ABC da Economia Internacional

49073721451758fb3c76e21.91321798

O Embaixador brasileiro em Trinidad e Tobago, Paulo Traballi-Bozzi, compartilha com os leitores do Internacionalista conteúdo sobre Economia Internacional.

1. Teorias clássicas do comércio

1.1. Bullionismo: o uso dos metais, ouro e prata, como reserva bancária.

História: As grandes navegações, dos séculos XVI, a colonização da Américas Hispânica e Portuguesa, a descoberta de grandes quantidades de ouro e prata nos territórios colonizados. A quantidade de ouro e prata entesourada garantia o valor da moeda (gold bullion standard). O excesso de emissão de moeda para financiar os gastos das Coroas espanhola e portuguesa levaram à inflação, ou seja, ao derretimento do valor da moeda. Os desastres econômicos jamais têm uma só causa. Os banqueiros da época apropriaram-se do valor marginal dessas reservas e, por meio de empréstimos, financiaram muitas Casas reais europeias. Grande parte do ouro extraído em território brasileiro (Minas Gerais, por exemplo), que foi levado para Portugal, acabou nos cofres do Banco da Inglaterra e financiou o expansionismo marítimo inglês.

1.2 Mercantilismo: 1550-1750. Inspirado na necessidade de explicação de alguns fenômenos mercantis, que preocupavam muito seus formuladores, eles próprios envolvidos em atividades de comércio. Portanto, vai trabalhar com teorias sobre o comércio internacional, moeda, preços e nível de emprego. Os seus maiores pensadores foram Hales, Malynes, North, Mun e Child.

Preocupavam-se com o equilíbrio da balança de pagamentos, com a manutenção do superávit de tal modo que o excedente de moeda (bullion = prata e ouro) pudesse ser entesourado (poupado). O dinheiro circulante não era visto como um fator de produção.

Tarifas, controles de câmbio e empresas comerciais monopolísticas (por exemplo: A Companhia das Índias Orientais) eram os instrumentos para promover o comércio e incentivar o entesouramento. Fatos históricos relevantes: A exploração colonial das terras americanas (por exemplo: envio de matérias-primas, pau-brasil e ouro, para Portugal); a Colonização da Índia pelos ingleses; fundação das 13 colônias na América do Norte etc.

O mercantilismo tornou-se mais uma elaborada justificativa teórica para a imposição de tarifas do que uma fonte de renda para o governo. Por exemplo: Tarifas Methuen, 1703, impostas pelo governo inglês ao Reino de Portugal. Sobre o assunto ver, “Formação Econômica do Brasil“, Celso Furtado.

As críticas de David Hume e de Adam Smith, especialmente as de Hume, sobre o fluxo da moeda, e as de Smith sobre a sua natureza e a “conveniência” do comércio internacional fizeram as doutrinas do mercantilismo serem abandonadas pelos economistas.

1.3 Fisiocratismo: (ativos e atuantes nas décadas de 1760/1770). Fisiocratas, o nome significa senhores da Natureza.

Principais nomes: Turgot, Quesnay, Mirabeau, Dupont de Nemours.

A economia deveria seguir o seu curso sem intervenção governamental. Advogavam a adoção de um “imposto único”, baseado na renda agrícola. Legaram os fundamentos da teoria clássica da formação dos preços.

Adam Smith e Marx usaram as formulações econômicas dos fisiocratas na construção de suas ideias sobre a economia.

É interessante notar que a agricultura já era percebida como a primeira atividade para impulsionar o progresso econômico das nações. Dela, vão surgir vários conceitos e definições da Teoria Econômica, entre eles, o da vantagem comparativa, o do rendimento decrescente etc.

Lembro ainda que o economista Otávio Gouveia de Bulhões escreve sobre a importância econômica da atividade agrícola como geradora de renda a impulsionar o progresso industrial. Esclareço que esta é uma formulação clássica, aproveitada por Gouveia de Bulhões para explicar o desenvolvimento industrial brasileiro, a partir da geração da renda marginal agrícola (rmga) – cafeicultura, no caso brasileiro – logo dos ganhos de produtividade marginal (pmga) do campo. Estes conceitos de renda marginal e de produtividade marginal são da Teoria Clássica e usados por toda a formulação de economia teórica desde sempre.

