Pequeno Guia de Livros para História no CACD

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Por Pedro Gryschek


Acho que, em primeiro lugar, cabe fazer alguns comentários mais gerais. O primeiro e mais importante é que eu não passei no concurso e, logo, talvez não fosse a melhor pessoa para escrever isto aqui para vocês. Então, consultei o que alguns colegas já aprovados (ou que tenham tido um desempenho recente melhor que o meu) e professores tinham a dizer. Coincidiu mais ou menos com o que eu falaria inicialmente, com importantes dicas especialmente em História da América Latina e História Geral. Obrigado pela confiança e leitura.

Depois, cabe ressaltar que este é um concurso diferente, pois boa parte dos candidatos colabora entre si. Então, caso tenham tempo e se sintam bem com essas coisas, não tenham medo de dividir material, discutir matéria, participar de grupos de estudos, etc. Nos últimos anos, me preparando para o concurso, aprendi muita coisa (inclusive matéria) e fiz amigos que, com certeza, levarei para a vida toda.

Quando precisarem se motivar, lembrem-se do porquê escolheram este concurso e também procurem ler relatos de quem chegou lá ou mesmo de quem chegou perto. Talvez a situação do concurso e do MRE hoje não sejam muito animadoras, mas muitos colegas estão lá para quando precisamos de uma motivação, um incentivo a mais. Isso tudo me impede de desistir, mesmo após quase quatro anos na luta. Talvez motive vocês, também!


Dicas para todas as matérias que envolvam História

Quase todas as matérias acabam envolvendo, de alguma forma, o estudo de História. No guia vou falar só de História Geral e História do Brasil. Ambas as matérias tem Manuais da Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG), cuja leitura pode ser muito interessante e ajudar em alguns pontos (talvez as partes referentes à História da América Latina no Manual de História Geral seja o melhor exemplo).

É importante ter em mente que o que aprendemos em História no Colegial está muito aquém do que é exigido no concurso. Mas, também, a matéria que já conhecemos é instrumental para aprender o que é necessário. Uma pessoa que tenha feito um bom curso de História no Ensino Médio, como vocês irão reparar na Bibliografia, sai em clara vantagem em relação aos outros, especialmente em História Geral – em História do Brasil, mesmo os livros didáticos mais recentes são muito deficitários, talvez até como guias primários. Falta muito conteúdo, para citar um exemplo, sobre a Guerra da Cisplatina.

Se você já leu livros constantes da Bibliografia (baseada no último concurso que teve Bibliografia, já há quase cinco anos), ótimo, mas também não suba no salto alto (e eu cometi esse erro algumas vezes). Releia, fiche, discuta com colegas e professores, faça aulas (se possível em termos de tempo, finanças e cabeça) e resolva provas antigas ou de simulados. Em História, sempre há algo mais a aprender (talvez o ditado seja mais verdadeiro que em outras áreas). Todas essas atitudes ajudam quanto ao principal problema atual das provas de História, que é saber o que a banca quer que a gente responda.

Muitas vezes gente que sabe muito bem a matéria, mas usa como base livros não tão caros à banca (o principal exemplo que eu citaria seriam os livros do Henry Kissinger), acaba não tendo uma pontuação tão alta como a de gente que estuda apenas pelos livros que a banca usa mais (mesmo que esses livros sejam de uma corrente historiográfica minoritária). E o CESPE é cruel, tem o ponto de um erro anular um acerto na Primeira Fase e também um rigor grande na correção da Terceira Fase. História ainda é a matéria que me dá maior prazer estudar (e creio que isso seja verídico para 80% dos candidatos), mas é bom ter cuidado.


História do Brasil

Quanto a História do Brasil, primeiro uma boa notícia para vocês: a matéria é infinitamente mais interessante do que me parecia nos tempos de escola. O Brasil é, como sabemos, um país completamente sui generis entre seus pares americanos e mundiais. Neste aspecto, é muito gostoso estudar a matéria que, cabe ressaltar, cai também na Terceira Fase (ao contrário de História Geral, que só aparece na Primeira).

