Geografia: Geografia Política

MackinderHeartland

Pode-se dizer que a Geopolítica, termo cunhado pelo jurista sueco Kjéllen, engloba diversos aspectos, acompanhando os diferentes rumos que o mundo toma. Nos séculos XIX e XX, o realismo político incitava a criação de teorias condizentes com o poder e com a conquista do espaço (raum), características importantes, por exemplo, na unificação tardia de países como a Alemanha. As grandes guerras disputavam influência e poder, tanto no continente como nos oceanos. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a teoria geopolítica entrou em crise, uma vez que diferentes acontecimentos proporcionavam maior dinamismo nas Relações Internacionais. A partir da Guerra Fria, no entanto, a geopolítica volta com maior força, analisando os diferentes vetores do mundo. A conquista do espaço terrestre e marítimo deixa de ser relevante. A polarização do mundo entre capitalismo e socialismo passa a ser a norma, desconstruindo a narrativa pretérita do espaço vital, modificando o sistema internacional e permitindo que a revolução técnica-científica-informacional passe a existir e a influenciar o sistema internacional.

Teórico

Teoria geopolítica

Kjéllen Analogia com a teoria realista das Relações Internacionais, nasceu no século XX e teve sua representatividade no período entreguerras; Possui três características essenciais:a) Política interna e política internacional são áreas distintas e independentes;b) Teoria estadocêntrica;

c) Conquistar o poder com o uso da força;

Ratzel Associa-se a teoria ratzeliana com a unificação alemã, que se preocupa com a coesão social e territorial, com o intuito de consolidar a unidade nacional na interface da integridade territorial;Para este autor, espaço é poder.Principal conceito: espaço vital (expansionismo territorial);
Mackinder 1904, ‘O pivô geográfico da história’;Conceito: heartland -> ‘Quem dominar o leste da Europa domina o heartland, quem dominar o heartland, dominará a Ilha-Mundo, e quem dominar a Ilha-Mundo dominará o mundo.’Segundo Bertha Becker, quatro são os pontos principais de sua teoria:a) Concepção de mundo fechado;

b) Visão histórico-geográfica da luta permanente entre dois grandes poderes antagônicos (oceanos e terras);

c) Conceitos-chave: região-pivô (heartland), crescente marginal (inner crescent) e crescente insular (outer crescent);

d) Conceito estratégico de oceano central (midland ocean).

Haushofer Conceito de pan-regiões: pan-região americana (EUA), pan-região Euro-África (Alemanha), pan-região Ásia (Japão) e pan-Rússia + Índia; essas pan-regiões romperiam com o poder inglês;
Mahan Por ser um almirante americano, reconhece a desvantagem da continentalidade e foca sua atenção aos mares; sendo assim, o poder naval para controle do mar é o que permite o domínio do mundo.
Spykman Área estratégica é denominada Rimland, que são as terras peninsulares da Eurásia, onde se concentram a população, os recursos e as linhas marítimas

Após a Segunda Guerra Mundial, a geopolítica entrou em crise. Somente com o advento da Guerra Fria, as teorias geopolíticas voltaram à pauta internacional. Diferentemente daquelas teorias confeccionadas no contexto das Grandes Guerras, a Guerra Fria adiciona outros aspectos relevantes para se entender a geopolítica, como é o caso das questões econômicas e o debate entre capitalismo e socialismo.

Geopolítica contemporânea

Teórico

Teoria geopolítica

Immanuel Wallerstein Sistema-mundo.O sistema capitalista passa a ser o principal vetor da economia mundial, pois o mundo passa a se submeter a um capitalismo mundializado, reduzindo, portanto, o estadocentrismo do sistema internacional;O autor não se preocupa com quem vai dominar o espaço mundial (raum); ele se preocupa, por outro lado, com qual sistema vai ser a alternativa à economia-mundo.
Ohmae Globalização e descentralização são sinônimos.A economia global está alicerçada sobre 4 i’s:a) Investimentos;b) Indústrias;

c) Informações;

d) Indivíduos

John Naisbitt Atualmente, o que importa não é o volume de capital, mas a velocidade, a flexibilidade e a economia de escopo (inovações). Para as grandes empresas sobreviverem, teriam de proporcionar mais poder às filiais, ou seja, deseconomia de escala.
Samuel Huntington No mundo pós guerra fria, os conflitos não são ideológicos, tampouco econômicos, mas culturais.Regras huntingtonianas:a) Regra de abstenção: não ingerência a guerras alheias ao escopo de sua civilização;b) Regra de mediação conjunta: Estados-núcleo devem negociar entre si para conter as guerras nas linhas de cisão entre essas civilizações.

Crítica: desconsideração pelos direitos humanos em culturas não ocidentais, o que significa a partilha do mundo entre Estados culturalmente análogos, permitindo que eles façam o que bem entender na sua zona de influência.

Francis Fukuyama Atingir a democracia-igualitária.Desafios:a) Fundamentalismo religioso;b) Nacionalismo e outras formas de consciência étnica.

