogênea
  • Geografia Crítica: métodos permanecem, só mudam os critérios
  • Geografia Humanista: resgate das identidades regionais como forma de entender a região
  • Território
    • Ratzel: territórios formam os Estados
    • Território/Estado = Poder = limite de soberania e fonte de poder
    • Território/Estado = identidade = nacionalismo e delimitação
    • Existem dois território descontínuos:
      • No espaço, que são os territórios em rede
      • No tempo, que são os territórios cíclicos
  • Conceito relacionado ao território é o de identidade, por exemplo: territorialização, desterritorialização e reterritorialização
  • Paisagem
    • Geografia Tradicional: para Carl Sauer é um termo cultural, cuja ideia subentende um resultado (paisagem resultado)
    • Geografia Quantitativa: conceito em declínio
    • Geografia Crítica: para Milton Santos, “o espaço é uma acumulação de territórios”
    • Meios Geográficos
      • Natural: técnica é subordinada à natureza
      • Técnico: presença de objetos técnicos (prótese do território para Milton Santos)
      • Técnico-científico: Revolução Industrial, que cientificou a técnica
      • Técnico-científico-informacional: informação é essencial para a evolução da técnica
  • Geografia Humanista: entende a paisagem como um sistema cheio de significados
  • Lugar
    • Para Milton Santos, em “Por uma outra globalização”, o lugar é uma escala de resistência. Há uma guerra de lugares quando, por exemplo, empresas buscam onde investir seus capitais
    • Além do lugar, existe também o conceito de não lugar, em que se predomina a funcionalidade em detrimento da subjetividade:
      • Edward Relph: Placelessness
      • Marc Augé: Non-lieu

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3 Respostas para “Geografia: As principais correntes metodológicas da Geografia e conceitos-chave

  1. Pingback: Questões: Geografia | Um pouco de tudo·

  2. Estou gostando muito de ler suas publicações, uma vez que, me faz lembrar que em algum momento dos meus estudos, li algo a respeito deste assunto, e isso pra mim é ótimo. Me faz acreditar que o cérebro realmente é magnifico.

  3. Pingback: Edital de Geografia: Resumos & Fichamentos | Internacionalista·

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