“Nosso sonho é um mundo onde não exista miséria”: analisando a globalização pela ótica de Joseph Stiglitz

Fichamento & Análise da obra “A globalização e seus malefícios”, de Joseph Stiglitz.

Escrevo este livro porque, durante o tempo em que estive no Banco Mundial, pude ver com meus próprios olhos o efeito devastador que a globalização pode ter sobre países em desenvolvimento, em especial sobre as populaçõespobres desses países. Acredito que a globalização – a remoção das barreiras ao livre comércio e a maior integração das economias nacionais – pode ser uma força favorável, com potencial de enriquecer todas as pessoas do mundo, em especial, as menos favorecidas. Entretanto, também acredito que, se for esse o caso, a maneira como a globalização tem sido gerenciada, incluindo os contratos comerciais internacionais, que têm desempenhado um papel muito importante na remoção dessas barreiras, bem como as políticas que têm sido impostas aos países em desenvolvimento no processo da globalização, precisa ser radicalmente pensada. Joseph Stiglitz

O prefácio do livro demonstra tom bastante pessoal do autor, prêmio nobel de economia (2001), em que ele ressalta o seguinte: 1. o texto não pretende ser acadêmico e 2. suas conclusões foram tiradas por meio da observância do modus operandi do Banco Mundial, instituição onde trabalhou por alguns anos. Stiglitz acredita que as instituições internacionais têm papel muito forte para moldar o mundo em desenvolvimento, entretanto, faz-se necessário entender os problemas locais para depois implantar políticas públicas que, de fato, ajudem no desenvolvimento dos países mais pobres. À época em que trabalhava no Banco Mundial, o autor notou que fórmulas pré-elaboradas de más políticas econômicas eram impostas aos países mais pobres, os quais não poderiam exigir contrapartidas porque necessitavam dos créditos de instituições internacionais, como do FMI.

A promessa das instituições globais

“In here (USA) I work less and in a less specialized job (pizza delivery guy) and earn more money to sustain my family and I. In my country (Guyana), I have to work in double and be more educated so to earn the same amount.” – Anonymous. Source: Internet.

A citação acima, que recolhi de algum sítio sobre “Things foreigners didn’t know about America” reflete diretamente as assimetrias econômicas entre os países. Enquanto os países ricos desfrutam de possibilidades diversas, os países mais pobres sofrem com as adversidades impostas a eles ou decorrentes deles próprios (questões históricas, por exemplo).

De acordo com Joseph Stiglitz, a globalização tem benefícios e malefícios, mas quando ambos aspectos são colocados em uma balança, os benefícios superam os malefícios. As instituições internacionais, sobretudo aquelas criadas à luz de Bretton Woods, surgem para facilitar a implantação da globalização no mundo, exportando certo padrão de conduta econômica aos países menos desenvolvidos. Embora a ideia que embasou a criação dessas instituições tenha sido grandiosa, notou-se, ao longo do tempo, que sua fórmula pré-determinada e pré-moldada não, necessariamente, refletiu o que, inicialmente, havia sido pensado.

Com a sua experiência pretérita à frente do Banco Mundial e no setor econômico da Casa Branca, Joseph Stiglitz afirma que as instituições, como BIRD e FMI, querem, de fato, ajudar (ou diminuir as assimetrias entre os países), mas interesses de grandes corporações ou de determinados governos conseguem penetrar os debates e, por serem detentores de grande poder econômico, deturpam as negociações, beneficiando os países desenvolvidos em detrimento dos mais pobres.

Neste capítulo, o autor demonstra que a globalização é benéfica e reduz, mesmo que desproporcionalmente, as assimetrias do mundo. Entretanto, pensamentos anacrônicos ainda regem o debate na arena internacional; exemplo disso é a misteriosa forma como são escolhidos os chefes do FMI e do Banco Mundial (intercalando-se entre estadunidenses e europeus). Para solucionar esse problema, ele idealiza um possível governo global, interessado em lidar com a governança global já estabelecida. O governo global não estaria intimamente ligado a determinados interesses financeiros e comerciais, mas sim no plantador de arroz do interior das Filipinas e no pequeno comerciante de algum lugar remoto do Brasil.

// Por que a globalização?

