Formação Econômica do Brasil: Celso Furtado | Fichamento & Resumo

Por Pedro Gryschek

PARTE UM – FUNDAMENTOS ECONÔMICOS DA OCUPAÇÃO TERRITORIAL

DA EXPANSÃO COMERCIAL À EMPRESA AGRÍCOLA

  • Ocupação econômica da América se deu em um contexto de expansão comercial da Europa;
  • Invasões turcas trouxeram problemas na Rota Oriental Mediterrânea de Comércio com o Oriente Próximo, Índia e China;
  • A Espanha, através do ouro e prata no México e nos Andes, com consequentes fortificações, tornou suas colônias importantes mais depressa que Portugal;
  • O medo de outras nações, principalmente da França, acelerou a colonização do Brasil. Especialmente importantes foram a França Antártica (RJ – segunda metade do século XVI) e a França Equinocial (MA – início do século XVII;
  • A Espanha precisou de colônias de povoamento, como Cuba, para distribuir sua defesa na América, com vistas da Flórida ao Rio da Prata. Também houve penetração nas Antilhas (Hispaniola, Cuba, Jamaica, Porto Rico);
  • No Brasil, o que se deu, principalmente, foi a exploração agrícola, primeira tentativa séria de praticar a agricultura comercial nas Américas. Houve uma grande necessidade de êxito, pois ainda não haviam sido encontrados metais preciosos no território português na América.

FATORES DE ÊXITO DA EMPRESA AGRÍCOLA

  • Os portugueses já tinham experiência com a plantação canavieira nas ilhas atlânticas (Madeira, Açores). Os equipamentos tinham sido baseados na produção do Chipre, também uma ilha, um dos grandes produtores açucareiros da época;
  • Houve a quebra do monopólio veneziano no refino do açúcar, com o surgimento de concorrentes no Flandres e na Holanda;
  • Foi contraída aliança com cidades em ambas as regiões mencionadas: Antuérpia e Amsterdam, para refino e distribuição da produção açucareira no Norte da Europa; os holandeses eram extremamente organizados e especializados no comércio intra-europeu; tendo, ainda, contribuído com o capital necessário para a instalação de engenhos;
  • A solução escravagista africana para o problema da mão-de-obra nos canaviais  acrescentou fonte extra de renda para ambas as partes.

RAZÕES DO MONOPÓLIO

  • O frete na Espanha era caríssimo (de Sevilha para as Colônias). A Espanha queria transformar suas colônias em sistemas econômicos independentes, que produzissem excessos periodicamente transferidos para a metrópole;
  • Crescimento do Estado e do déficit comercial espanhol. Diminuição das atividades produtivas, que levaram à crise espanhola no século XVII – A Espanha descansara nos fundos e produtos provenientes das colônias.
  • A Espanha tinha terras melhores e mais próximas da Europa para produzir açúcar para concorrer com Portugal (a mais óbvia, Cuba), mas não o fez.

DESARTICULAÇÃO DO SISTEMA

  • União Ibérica-> Guerra contra holandeses e flamencos, em busca da independência contra a Espanha;
  • Os holandeses continuaram comandando o comércio marítimo europeu até cerca de 1730;
  • A distribuição e produção de boa parte dos produtos coloniais portugueses (i.e. açúcar) tiveram grandes problemas com o afastamento dos parceiros holandeses e flamencos;
  • Ocupação holandesa do Nordeste, principal zona produtora, com alguma colaboração portuguesa. Os holandeses, nesse período, adquiriram conhecimentos técnicos que foram posteriormente  utilizados em suas colônias caribenhas e no Suriname;
  • Diminuição do preço do açúcar e quebra do Monopólio;

AS COLÔNIAS DE POVOAMENTO NO HEMISFÉRIO NORTE

  • Crescimento de Holanda, França e Inglaterra no século XVII;
  • Inglaterra e França se apossam de Ilhas no Caribe com objetivos militares; sua colonização se deu com propaganda e até sequestro;
  • Inglaterra tinha vantagem no recrutamento de colonos, especialmente devido à intolerância política e religiosa. Os enclosures também colaboraram;
  • A América do Norte dava prejuízo graças às dificuldades de encontrar bons artigos de exportação e à resistência indígena;
  • As Antilhas, por outro lado, permitiam diversos produtos promissores: algodão, anil, café e fumo.

CONSEQUÊNCIAS DA PENETRAÇÃO DO AÇÚCAR NAS ANTILHAS

  • Falta de mão de obra europeia nas plantações de fumo caribenhas, que também passaram a usar escravos africanos;
  • Os holandeses criaram um novo núcleo produtor de açúcar, com mais investimentos e maior proximidade à Europa;
  • Fim das colônias de povoamento inglesas e francesas no Caribe. Parte dos colonos migrou para as colônias da América do Norte, que exportavam trigo para o Caribe;
  • As ilhas, por sua vez, destilavam bebidas alcoólicas (rum, principalmente) e exportavam para o Norte;
  • O consumo nas colônias de povoamento da América do Norte era maior que o do Caribe.

