Geografia: Globalização e Divisão Internacional do Trabalho

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A Divisão Internacional do Trabalho

A DIT clássica:

  • Centro <- produtos manufaturados, investimentos e empréstimos -> Periferia
  • Centro <- Transferência espacial do valor -> Periferia.
  • Centro <- produtos primários, lucros e juros -> Periferia.
  • Trocas desiguais/deterioração dos termos de troca.
  • Nova DIT:
    • Relação entre centro, periferia e semi-periferia.
    • A semi-periferia já possui algum nível de industrialização e funciona como centro quando relacionada com a periferia e como periferia quando relacionada com o centro.
    • A indústria não define mais o que é centro ou o que é periferia, o que mantém o centro predominante é a concentração da decisão e da concepção.
    • A execução está dispersa pelo mundo.

Segundo o Manual de Geografia de Bertha Becker, “Entende-se por escala não somente o grau de aproximação ou afastamento físico, mas escala dos processos, a escala analítica. Podemos assim analisar a DIT sob algumas óticas distintas. É necessário, primeiro, identificar quais são as estruturas chaves da economia global. As fábricas, minas e plantações cederam suas posições para os mercados financeiros, para as firmas de serviços corporativos avançados, para os bancos e para as sedes das corporações transnacionais. A produção industrial não é mais o coração da economia global, apesar de conservar certa importância. Assim, a própria ideia de países industrializados e países não industrializados perde força. A DIT deve ser entendida sempre numa visão multiescalar. O cenário resultante é um mundo profundamente segmentado, interdependente e desigual em suas múltiplas escalas. A DIT é modificada pela organização dos países em blocos econômicos, pois estes arranjos alteram o valor potencial dos territórios, fazendo com que as corporações distribuam a sua produção de acordo com as novas realidades criadas.”

Ainda no Manual de Bertha Becker, é importante ressaltar:

  • Economia globalizada é aquela com capacidade de funcionar como uma unidade, em tempo real e em escala planetária. Foi apenas no final do século XX que esta combinação aconteceu, baseada nas tecnologias de informação e comunicação (CASTELLS, 2000), bem como no avanço da logística, que contribuiu para “a redução das barreiras operacionais que separam os pontos de produção, tornando ‘fluidos’ os processos produtivos realizados em espaços diferentes e os aproximando do consumo final” (CORO, 2003. p. 99);
  • Instituições que marcam o início da globalização:
    • Mercado financeiro global;
    • Empresas transnacionais;
    • Organização Mundial do Comércio
    • Blocos econômicos.
  • Os jatos da Embraer, modelo EMB 170/195, são exemplos dos processos de globalização, pois cada parte da máquina é composta por peças de diferentes companhias localizadas em diferentes partes do mundo. A japonesa Kawasaki e a belga Sonaca são responsáveis pela fabricação das asas. A francesa Latécoère, responsável por duas seções da fuselagem. A espanhola Gamesa é fornecedora da cauda. Dos Estados Unidos, a General Electric fornece as turbinas, a Honeywell, os sistemas aviônicos (equipamentos eletrônicos), a Hamilton Sundstrand, a unidade de controle de força (APU) e os sistemas elétricos e de controle ambiental. A alemã Liebherr fornece o trem de pouso, as rodas e os freios. Coube à Embraer, além da liderança do projeto, toda parte de concepção e de anteprojeto, o desenvolvimento e a fabricação da fuselagem dianteira, parte da fuselagem central e carenagens da junção asa-fuselagem, montagem da asa e, no final, a integração total da aeronave (VASCONCELOS, 2003);
  • Os limites no comércio internacional (de mercadorias e serviços) ficaram evidentes com o fracasso da chamada Rodada de Doha – fórum de liberalização comercial da Organização Mundial de Comércio. Tal fracasso está relacionado justamente ao impasses quanto à abertura de mercados internos e uma mostra de que não se pode ignorar a persistência do Estado-nação e a do papel dos governos na definição da estrutura e da dinâmica econômica. Um mercado internacional totalmente aberto é improvável, pois os governos dos Estados-nações, dentro da concorrência global, tendem a promover o interesse de seus cidadãos e das empresas ali sediadas (CASTELS, 2000);
  • Do ponto de vista dos países de origem dos migrantes, o processo reduz a pressão sobre os serviços públicos essenciais e, em alguns casos, as remessas de dinheiro destes migrantes podem ser bastante significativas para as economias locais. Estimativas do Banco Interamericano de Desenvolvimento para o ano de 2010 (MALDONADO, 2011) indicam que os latino-americanos residentes no exterior enviaram para seus países cerca de US$ 58,9 bilhões. Em termos relativos, este fluxo é extremamente relevante em países como Guatemala, Jamaica, Nicarágua, El Salvador, Honduras, Haiti e Guianas, onde estas remessas superam 10% do PIB nacional;
  •  A nova divisão do trabalho industrial, no Brasil, é acompanhada de uma nova repartição geográfica. Em ramos como metalúrgica, mecânica, material elétrico e comunicação, transportes, papel e papelão, indústria química e produtos de materiais plásticos, a maior concentração dos estabelecimentos é, ainda, na região sudeste, seguida da região sul.

