Guest Post: Uma guerreira a serviço da paz, por Sumaia Árabe | Revista Sapientia


FRONTEIRAS DO PENSAMENTO BRASKEM 2013

Foto de Ulisses Dumas / Ag. BAPress.

Acredito que, no meu trabalho e na minha vida, estou fazendo o trabalho que Deus destinou para mim. É por isso que levo muito a sério o que eu faço. Posso sentar aqui e contar várias histórias de como eu vejo essa confirmação de Deus. Há uma passagem na Bíblia que diz que, quando a ação de um homem ou de uma mulher agrada a Deus, esse ato provoca até uma trégua com os seus inimigos.

A ativista liberiana Leymah Gbowee, Prêmio Nobel da Paz em 2011, fala do ato de mobilizar as mulheres em prol da resolução de conflitos, da importância dos jovens na obtenção de conquistas sociais e do papel exercido no fim da guerra civil em seu país.

A portas enormes, talhadas em madeira desgastada, abrem-se em direção a um corredor com piso de mármore. No pátio central, elas se impõem, deixando a luz do dia penetrar dentro da casa. Uma igreja ao lado direito, escura, alta e ornamentada com obras religiosas, denuncia que estamos em solo sagrado. É a Santa Casa da Misericórdia, instituída em Salvador no século XVII, ao lado dos principais poderes, como o Palácio do Governador Geral e a Câmara. Na sala de reunião, obras barrocas, esculpidas em puro ouro enfeitam as paredes. Há trezentos anos, os negros só eram admitidos naquela sala para os serviços de limpeza, e as obras religiosas esculpidas em ouro não deveriam ser tocadas por mãos negras. Hoje, mais de um século após a abolição, uma negra africana entra na santíssima sala de reunião da Santa Casa da Misericórdia e senta-se à cabeceira da mesa talhada em madeira nobre.

Todos os olhos se voltam para ela. Ela é Leymah Gbowee, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz em 2011, junto com outras duas mulheres, a também liberiana Ellen Johnson Sirleaf, atual presidente da Libéria, e a ativista iemenita Tawakkol Karman. O reconhecimento deve-se ao papel decisivo no fim da guerra civil liberiana (1999-2003), ao articular e liderar mulheres de distintas religiões em uma greve de sexo. O feito rendeu-lhe o apelido “guerreira da paz”. Gbowee iniciou seu ativismo no final dos anos 1990, trabalhando com a reabilitação de crianças-soldados. O ponto de virada de sua trajetória deu-se após dois acontecimentos que a marcaram profundamente: um deles foi presenciar um cachorro comer a mão de uma criança no centro de Freetown; o outro diz respeito a um sonho, no qual uma voz lhe dizia para reunir mulheres. Essa seria a forma de acabar com a guerra que resultou em 250 mil mortos e em um índice de estupro de 50% da população feminina.

Cristã, Leymah contou o que sonhara ao pastor de sua igreja. Ouviu dele que deveria honrar seu sonho. A partir desse momento, a guerreira da paz trabalhou na articulação de um grupo de mulheres, composto por centenas de liberianas que se reuniam para rezar, vestidas de branco, em um campo de futebol abandonado. O local não fora escolhido ao acaso: por ali passava todos os dias o ditador Charles Taylor, que ascendeu ao poder após o golpe de estado que iniciou o conflito no país. Foram dois anos de reza até perceberem que os homens não se mobilizavam com a causa. As mulheres, então, decidiram chamar a atenção deles: instituíram uma greve de sexo que acabou obrigando o ditador a incluí-las nas negociações do acordo de paz.

Leymah Gbowee esteve em Salvador no último mês de setembro a convite do evento Fronteiras do Pensamento. Ela falou com os jornalistas e com a Revista Sapientia pouco antes de sua palestra no evento.

Sapientia: Que sentimento a senhora tem agora, ao lembrar-se das lutas travadas e dos acontecimentos vividos enquanto mudava o rumo da história de seu país?

Leymah Gbowee – Eu sou muito feliz por termos alcançado a paz em nosso país depois de quatorze anos de guerra. O sucesso é sempre um sentimento muito bom, mas eu também aprendi que a gente não fica muito tempo celebrando, pois o calar das armas não significa que a paz realmente se instalou. Nosso país passou por quatorze anos de guerra mortal e nós ainda temos muitos desafios à nossa frente. Eletricidade e água corrente ainda são um problema. O sistema educacional tem um grande desafio também. A pobreza ainda é muito grande em várias comunidades. Nós ainda temos as mesmas condições que permitiram que a guerra se instalasse, então o trabalho que temos de fazer com as pessoas ainda está por ser feito. Agora, a celebração acabou e nós temos que trabalhar para mudar as condições que permanecem.