ENCERRAMENTO DA ETAPA COLONIAL

  • Portugal perdera seus entrepostos comerciais no Oriente para a Espanha durante a União Ibérica;
  • Portugal alienou parte de sua soberania à Inglaterra; tornando-se praticamente um vassalo econômico desta;
  • Boa parte do ouro achado no Brasil foi para a Inglaterra, ao invés de Portugal;
  • Portugal, aproveitando-se da proteção inglesa, aproveitou-se para obter importantes vitórias políticas contra França e Espanha em Utrecht;
  • Ouro -> expansão demográfica no Brasil e financiamento do desenvolvimento manufatureiro inglês;
  • Privilégios ingleses em relação a Portugal estenderam-se também ao Brasil, quando a família real fugiu para cá das tropas napoleônicas;
  • Grande Esforço diplomático para a consolidação da independência brasileira criou grandes dificuldades econômicas;
  • O café facilitou a ampliação de relações com os EUA.

PARTE DOIS – ECONOMIA ESCRAVISTA DE AGRICULTURA TROPICAL DOS SÉCULOS XVI E XVII

VIII.   CAPITALIZAÇÃO E NÍVEL DE RENDA NA COLÔNIA AÇUCAREIRA

  • Favores governamentais a quem instalasse engenhos na Colônia;
  • Mão de obra nativa era inicialmente muito importante;
  • Havia certo número de assalariados nos engenhos
  • Forte concentração de renda nas mãos dos senhores de engenho;
  • Gastos administrativos de Nassau na época da colonização foram bastante altos, aumentando os lucros de comerciantes.

IX.      FLUXO DE RENDA E CRESCIMENTO

  • Escravo negro veio substituir outro escravo, menos eficiente e de recrutamento mais incerto (indígenas);
  • Escravos eram um bem durável de consumo;
  • Quase toda a renda vinha de exportações. Os gastos, por sua vez, iam para as importações. Era uma economia semi-feudal;
  • Boas possibilidades de expansão (grande quantidade de terras);
  • Enfraquecimento de mercado externo certamente geraria decadência.

X .       PROJEÇÃO DA ECONOMIA AÇUCAREIRA: A PECUÁRIA

  • Economia canavieira justificava a existência de outras atividades produtivas;
  • Extrema especialização da economia açucareira ;
  • Nova Inglaterra construía seus barcos de pesca e ganhou certo know how em transporte marítimo. Isso ajudou muito nas Antilhas;
  • São Vicente se especializou no complexo exploratório-militar, sendo esse um fator decisivo para a ocupação de áreas centrais da América do Sul;
  • Abundância de terras não permitiu mercado externo como o Antilhano com a Nova Inglaterra;
  • Carne era artigo de suma importância, assim como lenha e animais de tração (burros, jumentos, às vezes até bois);
  • Criação de gado era totalmente diferente da plantação de cana, sendo mais interiorizada e itinerante. Pouca gente se dedicava à pecuária, em geral. A maioria era de colonos com pouco acesso a capital.

XI.      FORMAÇÃO DO COMPLEXO ECONÔMICO NORDESTINO

  • Crescimento essencialmente extensivo. Não havia grandes mudanças de produtividade;
  • Disparidade na dependência de importações de mão-de-obra e equipamentos;
  • Couro era a única fonte de renda de muitos criadores de gado;
  • Renda real no Nordeste caiu constantemente até o século XIX. A população continuou a crescer graças à oferta estável de alimento.

XII.     CONTRAÇÃO ECONÔMICA E EXPANSÃO TERRITORIAL

  • Século XVII apresentou dificuldades políticas para a Colônia;
  • Portugueses defenderam a Amazônia durante a União Ibérica, tendo que ocupar a região do Maranhão após a experiência da França Equinocial. A região não tinha solo de massapê, como o resto do Nordeste, levando a difíceis condições de vida, pois a cana não poderia ser lá plantada;
  • Exportação de cravo, canela, baunilha, cacau e resinas aromáticas da região amazônica;
  • Região do Prata era ameaça aos criadores de gado. A Colônia do Sacramento fortaleceu os portugueses nesse mercado e na região em questão.
  • Encarecimento de manufaturas importadas.

PARTE TRÊS: ECONOMIA ESCRAVISTA MINEIRA NO SÉCULO XVIII

XIII.   POVOAMENTO E ARTICULAÇÃO DAS REGIÕES MERIDIONAIS

  • Crise na cana de-açúcar levou a uma maior procura por metais preciosos na Colônia;
  • Uso dos paulistas, que conheciam bem o interior, em procurar metais;
  • Primeira migração espontânea de Portugal para o Brasil. Gente de poucos recursos era atraída à Colônia;
  • Escravos nunca foram maioria da população mineira. Podiam trabalhar por contra própria e alcançar a liberdade (comprando-a);
  • Maior mobilidade social em relação ao Complexo Nordestino-Açucareiro;
  • Desenvolvimento da Pecuária no Sul, com feira de muares em Sorocaba-SP;
  • Sistema de transporte mais complexo (distância do litoral) –> maior mercado para animais de carga;
  • Interdependência com regiões mais ao Sul (São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Sacramento).

XIV.   FLUXO DE RENDA

  • Base econômica entre Serra da Mantiqueira, Cuiabá e Goiás;
  • Exportação de ouro atingiu seu ápice em 1760, já experimentando declínio em seguida;
  • Mercado maior que na região açucareira;
  • População mais reunida em núcleos urbanos e semi-urbanos;
  • Nenhum desenvolvimento manufatureiro;
  • Portugal, baseado no ouro brasileiro, também não desenvolveu manufaturas, comprando-as da Inglaterra;
  • Inglaterra passou a conseguir saldar suas dívidas relacionadas a matérias primas no norte da Europa através da venda de produtos manufaturados;
  • Bancos Ingleses fortalecem sua posição. Também crescem as reservas monetárias, que seriam essenciais nas Guerras Napoleônicas.