TPS 2009 – Questão 36

A partir de meados da década de 90 do século passado, a denominada guerra fiscal entre os estados brasileiros intensificou-se. A abertura econômica atraía, então, novos fluxos externos de investimentos industriais para o país e estimulava a guerra dos lugares.
A respeito desse assunto, julgue (C ou E) os itens que se seguem.

  1. ( ) O processo de desconcentração regional da indústria brasileira favorece o prolongamento da disputa entre as unidades federativas com base na renúncia fiscal.
  2. ( ) O setor calçadista, ameaçado pela competição chinesa, reorganizou-se com base nos benefícios da guerra fiscal, privilegiando a relocalização de plantas industriais nos Estados de maior produtividade do Centro-Sul.
  3. ( ) O Governo Federal, por meio do Conselho Nacional de Política Fazendária, implementou medidas que impediram a queda na arrecadação de impostos estaduais, como o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS).
  4. ( ) Segmentos da indústria de aviões EMBRAER foram deslocados para estados nordestinos em razão do menor custo da mão de obra, o que garantiu a competitividade internacional dessa indústria.

A globalização para Milton Santos

O mundo como fábula

Este mundo globalizado, visto como fábula, erige como verdade um certo número de fantasias, cuja repetição, entretanto, acaba por se tornar uma base aparentemente sólida de sua interpretação. Fala-se, por exemplo, em aldeia global para fazer crer que a difusão instantânea de notícias realmente informa as pessoas. A partir desse mito e do encurtamento das distâncias – para aqueles que podem realmente viajar – também se difunde a noção de tempo e espaço contraídos. Há uma busca de uniformidade, ao serviço dos atores hegemônicos, mas o mundo se torna menos unido, tornando mais distante o sonho de uma cidadania verdadeiramente universal.

O mundo como é: globalização como perversidade

Para a grande maior parte da humanidade a globalização está se impondo como uma fábrica de perversidades. O desemprego crescente torna-se crônico. A pobreza aumenta e as classes médias perdem em qualidade de vida. A educação de qualidade é cada vez mais inacessível. A perversidade sistêmica que está na raiz dessa evolução negativa da humanidade tem relação com a adesão desenfreada aos comportamentos competitivos que atualmente caracterizam as ações hegemônicas. Todas essas mazelas são direta ou indiretamente imputáveis ao presente processo de globalização.

O mundo como pode ser: uma outra globalização

Pode-se pensar na construção de um outro mundo, mediante uma globalização mais humana. As bases materiais do período atual são, entre outras, a unicidade da técnica, a convergência dos momentos e o conhecimento do planeta. O primeiro desses fenômenos é a enorme mistura de povos, raças, culturas, gostos, em todos os continentes. A isso se acrescente, graças aos progressos da informação, a mistura de filosofias, em detrimento do racionalismo europeu. Um outro dado de nossa era, indicativo da possibilidade de mudanças, é a produção de uma população aglomerada em áreas cada vez menores, o que permite ainda maior dinamismo àquela mistura entre pessoas e filosofias.

Guerra fiscal, Guerra dos Lugares:

Fenômeno crucial na Geografia Econômica é o de Guerra de Lugares, em que grandes empresas disputam áreas remotas com a contrapartida de promover investimentos. A busca por essas áreas dá-se principalmente pela oferta de mão de obra barata e qualificada; Regiões como Nordeste e Norte acabam sendo beneficiadas com esse fenômeno. Segundo Milton Santos, em “O Brasil: território e sociedade no início do século XXI. Capítulo V: Uma reorganização produtiva do território”:

(…) buscando os benefícios regionais, diversas empresas procuraram Estados nortistas e nordestinos. As fábricas de tratores e empilhadeiras instalaram-se em Tocantins, Piauí e Pernambuco, enquanto na Paraíba implantou-se uma indústria de motocicletas. Firmas de automóveis, utilitários e caminhões, favorecidas por esse regime, estabeleceram-se no Acre (Zam), em Tocantins (Araguaia), no Ceará (Troller e Taquari da Subaru) e na Paraíba (Inpavel). Minas Gerais e São Paulo participam também da concorrência pelos investimentos. A coreana Hyundai pretende instalar-se em Minas Gerais com financiamento público a juros subsidiados.

O nível de emprego industrial na Zona Franca conheceu uma evolução negativa, pois de 60.669 pessoas ocupadas em 1988 passou a 48.090 pessoas em 1996. Quase todos os ramos participaram dessa queda, mas especialmente o metalúrgico, madeireiro, têxtil e óptico. Mas, diante da concorrência externa dos produtos industrializados, foram instituídas áreas de livre comércio nas diversas fronteiras e incentivos ao turismo como um modo de impedir a desvalorização do lugar.