Temas clássicos da geografia Política: as fronteiras e as formas de apropriação política do espaço

Conceitos-chave

  • Revolução científico-tecnológica;
  • Mudanças na organização da produção e do trabalho;
  • Novos padrões de relação com a natureza e com os seus recursos.

Herança ideológica da Geopolítica

  • O mundo é estadocêntrico;
  • Determinismo geográfico: o poder do Estado é dado segundo o contexto do território e a condição do desenvolvimento autárquico.

O papel do Estado

Não se pode dizer em fim do Estado, mas de uma mudança em sua natureza, ou seja, ele não é uma forma acabada, mas um processo.

Território e Fronteira

Ao estudar Geografia Política, temas como território e fronteiras são muito importantes. Com o advento da globalização, os temas supra-mencionados ganham destaque, pelo fato de que ações globalizantes interferem diretamente no entendimento desses conceitos. O meio técnico-científico-informacional incentiva a descentralização dos fatores de produção, a maior mobilidade social e a integração, seja cultural ou econômica entre os países.

Acerca do território, teóricos, hodiernamente, estudam o fenômeno da desterritorialização. Entende-se que indivíduos têm sentimentos, sejam afetivos ou de consciência, sobre determinados territórios, entretanto, a globalização permite que indivíduos tenham esses sentimentos por outros territórios que não o deles, incorrendo no fenômeno de desterritorialização. A falta de pertencimento, ou a vontade de pertencer a diversos locais, muda a sistemática do tradicional pensamento sobre o território.

Em relação às fronteiras, a criação de blocos regionais faz a ideia sobre o assunto ter uma perspectiva distinta das fronteiras tradicionais. No Manual de Geografia de Bertha Becker, a autora propõe o seguinte: “No presente momento, em função das forças globalizadoras, retoma-se o debate acadêmico e público sobre as questões de fronteiras. Chega-se mesmo a cogitar o fim das fronteiras. Quanto a esse último aspecto, Martin alerta que a própria “ideia da formação de ‘blocos de países’ visando obter ganhos de escala parece por si só contradizer a tese do ‘fim das fronteiras’. Ao contrário, são novas fronteiras que estão surgindo, as ‘inter-blocos’, e acrescente-se, sem que as ‘nacionais’ tenham deixado de existir”. Os temas clássicos do expansionismo, do universalismo versus particularismo, bem como do regionalismo – desta feita na escala supranacional – reaparecem com força neste início do século XXI, a partir da problemática das fronteiras e das demarcações territoriais que delas decorrem.”

Ainda, segundo a autora, fronteira e limites são conceitos distintos e, até certo ponto, opostos: enquanto  a fronteira é uma noção que representa indiferenciação, transgressão e conflitos, o limite, em contrapartida, significa diferenciação, contenção e consenso pelo reconhecimento do outro e, portanto, da própria identidade expressa, inclusive, por movimentos de autonomia e resistência.

Formação territorial do Brasil

Segundo Bertha Becker, “pode-se afirmar que a configuração atual do mapa político nacional revela formas diferenciadas de dividir o território e, portanto, de repartir o poder no espaço, formas essas articuladas não só pela divisão interna do poder derivada do sistema federativo, como pela lógica ambiental, apoiada, em grande parte, por forças políticas externas legitimadoras da criação de “espaços institucionalizados” voltados, especificamente, à conservação do meio ambiente e da cultura indígena.”

A organização regional do Brasil é algo muito complexo, uma vez que envolve um país de grandes dimensões que tem passado por um complexo e desigual processo de diferenciação que envolve o espaço e o tempo.

Divisões

Década de 1940: Jacques Lambert:

  • Industrializado
  • Rural / Agrário

1989: Roberto Lobato Corrêa

  1. Centro-Sul: Core Area. Concentração dos centros de decisão política e econômica, industrial, de atividade agropecuária (exportação), urbana (SP, RJ, MG), da reda de circulação (Rodoviária, Ferroviária, Hidroviária), demográfica (fluxos e crescimento), renda, investimentos;
  2. Nordeste: região das perdas. Econômicas (século XVII – açúcar) à atividades de menor valor (mais intensiva em trabalho e apresentam menor conteúdo tecnológico) à avanço do centro-oeste para nordeste; demográficas: em direção ao centro-sul e norte; planos governamentais vêm retendo a população. Relativas perdas políticas: sobrerrepresentação política.
  3. Amazônia: região de fronteira: lógica de economia de fronteira à complexo agroindustrial para o Norte (plano da Amazônia sustentável) romper com a lógica de fronteira; presença frágil do Estado: imprecisão fundiária, ineficácia em fazer valer as leis ambientais; conflitos: assassinatos por questões fundiárias; recepção demográfica: terra barata de fronteira, projetos de colonização dirigida; enclaves do capital.