XV.     REGRESSÃO ECONÔMICA E EXPANSÃO DA ÁREA DE SUBSISTÊNCIA

  • Não houve tentativas sérias de solucionar a falta de ouro, como aconteceria na Austrália, um século depois;
  • Fricções sociais menos graves, devido ao menor grau de dependência do trabalho do escravo africano;
  • Adoção do regime de subsistência na região.

PARTE QUATRO: ECONOMIA DE TRANSIÇÃO PARA O TRABALHO ASSALARIADO NO SÉCULO XIX

XVI.   O MARANHÃO E A FALSA EUFORIA DA ÉPOCA COLONIAL

  • Novas dificuldades no último quartel do Século XVIII (após a independência norte-americana);
  • Brasil recupera alguns mercados para o açúcar;
  • Baixíssima renda per capita;
  • Maranhão e Pará isolados dos dois outros sistemas macroeconômicos;
  • Pará: sistema extrativista florestal dos jesuítas, que sofre decadência com a ascensão de Pombal ao poder.
  • Maranhão: alguma articulação pecuarista ao Nordeste. Único sistema de sucesso no final do século XVIII (algodão em substituição ao do sul dos EUA);
  • Companhia de Comércio bastante capitalizada para a região foi criada por Pombal;
  • Guerra de Independência dos EUA havia diminuído a oferta de algodão;
  • Grande produção também  de arroz (Maranhão);
  • Escravos indígenas -> Escravos negros;
  • Depressão nas outras regiões coloniais;
  • Vinda da família real traz efêmero otimismo;
  • Revolução Francesa -> Transtornos nas produções tropicais de suas colônias (Ex: açúcar e café no Haiti)
  • Guerras Napoleônicas -> desarticulação do Império Espanhol;
  • Crescimento do uso do algodão na indústria têxtil britânica;
  • Prosperidade da pecuária até a independência.
  • XVII.  PASSIVO COLONIAL, CRISE FINANCEIRA E INSTABILIDADE POLÍTICA
  • Invasões napoleônicas -> Contatos diretos com a maioria dos mercados;
  • Tratados com a Grã Bretanha em 1810 – Limitação à autonomia brasileira, posição reforçada com novos tratados em 1827;
  • Assunção da responsabilidade de parte da dívida externa portuguesa;
  • Classe comerciante incipiente (e principalmente lusitana) frente a agroexportadores;
  • Agroexportadores pressionam por livre mercado;
  • Britânicos não se abriram aos produtos brasileiros, concorrentes de suas Antilhas;
  • Luta com os britânicos para manutenção da escravidão. Diminuição do tráfico africano de escravos;
  • Redução da autoridade central, problemas econômicos na Bahia, em Pernambuco e Maranhão, com queda substancial da renda per capita. Tensçoes refletidas em rebeliões armadas de Norte a Sul;
  • Surge o café (década de 1830). Solidez financeira nas proximidades da capital, atuando como força agregadora;
  • Parco aparelho fiscal trouxe dificuldades para o Governo. Guerra no Uruguai (Província Cisplatina) trouxe mais um problema, devido às somas dispendidas;
  • Ódio urbano contra comerciantes portugueses.

XVIII. CONFRONTO COM O DESENVOLVIMENTO DOS EUA

  • Pressão sobre  a taxa de câmbio (muitas importações);
  • Não era possível adotar a política protecionista dos EUA, pois lá já havia uma base econômica interna consolidada;
  • Nos EUA, a cena era dominada por pequenos agricultores e grandes comerciantes urbanos;
  • Alexander Hamilton (Protecionista) X Visconde de Cairu (Liberal)
  • Indústrias que não competissem com as inglesas eram fomentadas desde o período colonial (lembrar de Mauá);
  • Produção de ferro nos EUA para redução da dependência dos países do Báltico (especialmente a Suécia);
  • Consciência independente desde cedo. Construção naval local desde muito cedo (período colonial). Guerra de Independência só estimulou ainda mais o desenvolvimento dessas características;
  • Transtornos napoleônicos ajudaram ainda mais (necessidade da Grã Bretanha de achar novos mercados);
  • Experiência técnica + lucidez dos dirigentes (founding fathers);
  • Grandes plantações de algodão (primazia dos têxteis na primeira Revolução Industrial);
  • Abertura do meio-oeste, abrindo espaço para a imigração europeia massificada;
  • Balança comercial inicialmente deficitária, mas com o tempo equilibrada;
  • Dívidas de longo prazo através de bônus federais e estaduais;
  • Construção da infraestrutura e estímulo a atividades básicas.

XIX.   DECLÍNIO A LONGO PRAZO DO NÍVEL DE RENDA NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XIX

  • Iniciativas siderúrgicas de Dom João VI falharam por falta de mercado consumidor interno;
  • Pequeno consumo em declínio, decadência do artesanato têxtil;
  • Impossibilidade de estabelecimento de cotas de importação e importação de maquinário;
  • Estancamento das exportações;
  • Baixa de 40% no preço das exportações. Importações da Grã Bretanha com preço estável.
  • Não houve aumento da taxa de urbanização.

