Resenha: “US : UN”, de Peter Gowan | New Left Review

“US : UN”, de Peter Gowan | New Left Review

Peter Gowan, articulista da revista inglesa New Left Review, nos apresenta em seu artigo Estados Unidos / Nações Unidas, um minucioso estudo sobre a perniciosa relação entre os Estados Unidos da América e a Organização das Nações Unidas, investigando desde os primórdios de sua fundação, ainda durante a Segunda Guerra Mundial, quando o presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt estabeleceu, a partir do legado da Liga das Nações de Wilson, as diretrizes na qual a futura ONU deveria ser fundada, sempre obedecendo os interesses de seu país, até os caminhos trilhados por essa organização e suas mudanças de foco entre 1945 e 2001.

Para Gowan, a craição de um instrumento para o desenvolvimento de um sistema multilateral era uma dificuldade para todos, pois a resistência inicial dos EUA a aderir um sistema amplo seria um grande empecilho para o seu sucesso, da mesma forma como ocorreu na Liga das Nações, no entre-guerras, em que o evasão norte-americana do organismo fez com que ele não se desenvolvesse. Para os EUA, a revitalização dos ideais da Liga das Nações de Woodrow Wilson só seria aceitável se esse instrumento servisse unicamente aos interesses claros de controlar o atribulado mundo de então.

Segundo o autor, inicialmente, o projeto de controle do sistema multilateral pelos Estados Unidos de Roosevelt não foi percebido como um instrumento eficaz para o país até o respaldo da intervenção norte-americana na Guerra da Coreia em 1950. Mas, a partir dos anos 60 , a ONU passou a ser um incômodo para os EUA, a partir do momento em que as antigas colônias europeias  e outros Estados se organizaram no Movimento dos Países Não-Alinhados e utilizaram a Assembleia Geral como plataforma para suas reivindicações.

Outro ponto importante apontado pelo autor é a ausência de literatura histórica sobre a conferência que aprovou a Carta de São Francisco, em 1945, de onde surgiram as normas e a estrutura da ONU. Para Gowan, a concepção da Carta de São Francisco, na verdade, foi iniciada na conferência de Dumbarton Oaks, em setembro de 1944, e em Yalta, durante o mês de fevereiro de 1945. Segundo a escassa literatura sobre o assunto, foram essas duas conferências, presididas não mais por três países, que se estabeleceu a doutrina para um mundo multilateral.

Franklin D Roosevelt, para o autor, foi de fato o verdadeiro fundador das Nações Unidas. O 32º presidente norte-americano, que assumiu a presidência do país durante a Grande Depressão e levou o país a travar guerras com seus vizinhos (México, 1933), tinha claras ideias expansionistas. Suas prioridades era levar o mercado norte-americano para todos os países do globo, e nada como se utilizar (e controlar) um fórum de discussão entre todas a nações para impor seus ideais. Durante seu governo, a opinião pública doméstica pressionava para que os Estados Unidos deixasse a política externa de lado e se voltasse para os problemas internos. Então, a ONU surgiu como um grande “legitimador” de suas ações externas sem se confrontar com a forte opinião pública.

Durante a concepção dos pontos da Carta de São Francisco, a ideia dos países vencedores da Segunda Grande Guerra, capitaneadas pelos Estados Unidos, era que a ONU se tornasse uma Ditadura das Grandes Potências, em que o poder se concentrava entre os cinco países principais (Estados Unidos, Reino Unido, França, China e União Soviética), e o restante era diluído entre os outros países. A solução encontrada, depois de várias reviravoltas entre Roosevelt e Stálin, era a criação de um comitê para a discussões das questões primordiais (Conselho de Segurança) e para as questões de procedimentos (Assembleia Geral).

Roosevelt não chegou a ver seu plano de criação da ONU concretizado – morreu duas semanas antes da conferência inaugural -, mas deixou as sementes prontas para que seus sucessores pudessem utilizar a ONU como instrumento de coerção mundial.

Após a Cerimônia Inaugural, em abril de 1945, que para alguns não passou de uma conferência turística em que os outros países poderiam conhecer as maravilhas e os valores do mundo norte-americanos – em perfeito estado, ao contrário dos países europeus, destruídos durante a guerra –, ou seja, outras formas de assegurar a hegemonia norte-americana no mundo capitalista, foram utilizadas como força pela Casa Branca, desde vetos no Conselho de Segurança em questões que atingiam fortemente os interesses norte-americanos, até relações bilaterais com países para manter sua influência fora do universo multilateral.

Para Gowan, o governo de George W. Bush ressuscita a ONU nos moldes Rooseveltiano, em que o interesse dos Estados Unidos se faz tão avassalador, que, assim como fez Rockfeller em meados doas anos 50 ao quebrar, pioneiramente, a carta da ONU ao fazer intervenções políticas e econômicas nos países da América Latina, volta a colocar em questão a real funcionalidade da organização, já que o governo Bush também desrespeita e até ignora suas resoluções – a exemplo da invasão ao Iraque. Segundo o autor, a reforma da ONU só aconteceria se a estrutura criada por Roosevelt em 1945 fosse quebrada, abrindo espaço para que outros países pudessem negociar com o mesmo poder que as grandes potências, o que para Peter Gowan não passa de uma grande utopia.

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