1.4 Clássicos: Escola dominante da economia britânica (1752 – 1870). Chamo a atenção para o fato de que a Teoria Econômica desenvolveu-se na Europa. Historicamente, dir-se-ia que a contribuição maior para o seu desenvolvimento teórico talvez tenha surgido nas Ilhas Britânicas. Contudo, não pode deixar-se de lado a contribuição francesa para o desenvolvimento desta ciência; assim como teve a Alemanha grandes pensadores, que desenvolveram as suas formulações sobre os fatos econômicos de maneira singular, como Marx, Engels e outros.

O Reino Unido foi um dos berços da Primeira Revolução Industrial (França e Prússia, outros). A invenção da máquina a vapor, o aperfeiçoamento dos teares, o fornecimento previsível da matéria-prima, pela agricultura indiana – é bom lembrar que durante a Guerra da Independência americana (1775/6 – 1783. 4 de julho de 1776) a indústria inglesa mudou de fornecedor: das Treze Colônias para a Índia (1788 – 1947; os interesses do capital inglês pelas matérias-primas do subcontinente o levaram, em 1690, a fundar Calcutá -; a Guerra da Secessão americana (1861 – 1865) também trouxe prejuízo para a cotonicultura dos Estados americanos e influenciou em seu comércio internacional.

Os ataques de David Hume ao mercantilismo anteciparam uma nova concepção para a economia. Adam Smith, por sua obra “The Wealth of Nations” (1790), foi considerado o pai fundador Escola clássica e do liberalismo. A Mão Invisível (The Invisible Hand) do mercado tudo regulamentaria. As forças da oferta e da procura equilibrar-se-iam sem a necessidade de outras intervenções (governamentais, nem pensar). Os economistas clássicos, como Ricardo, Smith, Malthus, Mills (John Stuart) e Hume, dissertaram sobre comércio internacional, valor econômico, desenvolvimento econômico, distribuição, finanças e moeda.

O “liberalismo” desses economistas era radical; o Estado não deveria intervir para regular o mercado, como está dito acima; as “Corn Laws” britânicas eram contrárias, ou impediam, segundo eles, as livres trocas internacionais, ou seja o comércio livre e o crescimento econômico e a especialização internacional (vantagens comparativas). Ricardo inspirou Marx e Smith é um dos apóstolos do neo-liberalismo da Escola de Chicago (Milton Friedman e seguidores), que inspirou o formulador do Consenso de Washington (John Williamson) e suas políticas ultra-liberais (disciplina fiscal, liberalização comercial e privatização das indústrias nacionais).

1.5. Neoclássicos:

Marshall, Edgeworth, Pareto, Wicksell, Walras. Escola do pensamento econômico que surgiu no fim do século XIX, nos Estados Unidos da América e no Reino Unido. Construída sobre o conceito da “análise marginal”.

Premissa principal: O equilíbrio da economia seria restaurado, após um distúrbio qualquer, por meio de um processo de busca de soluções possíveis (para o desequilíbrio ocorrido) que levaria em conta à adoção de salários e preços flexíveis. Como os preços disseminam informações em direção aos agentes econômicos e, assim, incentivam-nos a reagir, as atividades e os planos econômicos coordenam-se. Esta Escola, enfatizando o papel dos consumidores individuais, dos produtores e dos poupadores, desviou o pensamento econômico da época – do estudo do mercado – para a escolha individual e institucional sobre a alocação dos recursos nos mercados.

Hicks e Samuelson foram os mais brilhantes teóricos do pensamento neoclássico no século XX. Críticos do pensamento neoclássico rejeitam o fato de que os agentes econômicos possam estar preocupados com a maximização da utilidade (dos recursos naturais, dos bens e das mercadorias), do lucro e da renda e, portanto, são contrários à crença neoclássica de diminuição da utilidade marginal e de taxas marginais de substituição. Os neoclássicos continuam a acreditar e a demonstrar a utilidade dos princípios da maximização, do equilíbrio dos sistemas econômicos e da substituição.