XX.     GESTAÇÃO DA ECONOMIA CAFEEIRA

  • Três quartos de século de estagnação e decadência;
  • Poucas iniciativas governamentais de alterar o rudimentar aparato administrativo;
  • Falta de expansão da mão-de-obra;
  • Não era possível desenvolvimento com base no mercado interno, faltavam capitais externos para promover uma economia estagnada;
  • Mercado do açúcar nada promissor (concorrência de Cuba e do açúcar de beterraba europeu);
  • Algodão também estagnado (EUA – com exceção do período da Guerra de secessão- e Índia);
  • Fumos, couros, cacau e arroz eram mercados menores;
  • Café era o produto ideal. Já havia produção local desde o início do século XVIII (chegou em Belém do Pará);
  • Concentração perto do RJ, beneficiada pela desagregação da economia mineira;
  • Grau de capitalização mais baixo do que o da indústria açucareiro;
  • Nova classe empresária decisiva para o futuro desenvolvimento do país.
  • Criação de um mercado razoável na capital.

XXI.   O PROBLEMA DA MÃO-DE-OBRA – OFERTA INTERNA POTENCIAL

  • Inelasticidade da oferta de trabalho;
  • População escrava não tinha crescimento vegetativo no Brasil. Condições de vida precárias;
  • Tráfico interno estimulado, especialmente saindo da região algodoeira e de subsistência;
  • Também vieram para as plantações alguns escravos urbanos;
  • Pensou-se em importar mão-de-obra asiática (chinesa), mas Mauá propôs a imigração europeia (fator racista também determinante).

XXII.  O PROBLEMA DA MÃO DE OBRA – A IMIGRAÇÃO EUROPEIA

  • Exemplo dos EUA;
  • Colônias iniciais não deram certo, pois os europeus não eram acostumados ao sistema plantation;
  • Muitos foram para os EUA pelo baixo preço das passagens e, especialmente, pela expansão de seu mercado;
  • Ideia de Vergueiro de ligar colonos a produtos já importantes começou a solucionar o problema, mas semiescravidão trouxe outros, inclusive de política externa (com os países de origem);
  • Governo Imperial passou a incumbir-se dos gastos de viagem dos imigrantes;
  • Regime de trabalho menos servil;
  • Crise na Itália pós-unificação ajudou na oferta;
  • Base da expansão cafeeira ao oeste paulista.

XXIII – O PROBLEMA DA MÃO DE OBRA – TRANSUMÂNCIA AMAZÔNICA

  • Muitos nordestinos (especialmente cearenses) foram para a Amazônia;
  • Base da economia local formada por especiarias, especialmente o cacau;
  • Surgimento da borracha, ligada à crescente indústria de motores (segunda metade do século XIX);
  • Produção inicialmente extrativa, rápido aumento da demanda;
  • Preços altos graças à pouca oferta até a Primeira Guerra Mundial;
  • Quantidade de nordestinos trasumantes mostra alternativa à imigração europeia.
  • População continuava crescendo na região açucareira devido à boa oferta de alimento;
  • Mão-de-obra pouco exigente. Enorme desgaste humano nos seringais.

XIV – O PROBLEMA DA MÃO DE OBRA – ELIMINAÇÃO DO TRABALHO ESCRAVO

  • Estabilidade estrutural. Seu fim gerou hecatombe social;
  • Não constitui per se destruição nem criação de riqueza;
  • Mudança enorme no fator organizacional. Não há mera transformação de escravos em assalariados;
  • Diferentes soluções no Nordeste e no Sudeste;
  • Recuperação temporária do açúcar brasileiro. Redução na procura de mão-de-obra;
  • Mais oportunidades no Sul, mas incapacidade dos ex-escravos em responder a estímulos econômicos;
  • Escravo vislumbraria o ócio, só trabalharia o suficiente para viver;
  • Segregação;
  • “Escravidão era um entorpecimento ao desenvolvimento econômico do país”.

XXV.  NÍVEL DE RENDA E RITMO DE CRESCIMENTO NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX

  • Alto crescimento econômico durante o período. Exportações aumentaram em 214%;
  • Açúcar e algodão tiveram menores aumentos relativos na exportação, sendo o Nordeste, logo, menos favorecido pelo crescimento;
  • Houve certa baixa na renda per capita nordestina;
  • Alguns setores de subsistência, como o da erva mate no Paraná, experimentaram crescimento vigoroso;
  • O Rio Grande do Sul deu impulso à pecuária para o mercado interno, além de produzir vinho e porcos, dos quais se aproveitava especialmente a banha;
  • Forte aumento populacional no Sul, também com aumento da produtividade;
  • Região do café cresceu mais que o Nordeste, mas menos que o Sul, com grandes movimentos demográficos internos, na direção de SP e RS;
  • Bom crescimento a renda per capita na região cafeeira (nisso melhor que o Sul);
  • Bahia – cacau surge como alternativa à cana e fumo goza de grande mercado na Europa;
  • Pouco crescimento populacional e na renda per capita, no entanto;
  • Amazônia – borracha teve grande importância, inclusive nacional, no final do século XIX (15% das exportações brasileiras);
  • Crescimento acentuado da renda per capita  na região, assim como das importações;
  • Crescimento de renda maior que o da Europa Ocidental, mas menor que o dos EUA.

XXVI. O FLUXO DE RENDA NA ECONOMIA DO TRABALHO ASSALARIADO

  • Estrutura muito distinta e menos estável que a escravidão;
  • Assalariados gastam boa parte de sua renda em consumo; proprietários retêm parte de sua renda para aumento de capital;
  • Aumento de impulso externo melhora o uso de fatores de produção internos;
  • Como salários, ainda que estáveis, eram superiores aos de outros setores da economia, muita gente vinha para a região;
  • Crescimento da importância relativa dos assalariados.

