Música e RI: o sentimentalismo e a sutileza dos fatos reais

Imagem: Google Images / Ocean's Bridge

Imagem: Google Images / Ocean’s Bridge

Por Patricia Galves Derolle*

A música é uma das formas mais populares de arte no mundo. É uma ferramenta poderosa, que inspira muitas pessoas, pois dita influências e expressa o cotidiano, sentimentos e sensações; exprime tudo aquilo que é acessível a todos. Encontram-se divididas aqui dois tipos de músicas, que nos ajudarão a entender melhor a história por meio desta arte sonora: são as músicas de protesto e as músicas que narram episódios históricos.

A música foi e continua sendo utilizada como forma de protesto, seja contra algo direto (atitudes e determinadas pessoas), seja contra algo indireto, como países, políticas e governos. Como exemplo deste último, pode-se citar o “Eurovision”, um programa televisivo que ocorre anualmente, desde 1956, cujo intuito é descobrir novos talentos musicais na Europa e em países próximos ao continente europeu. Neste programa, muitas vozes foram ouvidas, bem como apreciadas, não somente pelas belas canções, mas pelo sentimento de mudança por detrás delas. Países do sul da Europa, como Bósnia Herzegovina, Sérvia, Montenegro e Macedônia, foram ouvidos enquanto os conflitos na região balcânica aconteciam e conseguiram, ao menos, transmitir para o resto da Europa, por meio do festival, o sofrimento pelo qual seus povos estavam passando. O programa, neste caso, foi utilizado para protestar contra as atitudes dos governos e tentar plantar a ideia de mudança na cabeça dos governantes por meio da música, que comove e mexe com as emoções de todos.

Há também músicas que têm como objetivo imortalizar, pela arte sonora, determinados fatos históricos; são músicas que narram os eventos de uma maneira um pouco diferente dos fatos em si, pois adicionam um toque humano e sensível, além de estamparem uma marca, como a comoção, a liberdade, a revolta contra a forma de governar, o absenteísmo de governos sobre determinadas ações, entre outros. Acabam, portanto, dando voz a um sentimento muitas vezes engasgado no íntimo da população. Diversas bandas como, por exemplo, o U2, que se inspirou em episódios que, de fato, aconteceram e vocalizou toda essa revolta em músicas, como Sunday Bloody Sunday, conhecidas no mundo inteiro. Este tipo de música é baseado nos eventos per se, muitas vezes citando momentos precisos do ocorrido, como também é o caso de Spanish Bombs, do The Clash, cuja banda narra lugares, pessoas e datas da Guerra Civil Espanhola.

Pretendo demonstrar algumas músicas que versam sobre os tipos acima. Afinal, por que não conhecer e estudar Relações Internacionais e História por meio de músicas?

1914-1918 (Primeira Guerra Mundial): I DIDN’T RAISE MY BOY TO BE A SOLDIER, Alfred Bryan

I didn’t raise my boy to be soldier / I brought him up to be my pride and joy / Who dares to place a musket on his shoulder / To shoot some other mother’s darling boy? / Let nations arbitrate their future troubles / It’s time to lay the sword and gun away, / There’d be no war today / If mothers all would say: “I didn’t raise my boy to be a soldier.”

1929 (Grande Depressão): HUNGRY RAGGED BLUES, Aunt Molly Jackson

I’m sad and weary, I’ve got the hungry, ragged blues / Not one penny in the pocket to buy one thing I need to use / I woke up this morning, with the worst blues I ever had in my life / Not a bite to eat for breakfast, a poor coal miner’s wife! /… / No food, no clothes for our children, I’m sure this head don’t lie / If we can’t get more for our labor we’ll starve to death and die!

1936-1939 (Guerra Civil Espanhola) SPANISH BOMBS, The Clash

The hillsides ring with “Free the people” / Or can I hear the echo from the days of ’39? / With trenches full of poets / The ragged army, fixin’ bayonets to fight the other line / Spanish bombs rock the province / I’m hearing music from another time / Spanish bombs on the Costa Brava / I’m flying in on a DC 10 tonight / Spanish songs in Andalucia, Mandolina, oh mi corazón / Spanish songs in Granada, oh mi corazón

1945 (Bomba atômica em Hiroshima e Nagasaki): OLD MAN ATOM, Vern Partlow

I’m gonna preach you all a sermon about Old Man Atom, that’s me / I don’t mean the Adam in the Bible datum / I don’t mean the Adam that Mother Eve elated / I mean the thing that science liberated / The thing that Einstein says he’s scared of / And when Einstein’s scared, brother, you’d better be scared / … / Splittin’ atoms while the diplomats was splittin’ hairs / … / So, listen folks, here is my thesis / Peace in the world, or the world in pieces!