O primeiro livro essencial é o História do Brasil, do Boris Fausto. É um livro recente e com redação corrente e de fácil compreensão. Muita gente não gosta, mas eu acho muito interessante começar pela versão condensada do livro, História Concisa do Brasil, que não traz discussões historiográficas, mas contém quase todos os dados factuais que constam do livro integral. É bom ler para tomar um primeiro contato, funciona como o livro escolar ou os do Burns para História Geral. Inclusive, a maioria das questões da Primeira Fase sobre história mais factual e não diplomática dá para responder só com esta leitura. Depois, passem para a versão integral.

Não conheço bons livros de História do Brasil pré-1808, com exceção da Invasão Holandesa (assunto que cai bastante e do qual sempre gostei). Há uma coleção recente sobre o assunto, mas ainda não li nenhum dos volumes. As pessoas que consultei também não têm uma opinião formada sobre ela. Mas acho que, até hoje, só vi uma questão de TPS um pouco mais complicada sobre a época, que não daria para resolver lendo o História do Brasil.

Passando a outro livro essencial para o concurso, a História da Política Exterior do Brasil, do Amado Luiz Cervo e do Clodoaldo Bueno. Talvez este seja o livro que garanta maior número de pontos em todo o concurso, já que seu conteúdo também aparece bastante nas provas de Política Internacional; o livro não é conhecido como Bíblia Vermelha do CACD por acaso. A redação, especialmente na parte do Cervo, não é boa. É um livro árido (talvez só competindo com os do Milton Santos de Geografia e o Ordem do Progresso, sobre História da Economia Brasileira, entre os necessários para o concurso), mas é essencial. Acho que é bom lermos quando já temos bem solidificado o conteúdo de história factual e historiografia, facilita muito a compreensão. Com a exceção da política nuclear recente do Brasil, o livro traz exatamente a posição da Banca Examinadora (para a parte de política nuclear, caso não possam fazer aulas de Política Internacional ou História, recomendo até a leitura de artigos na Wikipedia sobre cooperação nucelar Brasil-Argentina, assinatura do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP) na década de 1990 e o relacionamento do Brasil com os organismos que cuidem do assunto (ONU, AIEA, Tratado de Tlateloco, Zopacas – Zona Livre de Armas Nucleares no Atlântico Sul, etc.)). É bacana lembrar que temos, no momento, um problema prático com este livro: ele está entre duas edições. Não vejo vendendo em livrarias há pelo menos um ano, mas está disponível no site da Editora da UNB e também na Estante Virtual, além de sebos.

Continuando a história factual, temos, para o período entre 1808 e 2010 (na verdade, até 2013), a nova coleção História do Brasil Nação 1808-2010, da Editora Objetiva, organizado pela Lília Moritz Schwarcz, em 05 volumes, cada um cobrindo um período específico. Terminei o quinto volume recentemente (um dos motivos para ter atrasado o envio do guia) e posso afirmar que é uma obra bem “user friendly”, visto que é muito bem dividida em períodos e, também, dentro de cada período, por assunto. Cabe fazer uma pequena crítica aos capítulos dedicados à política externa nos volumes 3 e 5 (esta crítica não é minha, é de gente que já passou e também de alguns professores de História e PI), que acabam sendo incompletos e confusos. Lembrem-se sempre: baseemo-nos na Bíblia Vermelha para a História da Política Externa Brasileira. Então, em caso de conflito, fiquem com ela. O maior destaque positivo fica para as partes de História político-social e cultural, matéria cada vez mais cobrada nos últimos anos, em especial na Terceira Fase.

Os capítulos dedicados à História Econômica também são bons, mas, para este assunto, especialmente até a industrialização do Brasil, dois livros essenciais são Formação Econômica do Brasil, do Celso Furtado e Formação do Brasil Contemporâneo, do Caio Prado Jr. Ambos ajudam muito também na parte de Economia que trata da História Econômica do Brasil (algo próximo de um terço das provas de Economia trata disso). Outro livro essencial na área é o Ordem do Progresso, de diversos autores, Editora Campus. É um livro complicado, mas, muitas vezes, as respostas às questões estão literalmente transcritas nele.