XXVII. A TENDÊNCIA AO DESEQUILÍBRIO EXTERNO

  • Impossibilidade de adaptar-se às regras do padrão-ouro;
  • Intercâmbio per capita maior que tenda monetária per capita;
  • Economia sujeita a oscilações bastante agudas;
  • Ouro como “moeda internacional”;
  • Quando procura monetária supera as exportações, passamos a ter desequilíbrio. Usar reservas metálicas fez-se necessário;
  • Crise em países dependentes -> queda no valor das exportações. Lenta queda nos preços de mercadorias importadas = crise.
  • Achava-se, erroneamente, que as finanças brasileiras funcionavam como as europeias.

XVIII. A DEFESA DO NÍVEL DE EMPREGO E A CONCENTRAÇÃO DE RENDA

  • Elevação de salário médio refletia aumento na produtividade;
  • Para os aumentos ocorrerem, eram necessários aumentos dos investimentos em capital;
  • Não havia grandes pressões por aumentos nos salários, fazendo com que aumentos de capital concentrassem-se na renda dos proprietários;
  • Grande oferta de terras levou à produção extensiva.
  • Pouco estímulo para aumento da produtividade;
  • Flutuação dos preços: expansões e contrações na renda dos proprietários;
  • Mudanças cambiais mudam o poder aquisitivo externo da moeda nacional;
  • Socialização das perdas e concentração dos lucros do café no início do século XX;
  • Crises tinham decorrências mais graves em países dependentes;
  • Manutenção de nível de exportações = manutenção no nível de emprego.

XXIX. A DESCENTRALIZAÇÃO REPUBLICANA E A FORMAÇÃO DE NOVOS GRUPOS DE PRESSÃO

  • Salário real das populações urbanas era particularmente afetado por variações cambiais;
  • Imposto de importação era cobrado a taxa fixa de câmbio;
  • Boa parte do ouro ia para o serviço da dívida externa, emitindo-se moeda para manutenção de serviços públicos básicos;
  • Muitos empréstimos externos para manutenção da taxa de câmbio;
  • Adstringência de meios de circulação na transição Império-República, devido ao crescimento do comércio exterior e ao fim da escravidão;
  • Aumento de divergências eao fim do período imperial: grande X pequena propriedade;
  • Maior demanda por serviços públicos no sul do país;
  • Revolução de 1889 prega a autonomia regional;
  • Permissão da emissão de moeda aos bancos regionais -> expansão do crédito;
  • Depreciação cambial;
  • Joaquim Murtinho, Ministro da Fazenda de Campos Salles (1898-1902) adotou base mais crítica em sua política econômica;
  • Deflação e aumento das exportações de borracha = equilíbrio externo;
  • Grupos industriais não gostam da depreciação cambial, pois dificulta a aquisição de fatores produtivos importados (aparelhos e algumas matérias-primas);
  • Tensão entre Governo Federal e Governos Estaduais nos primeiros decênios do século XX.

PARTE QUATRO: ECONOMIA DE TRANSIÇÃO PARA UM SISTEMA INDUSTRIAL NO SÉCULO XX

XXX.  A CRISE DA ECONOMIA CAFEEIRA

  • Imigração era feita basicamente através do Estado de São Paulo (descentralização);
  • Muito e fácil crédito;
  • Grande crescimento na oferta de café brasileiro (75% da produção mundial);
  • Contração artificial da oferta;
  • Queda dos preços na última década do século XIX;
  • Estoques se avolumaram;
  • Convênio de Taubaté -> valorização artificial do café;
  • ->        Governo compraria excedentes;
  • ->        Financiamentos de empréstimos estrangeiros;
  • ->        Novo imposto;
  • ->        Desencorajamento de expansão das plantações existentes;
  • Pressões de vários grupos, devido à socialização de perdas;
  • Falta de alternativas ao café – aumento da produtividade (grande vantagem relativa);
  • Crise Mundial derrubou de vez o valor do café (1929);
  • Desequilíbrio estrutural entre oferta e procura;
  • Pressão inflacionária;
  • Crise = fim de reservas metálicas e fuga de capitais.

XXXI. OS MECANISMOS  DE DEFESA E A CRISE DE 1929

  • Socialização de perdas;
  • Depreciação cambial;
  • Retenção de estoque, expansão do crédito;
  • Procura inelástica do café no mercado internacional;
  • Programa de fomento da renda nacional e manutenção do emprego;
  • Brasil superou a crise já em 1933 (EUA o fizeram apenas em 1934, parcialmente).

XXXII. DESLOCAMENTO DO CENTRO DINÂMICO

  • Desequilíbrio externo -> elevação do preço de artigos importados;
  • Diminuição das importações;
  • Situação inédita: preponderância do setor ligado ao mercado interno no processo de formação de capital;
  • Migração de capital para outros setores;
  • Indústria e agricultura superam rapidamente os efeitos da crise;
  • Atividades ligadas ao mercado interno recebiam novos investimentos, aproveitamento mais intenso da capacidade instalada;
  • Compra de equipamentos de segunda mão de empresas quebradas pela crise no exterior;
  • Crescimento da procura por bens de capital;
  • Capacidade de importação não se recuperou nos anos 30;
  • Crescimento de 50% na produção industrial entre 1929 e 1937;
  • Substituição de importações;
  • Produtores para o setor interno x exportadores.

