Entrevista: Negritude e Relações Internacionais à luz do dia da consciência negra

africa

Por Patricia Galves Derolle

Entrevista com Lia Maria. Ela é brasiliense, tem 35 anos e é Consultora Técnica contratada pela Organização Pan-Americana de Saúde para a implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, no Ministério da Saúde. Foi professora da Universidade de Brasília para disciplina Pensamento Negro Contemporâneo. É Mestra em Gestão de Políticas Públicas Educacionais. Especialista em Culturas Negras do Atlântico. Bacharel em Artes Plásticas. Ativista Política.

Não deixem que digam quem você é, seja protagonista de suas escolhas sem nunca esquecer a sua ancestralidade negra.

Qual a sua opinião sobre o dia nacional da consciência negra?

Vivemos um momento onde se faz necessária a tomada de decisões políticas coletivas para a promoção de equidade de uma comunidade historicamente alijada de direitos humanos, como é o caso da população negra. Esta data representa uma conquista da luta ancestral, materializada nos Movimentos Negros. Conquista de um povo que vivenciou, cotidianamente, a escravidão e a luta pelo empoderamento pessoal e reconhecimento social de sua humanidade enquanto sujeitos de direito, protagonistas de suas trajetórias. Celebrar a Consciência Negra é registrar o confronto histórico contra as formas de discriminação e preconceitos vivenciados em sociedades coloniais, pautadas por uma das faces mais perversas do racismo: o racismo enquanto ferramenta estruturante das relações sociais, políticas e econômicas.

Por que há uma minoria representativa de negros(as) atuando nas Relações Internacionais?

Há nas relações étnico-raciais uma assimetria desde o acesso, entrada e permanência, como é, infelizmente, também o caso nas Relações Internacionais. Vivenciamos práticas e costumes culturais de diferenciação racial, que remontam faces escravocratas legitimadas por determinismo biológico e materializadas por práticas violentas, mesmo quando simbólicas, de discriminação capazes de nos privarem de nossa liberdade de escolha.

Cada um de nos é responsável por esta minoria representativa de negros(as) nas Relações Internacionais, quando nos tornamos ferramentas para a manutenção do racismo institucional, em que instituições se cegam para os conflitos raciais e para a necessidade de ações afirmativas, tanto educativas para não negros(as), quanto inclusivas para negros(as), e suas faces:

  • o racismo interpessoal, responsável por tornar seu preconceito e seus estereótipos  a base para um procedimento padronizado de discriminação contra negros(as), e
  • o racismo introjetado, em que pessoas negras historicamente colocadas no espaço de não pertencimento social, subserviência, animalização, infantilização, exotização e toda sorte de atributos negativos introjetam a sua condição de subjulgado(a) e se oprimem frente a figuras impiedosas, garantindo a manutenção destas práticas.

Afora estes conflitos sociais, existe um gap de acesso a informação entre negros e não negros. Na contemporaneidade, as relações internacionais estão pautadas por trajetórias transdisciplinares, somadas a um acúmulo de capital cultural oriundo de experimentação em diversos espaços e países que mais das vezes não é condição natural para a população afro-diaspórica em razão de aspectos econômicos de origem racial.

Dito isto, reconhecemos que os pressupostos de poder ditam-nos que existem perfis e espaços a serem ocupados tanto por negros(as) e brancos(as), quanto por mulheres e homens. Há um padrão de representatividade a ser rompido, em que negros(as) devem refugar a vitimização e praticar o empoderamento, e brancos(as) devem deixar de olhar corpos negros(as) como corpos fora de lugar quando não estão vinculados à servidão, à subserviência, à dança, à culinária e ao futebol.

As identidades negras são múltiplas e devem ambos os lados praticar as ações afirmativas, a começar pela apropriação das ferramentas legais que subsidiam, no Brasil, a ruptura destas amarras racistas, tais como o artigo 196 da Constituição Federal, de 1988, o Estatuto da Igualdade Racial, de 2010, A Lei de Cotas do STF, de 2011 e a Lei 10.639, de 2003 – quanto ao estudo da história e da cultura africana e afro-brasileira e reconhecer que a ancestralidade africana aporta uma cosmovisão, pautada por valores filosóficos vívidos nas intelectualidades negras a serem apropriadas para a possibilidade de diálogos por espaços (por que também não nas Relações Internacionais?), não discriminatórios e mais inclusivos com prática do respeito à identidade cultural.

Como se deu a sua inserção profissional na arena internacional?

Tudo começou quando o meu avô, Seu Quintino, morador da Vila da Penha-Rio de Janeiro – Morro do Querose, aceitou se mudar para a Brasília para seguir trabalhando no Itamaraty como contínuo (ajudante de escritório). Meus pais se fizeram Assistente de Chancelaria e Arquivista – mãe e pai, respectivamente – e deram a mim e a meus irmãos a oportunidade de conhecer outras línguas, outras realidades e nos ensinaram o orgulho e compromisso com nossas raízes – negras, periféricas e rurais.

Enquanto estudante universitária me fiz ativista política no EnegreSer – Coletivo Negro do DF e Entorno- espaço que me tornou uma mulher negra e me ensinou a importância das ações coletivas e compromissadas com os passos anteriores dados por militantes mais velhos na luta por direitos. Sempre me interessei pela história e pela cultura da diáspora africana, com isso me especializei em temas como garantia de recorte de raça e gênero em políticas sociais.

Em 2009 trabalhei para a Embaixada da Zâmbia como tradutora e Liaison Assistant, onde conheci o que significava para os países ricos em recursos naturais e necessitados de estruturas de saneamento, moradia e tratamento de lixo, a transferência de tecnologias.