1999: Milton Santos

  1. Região Concentrada: maior consolidação do meio técnico-científico-informacional (conteúdo tecnológico; setor terciário, inclusive);
  2. Centro-Oeste: periferia de ocupação recente, é integrado, mas periférico; implantação do meio técnico-científico-informacional no meio natural;
  3. Nordeste: periferia de ocupação antiga; produção mais alicerçada no trabalho do que no capital ou na tecnologia;
  4. Amazônia: fronteira; convívio entre fluxos lentos ou tradicionais com fluxos rápidos ou modernos – polo industrial de Manaus.

Os meios (natural, técnico-científico e informacional) no Brasil

Histórico

Uma das periodizações mais frutuosas, do ponto de vista da história do território, talvez seja a de Caio Prado Jr na sua obra Histórica Econômica do Brasil, quando ele propõe considerar oito momentos:

  1. Preliminares (1500-1530)
  2. Ocupação efetiva (1530-1640), definida pelo início da agricultura e suas atividades acessórias
  3. Expansão da colonização (164-1770), marcada pela mineração e ocupação do Centro-Sul, a pecuária e o povoamento do Nordeste, a colonização do vale amazônico e a colheita florestal
  4. Apogeu da colônia (1770-1808), com o renascimento da agricultura e a incorporação do Rio Grande do Sul para a atividade pecuária;
  5. A era do liberalismo (1808-1850), determinada pelo declínio do pacto colonial e o aparecimento do capitalismo industrial;
  6. O império escravocrata e a aurora burguesa (1850-1889), caracterizados pela evolução agrícola, um novo equilíbrio econômico, a decadência do trabalho servil e sua abolição, a imigração e a colonização;
  7. República burguesa (1889-1930), com dois subperíodos – industrialização e imperialismo;
  8. A crise de um sistema a partir de 1930

Na sua importante obra “Formação econômica do Brasil”, Celso Furtado distingue cinco etapas:

  1. Os fundamentos econômicos da ocupação territorial (até a implantação da empresa agrícola);
  2. Economia escravagista da agricultura tropical (Séculos XVI e XVII);
  3. Economia escravagista mineira (Século XVIII)
  4. Economia de transição para o trabalho assalariado (século XIX) com a economia cafeeira, a imigração europeia, a transumância amazônica e a eliminação do trabalho escravo;
  5. A economia de transição para um sistema industrial (século XX), com a crise do café e o deslocamento do centro dinâmico.

Assim como a economia foi considerada como a fala privilegiada da nação por Celso Furtado, o povo por Darcy Ribeiro e a cultura por Florestan Fernandes, pretendemos considerar o território como a fala privilegiada da nação.

Os meios natural, técnico-científico e informacional

O primeiro período (meio natural) é marcado pelos tempos lentos da natureza comandando as ações humanas de diversos grupos indígenas e pela instalação dos europeus, empenhados todos, cada qual a seu modo, em amansar esses ritmos. Uma segunda grande fase é a dos diversos meios técnicos, que gradualmente buscam atenuar o império da natureza. A mecanização seletiva desse verdadeiro conjunto de “ilhas” que era o território exige que se identifiquem subperíodos. O terceiro grande período é a construção do meio técnico-científico-informacional. Cabe, todavia, diferenciar uma primeira fase, um período técnico-científico que, no Brasil dos anos 70, caracterizou-se, entre outros aspectos, por uma revolução das telecomunicações.

Segundo Milton Santos, a lógica centro-periferia, no Brasil, pode ser observada em três períodos:

1. Até a Segunda Guerra Mundial: anterior à unificação do território e do mercado;

∟Brasil policêntrico: O poder carnado no Governo Geral e depois no vice-reinado e no Império era, sem dúvida, centralizador, mas a fraca capacidade de controle do território e a realização fragmentária da economia não permitiam ir além da construção de um Brasil arquipélago.

∟Ideia de unificar o território pelos transportes ganha força, é objeto de uma planificação sistemática e acaba por se realizar mediante a interligação das estradas de ferro e a construção acelerada de uma rede nacional de rodovias.

2. Brasil unificado: fator dinâmico é a indústria e como objetivo a construção nacional;

∟A construção de Brasília acarreta, de forma direta ou indireta, juntamente com a ascensão industrial de São Paulo, a emergência de uma nova arquitetura territorial e de novas centralidades. Pouco a pouco Brasília vai retirando do Rio de Janeiro a centralidade do poder, isto é, das ordens e da natureza pública com as quais o território deveria ser regulado. São Paulo vai subtraindo ao Rio de Janeiro o comando da economia, assumindo, graças a uma indústria capaz de abastecer e equipar o Brasil relativamente unificado pelos transportes, a produção das ordens econômicas e a regulação econômica do território.

3. Processo de globalização que vige até os dias atuais.

∟O fator motor deixa de ser a indústria e passa a ser a informação, ainda que os estudiosos tenham relutado em reconhecer tal mudança. Essa demora na interpretação do movimento histórico deve-se ao fato de que a cidade de São Paulo continua sendo, neste novo período, o polo nacional.

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2 Respostas para “Geografia: Geografia Política

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