Sapientia: Quando a senhora começou o movimento, imaginava que ele tomaria essa proporção dentro da comunidade internacional e que atrairia a atenção da mídia do mundo todo?

Leymah Gbowee – Não. Quando começamos, estávamos trabalhando para mudar uma situação local, porque éramos nós quem estava sentindo mais o peso daquela situação. Nós éramos aquelas que haviam sido estupradas e abusadas, nossas crianças tinham sido atraídas pelas facções paramilitares, e nós vivíamos uma vida que não nos permitia pensar em um futuro. Então, decidimos que precisávamos fazer alguma coisa para mudar aquilo. Acho que, no final, o que nós fizemos, como mulheres da Libéria, foi um trabalho de amor. Lutar para mudar as possibilidades das nossas crianças para o futuro. Nunca imaginei câmeras apontando para mim como agora, muito menos estar aqui na Bahia.

Sapientia: O Brasil possui dados alarmantes sobre a violência contra a mulher. O que a senhora poderia-nos aconselhar?

Leymah Gbowee – Vários líderes mundiais se orgulham de estarem à frente de um país civilizado, mas a civilização é medida pela capacidade de um Estado proteger o seu povo. O Brasil, para se autodenominar como país civilizado e se orgulhar de ser chamado assim, precisa que não só as mulheres, mas que todas as minorias sejam protegidas. Porém, quando tratamos dos direitos das mulheres, esse não é um problema só do Brasil. É um problema global. Nesta manhã, estávamos escutando na CNN que um estuprador foi condenado na Índia. É isso o que esperamos ver, porque todas as nações que acreditam em direitos humanos também têm de acreditar no direito das mulheres. Esses direitos são também direitos dos homens. A maioria dos homens que comete crime sexual contra as mulheres é de meninos. Homens de verdade não estupram mulheres.

Sapientia: Gostaria que a senhora dissesse sua opinião sobre mulheres em posições de liderança, como no Brasil e na Libéria, onde há mulheres na Presidência. A senhora acha que há modificações significativas quando elas assumem o poder?

Leymah Gbowee – Essa pergunta é capciosa. Uma das coisas que a liderança feminina traz é criar a esperança em outras mulheres, inclusive nas mais jovens. Dessa forma, aquelas mulheres que pensavam que nunca poderiam se tornar alguém no futuro começam a ver-se como presidente ou a visualizar um futuro para além daquilo que elas vivem. As pessoas geralmente me perguntam se as mulheres na liderança trazem mais paz para o país ou se as mulheres são melhores líderes do que os homens. Minha visão certamente seria tendenciosa porque sou uma feminista convicta. Acho que o que muda com as mulheres no poder são decisões mais pensadas. Antes que qualquer decisão seja tomada, antes que se envolvam em qualquer tipo de violência, elas param e pensam duas vezes. Há também uma preocupação maior com os problemas sociais, e isso se vê nos países em que elas chegaram à liderança. No entanto, há algo que precisamos ter em mente: mulher presidente não significa mudança no cenário político. É preciso lembrar que o Parlamento e o Judiciário são compostos pela maioria de homens. A fundação da sociedade está construída no patriarcalismo. Uma mulher presidente tem de trabalhar contra todas essas coisas que trabalham contra ela. Isso torna a tomada de decisão muitas vezes difícil.

Sapientia: Na sua bibliografia, a senhora fala de dois momentos comoventes na sua vida: ver um cachorro comendo a mão de uma criança e ouvir, em um sonho, uma voz que lhe dizia para reunir as mulher e acabar com a guerra. A senhora acha que recebeu um chamado? Como a religião influenciou a sua causa?

Leymah Gbowee – Acredito que, no meu trabalho e na minha vida, estou fazendo o trabalho que Deus destinou para mim. É por isso que levo muito a sério o que eu faço. Posso sentar aqui e contar várias histórias de como eu vejo essa confirmação de Deus. Há uma passagem na Bíblia que diz que, quando a ação de um homem ou de uma mulher agrada a Deus, esse ato provoca até uma trégua com os seus inimigos. Recentemente, promovemos uma campanha para crianças em um acampamento da paz. Trouxemos crianças de várias regiões da Libéria. O acampamento acontecia no meio da estação das chuvas. Eu me lembro de rezar e dizer a Deus: “eu sei que estou fazendo o trabalho que o Senhor destinou a mim, e, se isso for realmente verdade, Senhor, dê-me sol por três dias.”. Tivemos sol por quatro dias. Sol muito, muito quente! Foi tão quente, que tivemos de levar as crianças para nadar um dia. Durante aquele momento, em todas as entrevistas que concedemos, eu disse que estava fazendo o trabalho de Deus, e que isso era algo evidente, porque nós havíamos tido quatros dias de sol no meio da estação das chuvas. Sempre reconheço a importância de quando estou em um lugar. Eu não sei por que estou na Bahia, mas sei que eu estou aqui para fazer o trabalho de Deus.