1959-1975 (Guerra do Vietnã): BLOWIN’ IN THE WIND, Bruce Springsteen

Yes, how many times must the cannon balls fly / Before they’re forever banned ? / The answer my friend is blowin’ in the wind / The answer is blowin’ in the wind / … / Yes, how many ears must one man have / Before he can hear people cry ? / Yes, how many deaths will it take till he knows / That too many people have died ? / The answer my friend is blowin’ in the wind / The answer is blowin’ in the wind.

1964-1985 (Ditadura Militar x Redemocratização) VAI PASSAR, Chico Buarque

Num tempo página infeliz da nossa história, passagem desbotada na memória / Das nossas novas gerações / Dormia a nossa pátria mãe tão distraída sem perceber que era subtraída / Em tenebrosas transações / Seus filhos erravam cegos pelo continente, levavam pedras feito penitentes / Erguendo estranhas catedrais / E um dia, afinal, tinham o direito a uma alegria fugaz / Uma ofegante epidemia que se chamava carnaval, o carnaval, o carnaval / Vai passar, palmas pra ala dos barões famintos / O bloco dos napoleões retintos e os pigmeus do boulevard / Meu Deus, vem olhar, vem ver de perto uma cidade a cantar / A evolução da liberdade até o dia clarear.

1992-1995 (Guerra da Bósnia) MISS SARAJEVO, U2

Is there a time for first communion / A time for East Seventeen / Is there a time to turn to Mecca / Is there time to be a beauty queen / … / Dici che il fiume / Trova la via al mare / E come il fiume / Giungerai a me / Oltre i confini / E le terre assetate / Dici che come il fiume / Come il fiume… / L’amore giungerà / L’amore… / E non so più pregare / E nell’amore non so più sperare / E quell’amore non so più aspettare / O lijepa, o draga, o slatka slobodo, dar u kom sva blaga višnji nam bog je dô*.

* Ó bonita, ó amada, ó liberdade desejada, Deus nos proporciona todos os tesouros em você (tradução livre)

1993 (ataque em Warrington – conflitos entre Irlanda e Irlanda do Norte): ZOMBIE, The Cranberries

Another head hangs lowly, / Child is slowly taken. / And the violence caused such silence, / Who are we mistaken? / … / It’s the same old theme since nineteen-sixteen. / In your head, in your head they’re still fighting, / With their tanks and their bombs, / And their bombs and their guns. / In your head, in your head, they are dying…

2003 (Guerra do Iraque): LET’S IMPEACH THE PRESIDENT, Neil Young

Who’s the man who hired all the criminals / The White House shadows who / Hide behind closed doors / They bend the facts to fit with their new stories / … / Of why we have to send our men to war / What if Al Qaeda blew up the leaves / Would New Orleans have been safer that way / Sheltered by our government’s protection / Or was someone just not home that day?

Atualidade (A questão haitiana): HAITI, Arcade Fire

Mes cousins jamais nés / hantent les nuits de Duvalier / Rien n’arrete nos esprits / Guns can’t kill what soldiers can’t see / In the forest we lie hiding, / unmarked graves where flowers grow. / Hear the soldiers angry yelling, / in the river we will go. / Tous les morts-nés forment une armée, / soon we will reclaim the earth. / All the tears and all the bodies / bring about our second birth. / Haïti, never free, / n’ai pas peur de sonner l’alarme. / Tes enfants sont partis, / In those days their blood was still warm

Por serem amplamente apreciadas, compartilhadas e divulgadas, sobretudo, nos dias atuais, são deveras presentes nas nossas vidas e elas continuam nos impressionando, fazendo-nos refletir e, até mesmo, fazendo-nos entender a história do mundo.


V1* Patricia Galves Derolle é graduada e pós-graduada em Relações Internacionais. Já estagiou na Missão do Brasil junto à União Europeia, em Bruxelas, na Missão do Brasil junto à ONU, em Genebra; trabalhou no Escritório de Representação do Itamaraty em São Paulo e na Organização Internacional para Transportes Terrestres (IRU) em Genebra. Atualmente, é Senior Editor da revista digital Modern Diplomacy e  fundadora do site e-Internacionalista. Contato: e.internacionalista@gmail.com

Anúncios

2 Respostas para “Música e RI: o sentimentalismo e a sutileza dos fatos reais

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s