Relações Bilaterais: Brasil-Índia

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Por Patricia Galves Derolle*

Índia e Brasil têm características bastante similares. As relações entre os dois Estados são deveras antigas; assim como relembra Oliver Stuenkel[1], Brasil e Índia compartilham um histórico que data do descobrimento do Brasil, no século XVI, por Pedro Álvares Cabral, o qual queria, em realidade, chegar às Índias e acabou encontrando a costa brasileira. Desde essa época, há um intercâmbio de produtos entre os dois países, como a introdução de frutas típicas indianas, a exemplo da manga, no Brasil e, em contrapartida, a mandioca e a castanha são levadas ao país asiático. O estabelecimento de relações diplomáticas, de fato, acontece em 1948, um ano após a independência indiana. Devido à falta de complementariedade econômica, à distância e ao protecionismo de ambos os países, eles afastam-se por 20 anos e retomam suas atividades bilaterais no fim dos anos 1960: nessa época, Brasil e Índia possuem discursos reivindicatórios similares quanto ao terceiro-mundismo (MNA e UNCTAD). Na década de 1970, há um distanciamento quanto às posições acerca de questões nucleares: enquanto o Brasil denuncia o Acordo Nuclear, a Índia lança o ‘Buda Sorridente’ (do inglês Smiling Buddha, é bomba nuclear para fins pacíficos), em 1974. Dez anos depois, em 1984, o então chanceler Saraiva Guerreiro visita a Índia com o intuito de vender o projeto ‘Proálcool’. Durante os anos 1990, Brasil e Índia percorrem o mesmo caminho de liberalização econômica, de privatizações, de controle inflacionário e de retomada do ciclo de crescimento. Assim, como para Rússia, o governo Lula também elevou a Índia a uma parceria estratégica. As principais áreas de interesse bilateral são pautadas em comércio, em questões políticas e em suas posições análogas quanto à governança global (democracia e Direitos Humanos).

A Índia é o segundo parceiro comercial, intra-BRICS, do Brasil, cuja Balança Comercial apresenta déficit brasileiro, que exporta petróleo, açúcar e cobre e importa diesel e têxteis. Em 2004, Mercosul e Índia firmaram um Acordo de Preferências Tarifárias Fixas, o primeiro extrarregional efetuado pelo bloco, porém, somente em 2009 o acordo passou a vigorar – um passo incipiente para uma possível área de livre comércio entre os dois países. Em questões políticas os dois países compartilham narrativa similar: ambos fazem parte de BRICS, de IBAS, do BASIC, do G-20 e do G-4. Nesses foros há diálogos frutíferos sobre diversos temas, inclusive a vontade em fazer parte de um Conselho de Segurança reformado. A posição acerca da governança global pode ser traduzida pelo fato do Brasil e da Índia serem democracias, que prezam os Direitos Humanos. Segundo Oliver Stuenkel[2], essas características democráticas servem de contraposição para o mundo, que vê na China um modelo de desenvolvimento exemplar, entretanto, pautado em autoritarismo. Os desafios entre os dois países são baseados no déficit da Balança Comercial em relação à Índia, na posição, por vezes, protecionista e inflexível da Índia na OMC, na posição de cada um no seu entorno geográfico: enquanto o Brasil se situa em uma região pacífica, a Índia encontra-se em uma das áreas mais militarizadas do mundo, o que os fazem divergir em questões nucleares e, ainda, na disposição do Brasil em fazer concessões em termos de meio ambiente, diferentemente, do país asiático.

[1] STUENKEL, Oliver. The Case for Stronger Brazil-India Relations. In: Indian Foreign Affairs Journal Vol. 5, No. 3, Julho–Setembro 2010, 290-304.

[2] Id ibid


V1* Patricia Galves Derolle é graduada e pós-graduada em Relações Internacionais. Já estagiou na Missão do Brasil junto à União Europeia, em Bruxelas, na Missão do Brasil junto à ONU, em Genebra; trabalhou no Escritório de Representação do Itamaraty em São Paulo e na Organização Internacional para Transportes Terrestres (IRU) em Genebra. Atualmente, é Advisory Board Member e Senior Editor da revista digital Modern Diplomacy e  fundadora do site e-Internacionalista. Contato: e.internacionalista@gmail.com

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