Robertson, em Globalização e fragmentação no mundo contemporâneo, propõe, de maneira didática, periodização de diferentes fases do processo que levou à globalização:

  • Fase I ou embrionária (XV-XVIII): decadência do feudalismo, crescimento das comunidades nacionais, e a difusão dos conceitos de indivíduo e humanidade;
  • Fase II ou incipiente (XVIII – 1870): estados unitários se fortalecem, formalização dos conceitos de relações internacionais e da problemática do internacionalismo;
  • Fase III ou decolagem (1870-1920): aceleração das comunicações, início do movimento ecumênico, I GM;
  • Fase IV ou de luta pela hegemonia (1920-1960): disputas e guerras, estabelecimento da ONU, sentimento humanitário global a partir do Holocausto e da bomba atômica;
  • Fase V ou da incerteza (1960-1990): inclusão do Terceiro Mundo nas redes do sistema industrial e intensificação da consciência global, complexificação do conceito de indivíduo com as questões de gênero e etnia, sistema internacional mais fluido, poderoso sistema de mídia global, questões ecológicas mundiais.

Fordismo / Toyotismo

Fordismo:

Organização da produção.

  • Produção em série/padronizada/standartizada/massificada.
  • Concentração da produção em imensas plantas produtivas.
  • Tempo ocioso muito caro.

Organização do trabalho.

  • Taylorismo – cientificização do processo produtivo.
  • Produção fragmentada em três setores: concepção, decisão e execução. – Fragmentação da execução: tarefas mínimas. Busca da eficiência. . Organização dos trabalhadores.
  • Alta sindicalização – facilitada pela absorção de mão de obra e pela concentração da mesma próxima às empresas.
  • Conquista de direitos trabalhistas.

Organização do mercado.

  • Mercado interno.
  • Massificação da capacidade de consumo – trabalhador também deve ser consumidor.

Papel do Estado.

  • Estado keynesiano/Estado de bem-estar social.

Organização do espaço

  • Concentração
  • Espaços de produção – Concentração da mão de obra e das etapas de produção;
  • Espaços urbanos – Fatores de concentração: disponibilidade de capital, de infraestrutura, de mão de obra e de mercado consumidor -> Economias de aglomeração.
  • Formação de grandes metrópoles industriais -> Formação das megalópoles – Boston-Washington, por exemplo;
  • Divisão internacional do trabalho.

Pós-fordismo ou toyotismo: Passagem de um regime de acumulação rígida para um regime de acumulação flexível.

Flexibilidade -> A capacidade de adaptação à novas condições de mercado

Organização da produção.

  • Just in time – produção que responde às demandas específicas.
  • Quantitativo.
  • Qualitativo.
  • “Você pode ter um carro de qualquer cor, desde que seja preto.” Fordismo.
  • “Você pode ter um carro de qualquer cor, desde que seja Fiat.” Pós-fordismo.

Organização do trabalho.

  • Terceirização – empresas fornecem mão de obra e trabalham para outras empresas. Atividades de meio.
  • Subcontratação – As empresas deixam a execução para outras empresas e se concentram na concepção e na decisão. Atividades de fim.

Organização dos trabalhadores.

  • Dificuldades para a organização sindical.
  • Tendência de perda de direitos trabalhistas.

Organização dos mercados.

  • Peso cada vez maior do mercado externo.
  • Plataforma de exportação – produção voltada para fora. Mão de obra barata é chave para o sucesso do modelo.

Papel do Estado.

  • Estado neoliberal. Redução dos gastos do Estado e dos custos do trabalho.

Organização do espaço.

  • Desconcentração.
  • Espaços urbanos – deseconomias de aglomeração: saturação dos espaços e incorporação de custos na produção. Tendência de terciarização de alguns centros urbanos.

Questões de 3a fase

2009

1. Muitos economistas reconhecem a Índia e a China como as novas “locomotivas” (como se diz comumente no discurso jornalístico) da economia mundial. Estabeleça as semelhanças e as diferenças entre os modelos de desenvolvimento desses países, avaliando as vantagens comparativas e competitivas de cada um deles.

2. Até a década de 90 do século passado, a indústria automobilística paulista respondia por cerca de 75%da produção nacional de veículos. Hoje, essa participação corresponde a, aproximadamente, 45%. Considerando-se que a produção de automóveis em São Paulo é a mais alta de todos os tempos, como se explica essa redução?

2010

No contexto da atual geografia econômica, a África apresenta-se como a nova fronteira de recursos minerais do planeta, em razão das imensas jazidas existentes em algumas regiões daquele continente. Discorra a respeito das perspectivas da exploração de tais recursos, indicando os principais atores envolvidos no processo e explicando as implicações econômicas e políticas dele decorrentes.


Bibliografia

BECKER, Bertha.Manual do Candidato. Capítulo 3: Geografia Econômica.

MAGNOLI, Demétrio.Geografia para o ensino médio. Capítulo 13: A indústria e o território brasileiro.

BACELAR, Tânia. In CASTRO, Iná. Redescobrindo o Brasil: 500 anos depois. Dinâmica regionalbrasileira nos anos noventa: rumo à desintegração competitiva?

SANTOS, Milton. Poruma outra globalização. Introdução.

SANTOS, Milton. OBrasil: território e sociedade no início do século XXI. Capítulo V: Umareorganização produtiva do território.

HAESBAERT, Rogério.Globalização e fragmentação no mundo contemporâneo.

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