A ascensão da China: um breve histórico

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“Ensinou-nos o Barão do Rio Branco que a potência hegemônica do mundo merece cuidados dos dirigentes brasileiros, no sentido de com ela estabelecer, em nome do interesse nacional – cultural, político, geopolítico e econômico – as melhores relações possíveis. Desde 1974, o Brasil persegue esse conselho da sabedoria diplomática, com olhos voltados para a emergência de nova hegemonia – a China.” Amado Cervo.

Atualmente, o mundo passa por uma mudança em sua configuração. O século XXI está demonstrando ser a época em que países não pertencentes ao tradicional Ocidente estão ganhando cada vez mais espaço no cenário internacional. As chamadas potências emergentes contrapõem, mas também atuam conjuntamente com as potências estabelecidas, a fim de conquistar seus respectivos espaços no cenário interncional, que foi moldado, predominanente, sob uma lógica ocidental, por países que ditavam e, por vezes ainda ditam, as regras do sistema internacional. Dentre as potências emergentes, destaca-se, sobretudo, a China. A ascensão chinesa, principalmente por meio da economia e do estabelecimento de relações comerciais, é um dos assuntos mais discutidos por acadêmicos, economistas e empresários.

Para entender, brevemente, a ascensão chinesa, iniciar-se-á pelo período do governo de Mao Tsé-Tung, que ascendeu ao poder no ano de 1949 e que, àquela época, já traçava grandes metas de governo para a então proclamada, por ele mesmo, República Popular da China. Não vem ao mérito a questão da diferença entre ideologias durante o período da Guerra Fria, mas o estabelecimento da China como uma possível potência regional. O desenvolvimento econômico chinês de facto, que se iniciou logo no início do governo maoísta, contribuiu para a redução da inflação do país, bem como criou um sistema bancário de tipo soviético, que exerceu controle eficaz sobre o dinheiro e o crédito[i].

Em 1955, Mao outorgou o primeiro Plano Quinquenal, o qual enfatizava a indústria pesada, criando mais de 300 fábricas nacionais (o que acabou, por fim, deteriorando as condições do campesinato chinês) e, também, outorgou o programa de investimento do governo, que arrecadava por meio de impostos. Em 1957, a China já era vista como uma potência economomicamente independente na região, apresentando o seguintes avanço: aumento do PIB de 61.100 milhões de yuans, em 1952, para 93.800 milhões de yuans, em 1957. O período entre 1958 e 1960 é conhecido como o ‘Grande Salto para Frente’, em que a indústria chinesa obteve resultados surpreendentes se se comparada com o período anterior. Do período entre 1960 até a morte de Mao, em 1976, a China passou a obedecer as regras compiladas em seu ‘livro vermelho’, período esse em que o país passou a se isolar da União Soviética, e também do mundo, devido à busca soviética pela hegemonia nuclear. Foi, portanto, no período maoísta que a China contou, basicamente, com o investimento na indústria de base e, em menor medida, na infraestrutura, controlando, dessa forma, a economia administrada por Pequim que, embora incentivasse o desenvolvimento interno do país, obteve baixa produtividade e pouca competitividade no mercado externo.

Após a morte de Mao, quem assume é Deng Xiaoping, cujo governo baseou-se na abertura econômica chinesa e no processo de reformas, baseado nas ‘Quatro Grandes Modernizações’, pautadas na indústria, na agricultura, na defesa e na ciência e tecnologia. Com a economia relativamente preparada para a abertura; somente a partir dessas reformas que foi possível desenvolver o país e atrair mais investidores estrangeiros. Segundo Danielly Silva Ramos Becard, no livro ‘O Brasil e a República Popular da China’[ii], as reformas efetuadas por Xiaoping centram-se em quatro linhas:

  1. Pragmatismo criador;
  2. Autoritarismo flexível;
  3. Sistema baseado no crescimento econômico distributivo;
  4. Interdependência internacional.