XXXIII. O DESEQULÍBRIO EXTERNO E SUA PROPAGAÇÃO

  • Barateamento de produtos de produção interna;
  • Taxa cambial ganhou mais importância;
  • Valorização cambial = problemas de competitividade do setor industrial.
  • Pressão por rebaixamento da taxa cambial graças a sucessivos saldos positivos na balança de pagamentos;
  • Na Segunda Guerra, houve fixação da taxa cambial;
  • Capacidade produtiva e exportações em crescimento;
  • Redução de renda per capita de 10% entre 1937 e 1942;
  • Dificuldades de transporte para importação e exportação;
  • “Sobreesforço de guerra”;
  • Aumento de despesas militares, diminuição de subsídios;
  • Baixa geral da produtividade;
  • Começo da Guerra: desemprego, capacidade produtiva não utilizada em diversos países;
  • Inflação;
  • Favorecimento aos exportadores;
  • Preços das importações crescem com menor rapidez;
  • Revalorização da moeda brasileira.

XXXIV. REAJUSTAMENTO DO COEFICIENTE DE IMPORTAÇÕES

  • Volta ao nível de gastos em importações de 1929;
  • Controles seletivos de importações. Intensificação do processo de industrialização do país;
  • Redução relativa de manufaturas acabadas de consumo, em benefício de bens de capital e matérias-primas;
  • Intensificação do processo de crescimento do pós-guerra;
  • Baixa relativa de preços devida ao aumento da produtividade beneficiou a população em geral;
  • Desvalorização cambial seria péssima para a indústria, mas boa para importadores e exportadores. Seria recuperado o equilíbrio oferta-procura de produtos importados;
  • Houve também crescimento do mercado e isso ajudou;
  • Não houve uma simples transferência do setor exportador para o setor interno;
  • Setor industrial era o maior absorvedor de divisas geradas.

XXXV. OS DOIS LADOS DO PROCESSO INFLACIONÁRIO

  • Aumento da eficácia marginal das inversões nas indústrias;
  • Declínio do crescimento à partir de 1953;
  • Inflação neutra -> sem efeitos reais;
  • Guerra da Coreia -> pressão inflacionária;
  • Mecanismo de ampliação dos desequilíbrios provenientes do exterior – setor primário.

XXXVI. PERSPECTIVA DOS PRÓXIMOS DECÊNIOS

  • Transferência do centro dinâmico para o mercado interno (acerto parcial);
  • Modificação do papel do comércio exterior (acerto);
  • Argentina: grande crescimento entre 1900 e 1929 continuaria (errou feio);
  • Sul torna-se um mercado mais importante para o Nordeste que o exterior (acerto parcial);
  •  Fluxo de mão-de-obra do lugar menos produtivo (Nordeste) para o mais produtivo (Sudeste) (acertou na mosca);
  • Monocultura prejudica a produtividade do Nordeste (sim, a variação ajudou no crescimento da produtividade da região);
  • População brasileira em 2000 seria de 225 milhões (errou, devido à diminuição do número de filhos por mulher, principalmente).

—-

Fichamento & Quadro-síntese, por PGDerolle | Referência bibliográfica: MOTA, Lourenço Dantas. Introdução ao Brasil: um Banquete no Trópico.

Tese: com os conceitos inovadores de centro-periferia, de subdesenvolvimento, de trocas desiguais entre produção de matérias-primas versus manufaturas no comércio internacional – contra a posição teórica dominante, das vantagens da especialização provocada pelo comércio internacional livre -, de formação de uma estrutura dual na periferia, obstáculos ao desenvolvimento, e reiteração do subdesenvolvimento, constituem a base sobre a qual se assenta o trabalho de Celso Furtado. A influência de Karl Marx, o fundador do marxismo, é patente em Celso Furtado e no seu livro, embora também sem citação. A junção não justaposta, não mecânica, não simplista entre teoria e história é mais importante contribuição silenciosa de Marx na obra de Furtado. Recentemente, este tem ressaltado essa dívida. Mas, sem dúvida, a contribuição mais marcante é a de John Maynard Keynes, o economista inglês que revolucionou a teoria econômica neste século, com sua obra ‘A teoria geral do emprego, do juro e da moeda’. A história econômica realizada por Furtado é, de certa forma, uma releitura keynesiana da história brasileira. A teoria de Keynes ajudou Furtado a deslindar, por exemplo, a autonomia do Estado brasileiro para realizar as ações intervencionistas a partir da Revolução de 30, bem como ampliar o alcance das transformações econômicas do ciclo do café que ajudaram na criação do mercado interno, diferenciando-o dos anteriores ciclos da história econômica nacional: é a teoria keynesiana da demanda como núcleo do processo econômico capitalista que possibilita essa operação interpretativa. Estrutura e conteúdo A pretensão do livro é abranger toda a formação nacional, sua economia, sua sociedade, suas regiões, suas diversas formas de Estado, de governo e de regimes políticos. Furtado parte do núcleo colonial exitoso, a região produtora de açúcar, correspondente, hoje, ao Nordeste, explicando como essa forma uma periferia próxima e outra remota, a primeira em seu entorno nos sertões do Nordeste e a segunda a partir de Piratininga, hoje São Paulo, estendendo-se até o Rio Grande do Sul. Como sistemas autônomos, sem relação com a zona do açúcar, formam-se as economias e sociedades do Maranhão e mais remotamente da Amazônia, inicialmente estados separados da colônia brasileira. O núcleo do ouro, em torno da capitania de Minas Gerais, é o elemento fundamental de articulação entre a região do açúcar e a periferia remota de Piratininga.