– Benefícios

  • Comércio internacional ajuda o desenvolvimento econômico: exportações impulsionam o crescimento;
  • Expectativa de vida aumentou;
  • Redução da sensação de isolamento;
  • Ajuda externa, apesar de seus defeitos, ainda traz benefícios para muitas pessoas;
  • Traz progresso

– Malefícios

  • Não garante a estabilidade dos países;
  • Economia de mercado não foi bem sucedida sobretudo em países que estavam em transição do comunismo para o capitalismo;

// Que fenômeno é esse?

“Fundamentalmente, é a integração mais estreita dos países e dos povos do mundo que tem sido ocasionada pela enorme redução de custos de transporte e de comunicação e a derrubada de barreiras artificiais aos fluxos de produtos, serviços, capital, conhecimento e (em menor escala) de pessoas através das fronteiras.”

Promessas não cumpridas?

A mentalidade colonial – ‘fardo do homem branco’ e a suposição de que ele sabe o que é melhor para os países em desenvolvimento – persiste.

O ex-presidente da Etiópia, disse que não havia lutado tanto durante 17 anos para que um burocrata internacional dissesse que ele não poderia construir escolas e postos de saúde para o seu povo depois de ele ter conseguido convencer os doadores a pagarem por isso.

A globalização não funcionou nos países menos desenvolvidos devido à assimetria econômica entre os países do mundo. Ela deixou os países, de fato, mais pobres comparativamente, mesmo que certa ajuda tenha sido provida.

O autor, neste capítulo, demonstra como as instituições são falhas ao tentar, de certa forma, impor seu padrão aos países menos desenvolvidos. Ele cita o caso da Etiópia que, apesar de saber que determinadas políticas contradiziam com os interesses nacionais, precisavam do apoio dos credores externos para investirem no país. Ademais, cita, também, o caso de Botsuana, que, meticulosamente, escolheu o consultor do FMI para o país e obteve grande sucesso ao perceber que as ideias deste consultor condizia com o interesse nacional botsuanês.

O FMI poderia não só cortar a ajuda que dava ao país como também utilizar seus púlpitos de tirania para desencorajar investimentos por parte do mercado privado, declarando às instituições financeiras que tinha dúvidas a respeito da economia da Coreia do Sul.

Stiglitz diz que o Banco Mundial e o FMI são vizinhos em Washington, mas possuem realidades e objetivos completamente diferentes. Enquanto o primeiro envia grupos de trabalho, por apenas alguns dias, para alguns países remotos, o segundo possui um grupo de trabalho de, pelo menos, três semanas, para que os técnicos e especialistas analisem melhor as condições e situações dos países os quais visitam.

As intituições são duras e, muitas vezes, prometem, mas não cumprem seus deveres. Entendo que existe grande falta de comunicação interorganizações, mas também entre organizações e governos. Muitas vezes, por pensarem que serão reprimidos (embargos, alijamento do cenário internacional ou perda de créditos junto ao FMI), os países implementam as políticas, mas acabam sofrendo impactos negativos muito fortes.

O caso da América Latina, no final dos anos 80, que aceitou as políticas do Consenso de Washingtos é um caso exemplar de como as políticas devem ser analisadas a fundo antes de serem aceitas. Durante esse período, muitos países passaram por décadas perdidas, convivendo em um ambiente econômico de alta inflação e de dívida externa elevada.

Ainda hoje são sofridas as consequências da implementação do Consenso de Washington. No caso brasileiro, o país conseguiu, apenas durante os anos 2000, sanar o débito com o FMI, tirar milhões de brasileiros da miséria, porém, concomitantemente e hodiernamente, ainda tem de lidar com altas taxas de juros e de inflação para poder aplicar boas políticas públicas em favor do interesse nacional brasileiro.

// Falta de comunicação entre FMI e governos nacionais

Joseph Stiglitz sugere duas razões para o FMI:

  1. Conversar com os nacionais do país, uma vez que os funcionário do Fundo, embora bastante estudados, não entendem a realidade nacional;
  2. Haver comprometimento por parte dos países, para que os programas implementados sejam, realmente, eficazes.

Acredita-se que os dois motivos expostos acima somente serão válidos e eficientes quando ambas as partes estabelecerem mútua confiança de suas ações e quando houver horizontalidade no trato de uns em relação aos outros. Em um mundo com perspectiva vertical, sobretudo quando cooperação (humanitária e financeira) está envolvida, os países devem ser vistos como parceiros e não como ‘coroneis’ da economia mundial.