Os neoclássicos têm-se dedicado ao estudo do emprego, das taxas de criminalidade, das taxas de matrimônio e da alocação de moradias.

O conceito de utilidade marginal mede o nível de satisfação do consumidor no seu limite. O exemplo que me ocorre, creio ser o mais ilustrativo, é o do sorvete (clássico): Um indivíduo pode tomar tão-somente uma determinada quantidade de sorvete (de chocolate, o meu preferido), assim mesmo com a satisfação, a cada quantidade ingerida, tornando-se menor.

Então, a utilidade marginal tende sempre a zero, vez que, certamente é impossível que ao ingerir a quantidade (n+1) de sorvete, o consumidor já não se tenha satisfeito. Tente substituir no exemplo sorvete por carros ou por aparelhos de televisão etc., o indivíduo poderia comprar quantos carros ou quantos aparelhos de televisão que lhe permitisse o seu nível de renda, mas a satisfação será sempre decrescente (utilidade marginal).

Os neoclássicos não teriam muito cuidado com a análise macroeconômica, a não ser aquela que levasse a examinar a demanda (ou as escolhas) agregada dos indivíduos.

1.6. Liberalismo/Neo-Liberalismo

Neo-liberalismo – Milton Friedman (Escola de Chicago), F.A. Hayek, Consenso de Washington (John Williamson, foi o formulador (sic) das premissas que terminaram por ser assim chamadas). Alguns críticos encontram nestas etiquetas nada mais do que ociosidade: classificar as Escolas de pensamento econômico seria apenas perda de tempo, uma vez que os movimentos econômicos sejam os de agora, sejam os do século XVIII ou XIX, ou mesmo antes, funcionam pela formação do preço, a obtenção do lucro, a produção, o fornecimento e a distribuição de bens e mercadorias, a otimização das horas trabalhadas (a elevação da produtividade média), o pagamento de salários, a utilidade dos bens e mercadorias para um conjunto de consumidores (k) e as alocações que o mercado (m) deveria alcançar, que são os Ótimos de Pareto (Um Ótimo de Pareto seria um equilíbrio natural para a uma economia), e aquelas que o mercado alcança, que são os equilíbrios competitivos.

Para os propósitos deste exercício devemos deixar de lado formulações muito rebuscadas e concentrar-nos no fato de que a periodização e as etiquetas que separam as épocas auxiliam a compreensão e explicam o avanço do desenvolvimento do acervo conceitual, utilizado pela economia moderna.

Para mim, o neo-liberalismo não é de fato muito entusiasmante em razão de suas deficiências metodológicas no estudo dos fenômenos sociais, tal como compreendidos pela Ciência Econômica. A enorme confiança nos mercados, como solução para as crises ciclícas, não resultou eficiente; ou melhor, houve muito recentemente – 2008/2009 – com a ampliação da crise de crédito nos Estados Unidos, tremenda repercussão na Europa, o que provocou o derretimento das economias de Portugal, Espanha, Grécia, Irlanda e Itália.

Outra premissa neoliberal, é o credo do Estado mínimo, que reza em favor das suas “irresponsabilidades” sociais e outras, ao contrapor-se à sociedade do bem-estar, a deixar por conta do “Deus Mercado” as aposentadorias e as demais ações de assistência social, como a de assistência médica, por exemplo. Parece-me que o pensamento neoliberal fundamentalista provoca situações de muita fragilidade social.

Outra crítica que faço: Não estamos na era do mundo plano (o mundo da globalização exarcebada), como quer Thomas Friedman, em seu livro, “O Mundo é Plano”. As economias se encontram, a famosa globalização; mas estes encontros muitas vezes repercutem de maneira catastrófica, com a energia de um embate de Titãs, se me permitem a hipérbole. Basta ver o desacerto que provoca no mundo a entrada da China no Mercado. Em um ambiente industrial, onde leis trabalhistas ou qualquer outra proteção ao trabalhador não vigem, o custo do produto/mão de obra é muito baixo, se comparado ao ambiente industrial brasileiro, por exemplo, ou europeu, com toda a sua carga de proteção ao trabalhador. Uma das variáveis do chamado CUSTO BRASIL é exatamente o custo da mão de obra por produto.