É, portanto, neste período que a China percebe que a abertura econômica e a interdependência internacional poderiam trazer grandes ganhos na esfera comercial-desenvolvimentista. Assim como outras potências emergentes fazem à época, a China se aproxima de seus pares na Ásia, bem como na América Latina e na África. Em relação à América Latina, as linhas estratégicas de sua política externa, segundo Jiang Shixue, membro do Institute of Latin American Studies da Academia de Ciências Sociais da China, baseava-se em cinco princípios: i. cooperação com outros países em desenvolvimento, para diminuir as assimetrias e estabelecer uma ordem internacional mais justa; ii. diminuição da dependência econômica com os EUA e com os outros países desenvolvidos; iii. intercâmbio de recursos naturais, os quais são abundantes na América Latina; iv. intercâmbio de experiências acerca da abertura econômica, também vivida pela América Latina e, por fim, v. estabelecimento de relações diplomáticas em troca do reconhecimento chinês em detrimento do reconhecimento de Taiwan nas instâncias internacionais[iii].

O período anterior aos anos 1980 foram bastante incipientes na relação sino-brasileira. É somente a partir do final dessa década, que o Brasil e a China passam a convergir, de maneira mais explícita, em suas políticas econômicas. Foi nesta época de abertura chinesa, que o Brasil e a China adotaram parceria estratégica ascendente, construída à base de vontade nacional, potencial similar e nível emparelhado de desenvolvimento alcançado[iv]. Para ambos os países, a busca de empreendimentos e de investimentos internos era essencial para o estabelecimento da indústria de transformação. No caso chinês, a sua necessidade em importar recursos naturais brasileiros foi um dos principais vetores comerciais no relacionamento bilateral. Para o Brasil, a diversificação das parcerias comerciais se mostrava essencial para a economia nacional, que passou, durante os anos 1980, pela então cunhada ‘década perdida’, mesmo após tentar instaurar diversos planos de estabilização econômica.

O estreitamento lento, porém crescente (progressivo conforme a ascensão do país asiático), nos anos 1990 e 2000, das relações entre o Brasil e a China é norteado, principalmente, pelo comércio bilateral forte, pela cooperação tecnológica e pela interdependência dos negócios internacionais. Acerca do comércio, a pauta comercial bilateral foi e segue sendo a importação da China de produtos alimentícios e de matérias-primas brasileiros e da exportação chinesa de manufaturados ao Brasil. Embora seja uma relação assimétrica, isso não é visto como um impedimento em nenhum dos lados, pois há compensação em outra esfera, como a cooperação tecnológica (discutir-se-á novamente esse tópico mais adiante). Essa esfera, baseia-se na cooperação em tecnologia avançada, principalmente na construção do satélite CBERS. Por fim, a interdependência dos negócios internacionais é demonstrada pelo advento da globalização que, por meio de investimento mútuo, há, cada vez mais, maior aproximação entre os dois países.

No anos 1990, houve um afastamento entre os dois países. A diferença pautou-se, sobretudo, na atenção dada à política externa de cada um deles. Enquanto o Brasil buscava estabelecer antigas e tradicionais parcerias com as potências estabelecidas, a China estava focada em seus ganhos comerciais e na exportação, cada vez mais acentuada, dos manufaturados. Foi um período, assim como diz Danielly Silva Ramos Becard, de esfriamento das relações bilaterais e superação de desafios. Houve certo afastamento, mas o comércio bilateral seguiu ascendente, principalmente devido à interdependência dos países. Nesse período, o Brasil exportava, basicamente, soja e minério de ferro e importava produtos manufaturados de baixo valor agregado. Era, portanto, uma relação superavitária para o Brasil.


[i] MORENO, Julia. China Contemporánea: 1916-1990. España, VV.AA., 2010.

[ii] BECARD, Danielly Silva Ramos. O Brasil e a República Popular da China: Política Externa Comparada e Relações Bilaterais (1974-2004). Brasília: FUNAG, 2008.

[iii] Em 1972, a China assumiu a cadeira permanente do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, no lugar de Taiwan. Porém, os países, em meio da incerteza da Guerra Fria, sob o respaldo estadunidense, continuou a apoiar Taiwan e não a República Popular da China. Essa indecisão dos países não perdurou muito tempo depois de os Estados Unidos passarem a se aproximar mais dos dragões asiáticos.

[iv] CERVO, Amado. Inserção Internacional: formação dos conceitos brasileiros. Capítulo 12: As relações com o Japão, a China, a Índia e o interior asiático.

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