Capítulo Descrição
Capítulo 1 Criação da colônia como um empreendimento típico da expansão comercial mercantilista da Europa ocidental. A forma de monopólio da metrópole sobre a colônia, típica, por outro lado, do próprio mercantilismo, isto é, exclusividade das transações do novo território com a potência descobridora e colonizadora, não aparece como um atributo do caráter português, mas ao contrário, deriva de uma estratégia que buscou não repetir o fracasso da colonização espanhola na América (extração de metais), assim, Portugal opta pela exploração agrícola. Faz comparação entre as colônias de povoamento e as de produção: i. Colônias de produção são exitosas no começo, devido a sucessos comerciais, mas há impedimentos que atrapalham o futuro, como a estrutura escravista, muito concentrada em termos de propriedade da terra e das rendas produzidas; ii. Colônias de povoamento: são abertas para a imigração europeia, fundando-se em estruturas sociais mais maleáveis, como acesso mais fácil à terra, dando lugar à pequena propriedade. Portugal faz acordo com Inglaterra (Tratado de Methuen), com o que a economia luso-brasileira se transforma em dependência da Inglaterra já que à mesma foram concedido privilégios comerciais e diplomáticos com a colônia brasileira. O novo ciclo do ouro financiará a submissão de Portugal à Inglaterra. A independência brasileira será negociada nesse quadro.
Capítulo 2 ‘Economia escravista de agricultura tropical’. Furtado avança além de seus predecessores na história econômica da colônia e da nação, ao conceder especial atenção ao que ele chamará ‘complexo econômico nordestino’. Para o êxito da empresa agrícola, contribuirá a experiência portuguesa de produção do açúcar nos Açores, a presença do financiamento holandês para a fundação de engenhos e a solução encontrada para o problema da mão de obra que, na quase impossibilidade da migração a partir do próprio Portugal e de outros lugares da Europa, terminará sendo o negro escravo trazido da África. O fluxo monetário interno é fraquíssimo, mas o direcionamento para fora dos resultados da exploração açucareira é fortíssimo. Do lucro, os proprietários tirarão seu próprio consumo, na sua maior parte constituído de mercadorias importadas da metrópole. Animais de tiro fazem-se necessários para o transporte do açúcar, o que dá lugar à criação da periferia em torno da região açucareira, que se projeta, assim, para os sertões do Nordeste, penetrando no Ceará, Piauí e altos sertões da Bahia. A economia pecuária era complementar e dependente, não concorrente. ‘Complexo econômico nordestino’: um setor exportador de alta lucratividade e elevadíssima concentração da propriedade e das rendas, sustentado sobre o trabalho escravo, em articulação com um setor de subsistência de baixa produtividade e baixos lucros. É esse complexo, que Furtado chamou de dual (força e fraqueza), que marcará definitivamente o Nordeste até nossos dias. A SUDENE é baseada na teoria do ‘complexo econômico nordestino’.
Capítulo 3 Deslocamento do centro dinâmico colonial para a região aurífera, que teve Minas Gerais como epicentro. Ciclo do ouro: a influência desse deslocamento na estruturação das economias meridionais do Brasil. A influência desse deslocamento estende-se até o mais remoto sul: ficará explícita a ligação entre produção de charque no Rio Grande do Sul, a produção de mulas para o transporte, seu itinerário pela então comarca do Paraná, criando economias de manutenção e trânsito da mercadoria transportadora, com a região do ouro. Furtado faz derivar da regressão econômica do ouro, assentando as bases do que será denominado como o hinterland mineiro e do centro-oeste. O ouro promoverá um fenômeno demográfico da maior importância, com migração espontânea de Portugal, pela primeira vez da história da colônia, e deslocamentos das reservas de escravos da região açucareira em decadência. Será uma atividade de baixa capitalização, isto é, pouquíssima exigência de máquinas, instrumentos e processos mais exigentes, com alta lucratividade. O ciclo do ouro foi muito rápido, durou em torno de 50 anos. Deu lugar a uma sociedade menos rica que a gestada no engenho de açúcar do Nordeste, mas com a riqueza menos concentrada, devido às características da exploração e ao lugar do homem livre nela. A emergência do ouro no Brasil financiou a dependência portuguesa na sua relação comercial com os ingleses. Em seu declínio, a Inconfidência Mineira é um doloroso episódio do declínio e não do auge do clico aurífero.
Capítulos 4, 5 e 6 Breve explosão da economia do Maranhão, no vazio da produção mundial de algodão, provocados pelas guerras de independência das treze colônias inglesas contra a Inglaterra, no fim do século XVIII, como parte do fim da época colonial. O Maranhão solucionará o problema da mão de obra também pelo escravismo dos negros africanos, em tal escala e intensidade que fez de São Luís, sua capital, a cidade mais negra do Brasil, que muitos pensam ser Salvador. A economia maranhense somente voltará a conhecer um enorme e rápido auge econômico na segunda metade do século XIX, de novo como resultado da queda da produção de algodão provocado pela Guerra de Secessão nos EUA já independentes. A expansão do café é imediatamente ligada às formas do trabalho escravo, à sua incapacidade de oferta, ao crescimento do custo do trabalho escravo, pelo incremento do custo social do controle frente à crescente rebelião dos escravos. Furtado concede toda centralidade à geração de renda que a economia cafeicultora propiciava, a qual, como forma de resolução da questão do trabalho, elaborava uma divisão social do trabalho mais rica e mais diversificada do que haviam sido as anteriores economias do açúcar e do ouro fundadas no trabalho escravo. A influência de Keynes é elaborada por Celso Furtado dando centralidade à demanda, seja a do trabalho, seja aquela propiciada pelo fluxo de renda gerado pela economia cafeicultora. Construção do dual-estruturalismo cepalino-furtadiano: a economia do café será o fundamento do setor moderno, enquanto as economias de subsistência de Minas e do Nordeste, e o resto da economia açucareira também em regressão, funcionarão como o setor arcaico ou atrasado. A articulação da economia nacional entre setor moderno e setor atrasado impedia ao primeiro a internalização de um setor de produção de bens de capital. São as bases teórico-históricas para a emergência do padrão de relações centro-periferia e a constituição do subdesenvolvimento como formação histórica singular, e não uma fase do desenvolvimento capitalista primitivo em direção à maturidade. O abalo da estrutura colonial e a estagnação econômica de longo prazo, desde o fim do ciclo do ouro, deram lugar, na interpretação de Celso Furtado, às chamadas revoltas regionais, que explodem do Pará ao Rio Grande do Sul, sendo esta, provavelmente, a mais socialmente ancorada, nas classes da então província sulista. Há outras interpretações de caráter liberal de verdadeiras revoluções. Para Furtado, o esmagamento das revoluções regionais preservou a unidade nacional, grande trunfo para uma economia moderna. O específico da expansão do café e da nova economia por ela instaurada, em direção ao trabalho assalariado, será a forma pela qual é resolvido o problema da mão de obra. Disto decorrerá a existência de uma economia monetária, cujo pagamento dar-se-á por moedas. Disto decorrerá a formação de um fluxo de renda, isto é, de remunerações de proprietários e trabalhadores. A migração europeia substitui os escravos africanos. A Itália será a principal fonte, dado o processo de unificação do Estado tardio em relação a outras nações europeias. Mercado interno mais diversificado. A liquidação do trabalho escravo é determinada, em última instância, pela dinâmica da economia do café. ‘Política de valorização’. Com uma demanda que dependia do exterior, a economia nacional não podia controlar, autonomamente, suas próprias necessidades de dinheiro externo – ouro e divisas – e interno, a moeda nacional. Essa tendência levou a outra: a de uma quase permanente tensão para elevação dos preços internos, ou ao descompasso entre a oferta real de bens externos, importados, e o total da procura interna, também real, posto que se haviam feito pagamentos a proprietários e trabalhadores por uma produção que podia não ser vendida; a circulação monetária interna, expandida para pagar os chamados fatores da produção, não retraía imediatamente quando uma crise externa aparecia. Esta será a chamada teoria estrutural da inflação, uma fatura teórica da Cepal e, entre nós, de Celso Furtado, que iluminará as opções de política econômica e política monetária no Brasil durante décadas.
Capítulo 7 Frente aos problemas de retração da demanda externa, seja pela redução das quantidades, seja pela redução dos preços internacionais, as classes dominantes do café e suas expressões políticas começaram a realizar o que passou a ser chamado de ‘política de valorização’, isto é, a defesa da produção e dos preços, o que levou à armazenagem de café, permanecendo o pagamento aos produtores e trabalhadores. Defendeu-se o emprego interno, ou seja, defender a renda. Esse ‘nó górdio’ é cortado pela Grande Depressão de 1929, que, de uma vez, derruba demanda e preços e promove uma fuga de capitais estrangeiros do Brasil para os centros internacionais, sobretudo para os EUA. Queimam-se os estoques de café no Brasil e Getúlio Vargas faz uma correção de rumos nas políticas econômicas, que segue rumo à transformação em direção à industrialização.