A absorção e criação de tecnologia e de inovação agregada ao produto da indústria chinesa já competem com os polos mais avançados de criação (outra palavra para inovação) e agregação de tecnologia, como a Alemanha, o Japão e os Estados Unidos. Por outro lado, vejam o que aconteceu com os mercados, quando o FEDERAL RESERVE (FED), o Banco Central americano, relaxou a sua política monetária e “inundou” o mercado de moeda (US$), a política macroeconômica do governo Obama – “quantitative easing – crédito fácil e barato para estimular o consumo (lembrem-se de que as taxas de juros – “PRIME RATE – nos Estados Unidos, estão volta de 3,25%, ou quase isso para os clientes preferenciais dos bancos).

Uma comparação: Taxa SELIC (Sistema Especial de Liquidação e Custódia, a taxa de juros básica da economia brasileira) segundo o sítio do Banco Central, está em 11%, com uma variação mensal de, mais ou menos, 0,8903%, até agosto/2014. Taxa SELIC real = 4,5% (taxa nominal, 11% – a inflação, 6,5%) o que não seria muito se não fosse o carregamento da inflação e a defasagem cambial. Então, o mundo não é plano; as diferenças entre as políticas econômicas postas em prática pelos países são enormes e quem possui a vantagem comparativa dos mercados “organizados” e de uma estrutura econômica eficiente leva sempre vantagem.

Para terminar este primeiro exercício, deixo à consideração, um texto de Hayek, que está in Hayek, F.A., The Road to Serfdom , editado por Caldwell, Bruce, University of Chicago Press, 2007, p. 85 e 86:

It is important not to confuse opposition against this kind of planning (central planning, grifo meu) with a dogmatic laissez faire attitude. The liberal argument is in favor of making the best possible use of the forces of competition as a mean of coordinating human efforts, not an argument for leaving things just as they are. It is based on the conviction that, where effective competition can be created, it is a better way of guiding individual efforts than any other. It does not deny, but even emphasizes, that, in order that competition should work beneficially, a carefully thought-out legal framework is required and that neither the existing nor the past legal rules are free from grave defects. Nor does it deny that, where it is impossible to create the conditions necessary to make competition effective, we must resort to other methods of guiding the economic activity. Economic liberalism is opposed, however, to competition being supplanted by inferior methods of coordinating individual efforts. And it regards competition as superior not only because it is in most circumstances the most efficient method known but even more because it is the only method by which our activities can be adjusted to each other without coercive or arbitrary intervention of authority.

2. Vantagens absolutas e comparativas.

Primeiros teóricos: Torrens e David Ricardo (Ricardo, The Principles of Political Economy and Taxation).

2.1. O princípio da vantagem comparativa justifica as nações (e indivíduos) especializadas em atividades econômicas, que desempenham melhor do que outras.

O caso clássico apresentado por Ricardo é o da indústria têxtil na Inglaterra e a produção de vinho, em Portugal.

A Inglaterra utilizar-se-ia do trabalho de 100 homens para produzir roupas e de 120 para produzir vinho. Portugal utilizar-se-ia do trabalho de 90 homens para produzir roupas e de 80 para produzir vinho.

Assim Ricardo demonstra que a produção de roupas na Inglaterra é mais barata do que a sua produção de vinho e Portugal pode produzir vinho mais barato do que produz roupa. Logo, seria mais vantajoso a Inglaterra comprar vinho de Portugal e vender-lhe roupa. Ambos os países ganhariam pela crescente especialização na produção de bens em que teriam vantagens comparativas, mesmo se Portugal tivesse uma vantagem absoluta na produção de ambos os bens.

2.2. Hecksher-Ohlin Theorem: Um país com abundância de mão de obra deveria exportar bens produzidos, aproveitando a sua vantagem naquele fator, mais do que se tornando um produtor de bens, cujo processo produtivo seja intensivo de capital. No entanto, provas empíricas desta teoria não lhe fizeram muito apreciada pela comunidade acadêmica.

imagem357775

O Embaixador Paulo Traballi-Bozzi está, atualmente, lotado na Embaixada em Trinidad e Tobago.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s