Em 2011 fui a primeira estagiária negra da Delegação Brasileira junto à ONU em Genebra – esta ação foi um espaço conquistado pelo movimento negro que pautou a carência-ausência de pessoas negras na diplomacia brasileira e em seus programas de formação, como este estagio. Isto aconteceu na Reunião para Revisão da Conferência de Durban contra o Racismo, Xenofobia e todo tipo de Discriminação Correlata, em que a denúncia logrou acolhida da SEPPIR, ABC e ITAMARATY – responsáveis pela concessão de bolsa de ação afirmativa para ajuda de custos de cotistas negros(as).

Ao regressar prestei serviço ao PNUD, para trabalhar na Assessoria Internacional da SEPPIR para construção do Relatório Brasileiro para o CEERD.

Ousei outros voos e me mudei para Guiné-Bissau, para construção de uma sugestão de projeto pedagógico para uma escola construída comunitariamente via Projeto de Jovens Lideranças Comunitárias de Guiné-Bissau– ação de cooperação entre ABC, governo de Bissau e a UNESCO – experiência sem igual para vivenciar as faces da cooperação internacional e compreender a premissa de escutar as demandas da comunidade que vivencia a cooperação antes de definir o que a mesma necessita.

No afã por seguir-me apropriando das ferramentas das Nações Unidas para eliminação das desigualdades raciais, fui selecionada para o 1st People of African Descent Fellowship Programme, iniciativa do Alto Comissariado das Nações Unidas – Seção de anti-discriminação -, cuja formação foi de suma importância para compreensão de por que algumas pautas, como genocídio da população negra, não vão adiante nem via Shadow Repport nem mesmo via CCDH.

Após esta rica experiência, foi tirada uma comissão para representar este primeiro grupo no African Descent Year Clossure em Nova York – apresentamos discurso pautando as similitudes da diáspora africana ao vivenciar o racismo enquanto celeuma estruturante em nossos cotidianos, inclusive nos espaços de debate internacional para promoção de equidade racial.

Nos últimos dois anos tenho trabalhado para a Organização Pan-americana de Saúde para a Implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, ação do Ministério da Saúde, em que para além do apoio técnico desenvolvido junto aos estados e municípios pela garantia de equidade no SUS, com olhar especial para o Plano Juventude Viva – ação da SEPPIR e SNJ com aderência de 12 ministérios para o enfrentamento a mortalidade da juventude negra. Na área internacional, sou responsável pelo diálogo do JAPER-Saúde – Joint Action Plan for Racial Equality on Health – plano de cooperação entre Brasil e EUA -, ação que terá seminário bilateral realizado no próximo ano como resultado da interlocução brasileira em Washington/DC e Baltimore.

Você encontrou entraves durante a sua trajetória profissional?

Mesmo com acolhida de pessoas queridas negras e não negras de diversos níveis hierárquicos, me deparei com engenharias avançadas na prática de racismo, sexismo e intolerância religiosa contra a minha filosofia de vida – candomblecista. Vivenciei preconceito com meu estilo de cabelo e peso fora dos padrões ditos sociais. Tomei muito cafezinho com o preconceito e a discriminação. Fui privada de participar integralmente de certas atividades, tive minha fala desconsiderada em algumas interfaces, vi a criação de regras específicas para minha condição – mulher negra oriunda de ações afirmativas -, mas segui e seguirei, com a cabeça erguida, certa de que a minha jornada de trabalho e aprendizado nas Relações Internacionais, com interesse na promoção de ações afirmativas de combate ao racismo e ao sexismo, apenas começa.

Você poderia proporcionar algumas sugestões para quem está iniciando a carreira internacional?

Compartilho os pensamentos que me fazem seguir na construção desta carreira: não deixem que digam quem você é, seja protagonista de suas escolhas sem nunca esquecer a sua ancestralidade negra.

Esteja pronto para se mudar a qualquer momento. Estude as relações internacionais no mundo e se possível vivencie experiências de estágio, programas de formação, cursos, página de notícias, especializações e tudo que estiver ao seu alcance on line; ou candidatando-se e solicitando bolsa de ajuda de custo, pois muitos programas já trabalham com recorte racial, portanto, escolha a sua área de interesse e busque!

Além disso, o inglês é o idioma básico até mesmo para os estudos em RI, mas estude o maior número de línguas que você puder, pois é um ótimo caminho para trafegar por diversas culturas e respeitar identidades e costumes.

Permita-se ser instrumento para a cooperação internacional, se apropriando a cada dia mais dos debates de multiculturalismo, ação afirmativa, racismo institucional, identidade cultural afro-diaspórica, entre muitos outros.

Perceba que vocês, homem e mulher negros, carregam para além de seu arcabouço teórico e experiência profissional dois atributos interessantes: 1. a identidade brasileira, que nos abre portas por similitudes socioeconômicas e culturais com diversos países com os quais dialogamos e 2. a pele negra, que significa aproximações em África e na diáspora africana. Somos uma coletividade e podemos sim transpor as identidades geográficas e construir diálogos respeitosos entre pares, pautados pela consciência negra de Aimé Césaire, em Discours sur la Négritude.

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4 Respostas para “Entrevista: Negritude e Relações Internacionais à luz do dia da consciência negra

  1. Parabéns prima querida!!! sinto-me honrada e nutrida, com alguns comentários feitos, pois lutas são lutas e vitórias… ahhh… elas são as VITÓRIAS! bjOOOOoOoOOo!

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