Claro, há diversos outros livros sobre assuntos e períodos mais específicos, de autores como José Murilo de Carvalho, Evaldo Cabral de Melo (melhor leitura sobre a invasão holandesa do Nordeste), Francisco Doratiotto (membro da Banca e muito forte no estudo das relações do Brasil com a Região Platina, inclusive com o Maldita Guerra, um livro excelente sobre a Guerra do Paraguai, que traz também conteúdo sobre acontecimentos anteriores na Região – aquela pergunta que disse que não conseguiria resolver mesmo lendo mil vezes o livro do Fausto tinha sua resposta nesse livro, só para constar), Gilberto Freyre¸ Sérgio Buarque de Holanda, Raimundo Faoro (os três também muito úteis para a Segunda Fase), entre outros diversos autores consagrados.


História Geral 

Aqui seu velho livro da Escola pode te ajudar (e muito) pelo menos a esquematizar a matéria e já se acostumar com datas e eventos históricos. Como fiz um vestibular recentemente e já não tinha o meu livro de Colégio, usei outro (mais completo, por sinal) para estudar a parte anterior à Idade Contemporânea (que é o que cai no concurso) e, pouco antes do concurso deste ano, dei uma lida na parte referente a isso também. Valeu a pena, algumas coisas ficaram melhor estabelecidas na cabeça e, também, acertei duas das quatro questões sobre a Revolução Gloriosa (junto com a Revolução Americana, uma das matérias anteriores à Idade Contemporânea que caem no concurso. E eu não sabia que caia até ver na prova) com o conteúdo deste livro. Dei o livro para uma amiga e não lembro exatamente qual é o nome dele, mas creio que a maioria dos didáticos mais atuais seja de um nível parecido.

Ainda para começar, mas já em maior nível, uma ótima leitura (e parte da antiga Bibliografia) é a História da Civilização Ocidental, vol. II, do Edward McNall Burns, outro livro que li apenas neste ano. Engraçado que meu pai e gente da geração dele, como o Professor Chico Moura, de Português, aprendia História na escola com esse livro (e seu primeiro volume, que traz, entre outros assuntos, a Guerra dos Trinta Anos, que não cai em História, mas é importante para a compreensão de alguns conceitos de Direito Internacional e Política Internacional). O livro continua excelente (pelo menos no período histórico que cobre, no caso da edição a que tive acesso, até a Crise dos Mísseis de 1962), mas, infelizmente, não tem novas edições há anos. Já ouvi falar que é relativamente fácil achar em sebos, mas nunca consegui; peguei na biblioteca da FEA-USP. Tanto livros de colegial atuais quanto os do Burns tem uma redação fácil, gostosa de ler, o que acaba fazendo com que avancemos com mais facilidade nos estudos. Também, por não serem tão profundos, funcionam como excelentes fichamentos e trazem excelentes referências bibliográficas (historiadores costumam ser bem criteriosos com isso).

Em um segundo momento, já tendo datas e eventos mais impactantes mais ou menos fixados, uma leitura essencial (talvez só perca para a Bíblia Vermelha) é a História das Relações Internacionais Contemporâneas, organizada pelo José Flávio Sombra Saraiva, da Editora Saraiva. É um livro relativamente fácil de ser encontrado e com uma leitura muito mais fácil do que a da Bíblia Vermelha. Apesar do nome, não trata somente de História Diplomática da Idade Contemporânea, também traz muitos elementos factuais novos mesmo para quem já leu o Burns ou livros escolares, de maneira razoavelmente direta e organizada. Por mais que algumas posições trazidas no livro sejam minoritárias em termos de Historiografia, eu nunca vi uma questão de Primeira Fase ir contra ele. Ou seja, em História Geral, se fosse pra escolher um livro para “decorar”, seria esse.