FRONTEIRAS DO PENSAMENTO BRASKEM 2013

Foto de Ulisses Dumas / Ag. BAPress.

Sapientia: Quais medidas a senhora julga convenientes, para diminuir os efeitos da criminalidade em um país ou mesmo em uma cidade?

Leymah Gbowee – Se você observar os países com baixo índice de criminalidade, verá que os serviços sociais deles são, em geral, muito bons. Os jovens têm algo para fazer, o sistema educacional funciona bem, e boa parte da comunidade faz três refeições por dia. O crime em si é o resultado da pobreza, a violência em si também é resultado dessa pobreza extrema. Na comunidade onde vivo na Libéria, quase nunca se escutam mulheres e maridos brigando, mas, se você for às comunidades mais pobres, verá uma alta incidência de violência. Nesses locais, há frustração, raiva e desespero porque as necessidades básicas da população não são atendidas. Tudo isso contribui para aumentar a criminalidade. Se os jovens não têm empregos, e alguém os chama para vender drogas, eles se envolvem facilmente. Para diminuir a criminalidade, é preciso que haja fortalecimento do poder econômico.

Sapientia: A que a senhora atribui a violência contra as mulheres? Seria a falta de políticas e investimentos direcionados a elas?

Leymah Gbowee – A política é muito cara. Para você se candidatar, é preciso ter dinheiro. Eu não sei como é aqui, no Brasil, mas, na Libéria, as pessoas precisam ter dinheiro para dar aos eleitores. As pessoas sempre querem alguma coisa pelo voto delas. Em geral, os homens têm mais acesso ao dinheiro do que as mulheres, e, no final, a política não é sobre aquilo em que se pode contribuir ou melhorar na sociedade, mas sobre o que você pode fazer para receber os votos. Essa é a primeira questão. A segunda questão é que todo o campo da política ainda está dominado pelos homens. As mulheres que ousam entrar para a política ainda enfrentam muitos preconceitos. Elas precisam ser muito fortes para sobreviver na política. Acho que não tem nada a ver com autoconfiança, mas com a maneira como a estrutura política está montada na maioria das sociedades.

Sapientia: Como a senhora vê a atuação da presidenta da Libéria, Ellen Johnson Sirleaf?

Leymah Gbowee – A nossa presidenta herdou um país totalmente destruído. Quando ela se tornou presidente, em 2005, não havia quase nenhuma estrutura funcionando. Para ser muito honesta, nos primeiros cinco anos do governo dela, ela estava bastante determinada a reconstruir a estrutura do país. Nos últimos dois anos do seu segundo mandato, houve diversas alegações de corrupção, e muitas comunidades se mostram insatisfeitas com a presidenta. Seu índice de popularidade caiu bastante. As pessoas acreditam que ela não está fazendo o suficiente para condenar os oficiais envolvidos com corrupção. Essa situação não contribui nem para ela, nem para as mulheres que quiserem seguir na carreira política, porque, na Libéria, somos apenas três milhões e meio de pessoas. A ação de uma pessoa, ou a falta de ação, pode afetar toda a nação.

Sapientia: Em relação Brasil, como a senhora vê as recentes manifestações ocorridas pelo país?

Leymah Gbowee – Eu estava em Portugal quando a primeira onda de protestos começou. Em uma entrevista com um grupo de jovens, perguntaram a minha opinião. Eu disse: “os protestos me dão esperança!”. Eu tenho esperança de que os jovens do nosso mundo não vão-se sentar como os nossos pais fizeram e permitir que os políticos tratem os nossos países como se fossem sua fazenda. Os jovens brasileiros estavam conscientes do que estava faltando, então não é um caso perdido. Meu único problema é a forma de expressão. Nenhum jovem deste país pode dizer que o governo não prestou atenção no que eles estavam fazendo. Eles disseram o que queriam. Todos os políticos tiveram dor de cabeça naquele dia. Ninguém precisa usar violência como forma de expressar sua revolta, sua raiva. Então, para os jovens eu diria para pensarem em como vão expressar seu descontentamento, para pensarem em que conteúdo querem trazer. Você pode colocar isso em um conteúdo violento que pode causar muito mal, ou você pode colocar esse conteúdo sem violência, ganhando credibilidade e respeito. A revolta em si não é uma coisa ruim, mas é a expressão dessa raiva que vai determinar se você será chamado de herói ou de vilão. Então, os jovens do Brasil precisam decidir que legado querem deixar: desejam criar consciência sobre as condições econômicas, ou querem ser chamados de vilões porque usaram de violência? É possível fazer isso pacificamente e conseguir o respeito de toda a nação.

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