—-

Veja também:

Anúncios

10 Respostas para “Formação Econômica do Brasil: Celso Furtado | Fichamento & Resumo

  1. Pingback: Documentário: O longo amanhecer | Celso Furtado | Um pouco de tudo·

  2. estou fazendo um estudo e fichamento da obra Formação Econômica do Brasil de Celso Furtado, é uma obra e tanto, mas é preciso tempo disponível para ler e entender melhor o pensamento do autor.

      • Patrícia, boa noite.
        Eu gostaria de solicitar, humildemente, uma ajuda com relação a esta obra do Celso. Tenho alguns contra argumentos, mas não possuo total confiança. poderia me auxiliar? Tenho um trabalho a fazer com relação à ele.

      • Claro, Leonardo! Não sou especialista no assunto, mas posso tentar lhe ajudar! Mande suas dúvidas por meio do formulário de contato, que se encontra na página about, para que possamos dialogar.

        Abraços

  3. Pingback: ABC da Economia Internacional | Internacionalista·

  4. Pingback: Edital de Economia: Resumos & Fichamentos |·

  5. Patrícia, acredito que na tabela dos capítulos 4, 5 e 6 “A migração europeia dará lugar aos escravos africanos”. Não seria o contrário? Com a chegada dos italianos assalariados e tal…? abs =) bons estudos!

    • Olá, Thiago!
      O “dar lugar a” tem sentido de substituir. Para evitar confusões, alterei o texto. Obrigada pelo apontamento!
      Abraços,
      Patricia

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s