Depois, outra leitura vinda da Bibliografia que havia no edital até 2010: As Eras (Era das Revoluções, Era do Capital, Era dos Impérios e Era dos Extremos), do Eric Hobsbawm. Os três primeiros são vendidos conjunta ou separadamente pela Editora Paz e Terra e o quarto pela Companhia das Letras e são, todos, muito fáceis de ser encontrados. As leituras de todos são densas e acho que meu maior erro nos estudos foi começar por eles, mesmo antes de me decidir a prestar o CACD. Os livros são bem redigidos, apesar de às vezes a linguagem ser um pouco pedante (não sei se um problema de tradução) e trazerem, especialmente no caso da Era do Capital e da Era dos Extremos, algumas posições historiográficas mais minoritárias. Importante dizer para prestarem atenção às partes de História Cultural e Científica, que são muito interessantes e têm sido cobradas em todos os concursos mais recentes (digo isso especialmente para quem não tiver a felicidade de ter algumas aulas com o João Daniel). Não dá pra pular essas partes, mas, para nossa alegria, eles cobram mais conceitos, escolas e “movimentos científicos e culturais”; e não datas ou autores, compositores, intérpretes e cientistas sociais ou da natureza específicos. São obras que tentei, mas não consegui fichar. Se alguém arrumar um método, por favor, me avise.

Para se aprofundar mais, uma boa é dar uma olhada na bibliografia recomendada até 2010 e também na constante das obras acima. Vou dar alguns exemplos de obras e autores. Caso tenham dúvida sobre um assunto específico, consultem a bibliografia de 2010 (que eu estou mandando junto com o guia) ou me perguntem (apesar de alguns assuntos eu só ter estudado pelas obras que já citei, algumas vezes eu conseguirei ajudar ou poderei pedir informações para alguém que possa fazê-lo).

O livro indicado para História dos EUA era o The Penguin’s History of the United States, do Hugh Brogan. É um livro razoavelmente fácil de ser encontrado e o inglês dele é acessível. Infelizmente tive meu exemplar roubado há dois anos.

Atualmente, uma matéria muito importante é a História da América Latina. Existe uma obra clássica, organizada por Leslie Bethell, em vários volumes e disponível em português. O problema é que a carga de leitura é muito grande. Um paliativo pode ser a leitura dos livros da Série Revoluções da Editora Unesp sobre as revoluções no continente (México – talvez a mais frequente em provas – Nicarágua, Cuba) ou procurar ler os verbetes da Wikipedia sobre a história dos maiores países e também do Paraguai e do Uruguai, por serem nossos vizinhos e parceiros de Mercosul e Unasul. Eu acabei aprendendo muito sobre a América Latina em aulas do João Daniel e do Rômulo, do Clio e em livros que eu ou pessoas próximas trouxeram da região. Também falam muito bem das aulas do Professor Pêcego, do Ideg. Caso tenham disponibilidade, acredito que as aulas sejam a melhor saída para aprender a matéria.

Tenho aqui aulas sobre Paraguai, Bolívia e México. Caso tenham interesse, é só me pedir que eu passo, já estão digitadas.

Outros livros que podem ajudar, mas que podem estar em desacordo com a banca (lembrem-se sempre de basear-se primeiro na Bíblia Vermelha e no Sombra Saraiva e, caso os assuntos não sejam tratados por eles, nos livros do Fausto e do Hobsbawm) são os do Henry Kissinger (Diplomacia, especialmente os capítulos sobre o Tratado de Viena de 1815 e sobre História Diplomática dos EUA) (Sobre a China, para ter alguma ideia sobre a história do nosso maior parceiro comercial), Pierre Milza (autor indicado pelo professor João Daniel, que também é autor de Manual da Funag), entre outros tantos (se o autor também for diplomata e, principalmente, brasileiro, a leitura é recomendável).

Por fim, a Wikipedia é uma excelente ferramenta de consulta, especialmente em inglês. Cabem os mesmos cuidados de sempre ao usá-la, visto que qualquer um pode alterar seu conteúdo.

Mais uma vez, obrigado pela confiança e leitura. Mesmo fazer este pequeno Guia foi bem útil para planejar meus estudos futuros. Espero que também ajude vocês!

Um abraço,

Pedro

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