Liberdade de escolha?

Cada época e cada país são diferentes. Outras nações teriam o mesmo sucesso caso seguissem a estratégia do Leste Asiático? As estratégias que deram certo há um quarto de século funcionariam na economia global de hoje? Os economistas podem discordar das respostas a essas perguntas. Mas os países precisam considerar as alternativas e, por meio de processos políticos democráticos, fazer essas por si mesmos. De ser – e deveria ter sido – tarefa das instituições econômicas internacionais suprir os países com os meios necessários para que possam fazer escolhas conscientes sozinhos, com compreensão das consequências e dos riscos de cada uma.

// Privatizações

As privatizações são boas alternativas para países que já possuem estrutura e instituições firmes de mercado, embora o autor questione a rapidez com a qual o FMI impõe que ela seja implementada. Um dos exemplos de que as privatizações não deram certo é o da Rússia, uma vez que esse país fora associado ao declínio, o que enfraqueceu a confiança nas instituições democráticas e de mercado.

// Liberalização

O autor não é contra, mas critica a liberalização da economia. A sua crítica está no fato de que muitos dos teóricos a favor da liberalização acreditam que este é o principal jeito de se obter a estabilização do mercado. Entretanto, ao observar fatos pretéritos, pode-se notar que justamente por causa da liberalização muitos países entraram em profundas crises. Vale ressaltar a liberalização executada prematuramente, antes da formação de fortes instituições financeiras.

A instabilidade não é só prejudicial para o crescimento econômico como os custos dela decorrentes são pagos pelos pobres de maneira desproporcional.

// Investimento estrangeiro

Para o autor, os países ricos enxergam o investimento estrangeiro com olhos colonialistas. O investimento é, de fato, muito importante para os países em desenvolvimento e, inclusive, ajudou Cingapura, China e Malásia tanto para o capital per se, mas sobretudo para o acesso a mercados e às novas tecnologias que essas economias e esses mercados demandavam.

O futuro: o que deve ser feito?

O problema não está na globalização, mas na maneira como ela foi gerida.

Para o futuro, Stiglitz propõe os seguintes objetivos e as seguintes ações para que o mundo diminua suas assimetrias e para que os países desenvolvam suas economias de maneira sustentável:

  • Interesses e ideologia: ambos devem ser comedidos e os interesses particulares devem ser sempre levados em consideração;
  • Instituições internacionais públicas: possuem papel fundamental na organização mundial, sobretudo de analisar os efeitos globalizantes e ajudar em questões pontuais. O mercado não faz o alimento chegar a populações carentes, mas o humanitarismo, adjetivo que dever ser utilizado por essas instituições, deve ser levado em conta por elas;
  • Governança:  reformar as instituições, que ainda possuem visão anacrônica do mundo, é uma forma de mudar a governança bem como de dar voz àqueles que nunca puderam falar. Ideal seria se houvesse um governo global que interligasse as instituições internacionais com os povos dos países;
  • Transparência e sigilo: tanto por parte das instituições, como por parte dos governos;
  • Reformas no FMI e no sistema financeiro global;
  • Reformas no Banco Mundial e no auxílio ao desenvolvimento;
  • Reformas na OMC e melhor equilíbrio nos programas comerciais.

Para entender mais:

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Uma resposta para ““Nosso sonho é um mundo onde não exista miséria”: analisando a globalização pela ótica de Joseph Stiglitz

  1. ➔ Utopia: É a ideia de civilização ideal, fantástica, imaginária, referindo-se a uma cidade ou um mundo porém em outro paralelo. Utopia vem de radicais gregos e significa “lugar que não existe”. Numa sociedade utópica, a mesma seria organizada de forma racional, as casas e bens seriam de todos e não de indivíduos, as pessoas passariam seu tempo livre envolvidos com leitura e arte, não seriam enviados para a guerra, a não ser em situações extremas, assim, esta sociedade viveria em paz e em plena harmonia de interesses. Utopia pode ser considerada também não apenas a ideia de idealizar um lugar ou uma vida em uma visão fantasiosa, pode ser também um modo otimista de ver o mundo e ver as coisas do jeito que gostaríamos que elas fossem.

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