Revolução do Shale: implicações econômicas e geopolíticas para as relações internacionais

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Por Carolina Moehlecke[1]

A revolução do shale gas (Gás de Xisto) e do tight oil nos Estados Unidos vem alterando significativamente as dinâmicas globais de energia, trazendo implicações econômicas e geopolíticas que afetam diretamente os tradicionais players do mercado energético internacional. Entre 2007 e 2012, a produção de shale gas em solo norte-americano cresceu mais de 50% a cada ano, e a exploração do tight oil cresceu 18 vezes no mesmo período, revertendo, dessa forma, a tendência de queda da produção norte-americana desses combustíveis. Estas mudanças levaram os Estados Unidos a ultrapassarem a Rússia como a líder mundial na produção de energia em 2013 e, segundo projeções da Agência Internacional de Energia, pode fazer com que logo superem a Arábia Saudita como os maiores produtores de óleo cru no mundo.

Embora outras regiões também possuam volumosas reservas de shale, como China, Argentina, Brasil, México e África do Sul, os Estados Unidos são o único país que, até o momento, reuniu as condições necessárias para tornar a exploração desse tipo de gás e de petróleo viável e rentável. No território norte-americano, ao contrário do que ocorre na maioria dos Estados do hemisfério ocidental, os direitos de propriedade do subsolo pertencem ao proprietário, e não ao Estado, tornando a compra dos depósitos de shale pelas empresas exploradoras mais simples e rápida. Além disso, a legislação ambiental menos centralizada, a estabilidade política, e a abertura do mercado ao investimento externo são outros traços da economia norte-americana que impulsionaram a indústria do shale, cuja debilidade em outros Estados detentores de reservas impediu, até o momento, seu ingresso nesse novo mercado energético de maneira decisiva. O status praticamente exclusivo dos Estados Unidos como grande produtor e exportador de gás e petróleo de shale tem garantido ao país uma nova posição no mercado global de energia, produzindo vencedores e perdedores nesse cenário.

Notadamente, os maiores prejudicados pela revolução energética norte-americana são os Estados que tradicionalmente confiam na sua capacidade exportadora de energia para garantir seu crescimento econômico e sua projeção de poder no sistema internacional. Nesse sentido, os países-membros da OPEP já veem reduzida a sua capacidade de controlar o preço internacional do barril de petróleo pela administração da sua produção diária, perdendo, por consequência, parte do seu capital político. A recente decisão dos países-membros da organização de manter os atuais níveis de produção de petróleo em um cenário de baixa de preços demonstra a diminuição do seu controle sobre o mercado: tradicionalmente, em uma situação como a atual, a OPEP tenderia a cortar sua produção para pressionar uma alta de preços e aumentar sua receita. No entanto, com o incremento da oferta mundial proporcionada pelos Estados Unidos, a equação ficou mais complicada, obrigando a organização a manter o nível de oferta a fim de não arriscar perder parte do seu share no mercado.

O cenário de preços baixos é também particularmente desfavorável para países que demandam grande capacidade de caixa para garantir investimentos no setor, como Brasil, Venezuela e Rússia. O patamar atual do preço do barril de petróleo de aproximadamente USD 80 (valor 30% menor do que o registrado no início do ano, e o mais baixo desde 2009), já torna as operações da Petrobras e da PDVSA sensivelmente menos rentáveis, e coloca estas empresas em uma situação na qual a geração de receita é insuficiente para promover novos e necessários investimentos que lhes permitiriam competir de maneira mais incisiva no mercado internacional. Mais ao leste, a Rússia decidiu recentemente cancelar o projeto de construção de um novo gasoduto que levaria combustível à Europa, recuando a sua estratégia de exercer influência política sobre o continente por meio de seu potencial energético. Fatores políticos envolvendo a tensão na Ucrânia desempenharam um papel fundamental nessa decisão, mas muitos analistas atribuem à queda dos preços de energia um peso ainda mais significativo no atual processo de retração das ambições russas em relação à Europa.

Do lado dos vencedores, o maior beneficiado é, evidentemente, os Estados Unidos. A tendência é que a produção de shale gas e tight oil continue impulsionando as vantagens competitivas de setores econômicos estratégicos e altamente demandantes de energia, como a indústria petroquímica e a de aço. Tal impulso deverá estimular investimentos em infraestrutura, e a exportação de energia deverá colaborar com uma balança comercial mais favorável para os norte-americanos. Além disso, os gigantes importadores de energia, em especial a China, a Índia e a União Europeia, obterão vantagens competitivas importantes decorrentes das quedas dos preços mundiais do gás e do petróleo. De maneira geral, a perspectiva é de que o boom do shale gas e do tight oil gere resultados positivos para a economia global, fomentando o crescimento e o emprego em setores industriais intensivos em termos de energia e mão de obra, tendo em vista a correlação histórica existente entre baixos preços de energia e crescimento econômico. No entanto, as novas dinâmicas energéticas podem também gerar o risco de desequilíbrios no sistema financeiro internacional, decorrentes da insustentabilidade que eventuais rolamentos de títulos associados aos capitais destinados à indústria do shale possam gerar na economia internacional, que vem se recuperando a duras penas.

É interessante notar, por fim, que nem mesmo a recente escalada das tensões no Oriente Médio tem sido suficiente para reverter a pressão que a revolução do shale e a ainda fraca demanda das principais economias do mundo têm exercido sobre a redução dos preços internacionais de energia. Analistas do Council on Foreign Relations apostam na manutenção deste cenário por pelo menos um ou dois anos, o que tende a manter os vencedores em uma situação cada vez mais favorável, deixando os perdedores em uma posição na qual passa a ser urgente a busca por soluções que tornem rentáveis as suas operações no mercado energético, ou que no mínimo estabilizem suas economias a ponto de evitar crises maiores. Tais soluções podem resultar bastante amargas para alguns governos, pois necessariamente envolveriam políticas monetárias agressivas, cortes de gastos públicos e reformas estruturais pouco populares entre os eleitores, mas imperativas para a estabilidade de suas economias nesse novo cenário.

Fontes:

BIRNBAUM, Michael. Putin cancels new natural gas pipeline to Europe in a surprise move. The Washington Post. 01 de dez. de 2014. Disponível em: < http://www.washingtonpost.com/world/europe/putin-cancels-new-natural-gas-pipeline-to-europe-in-a-surprise-move/2014/12/01/c1955c90-73ee-11e4-95a8-fe0b46e8751a_story.html&gt;. Acesso em 02 de dez. de 2014.

BLACKWILL, Robert. O’SULLIVAN, Meghan. America’s Energy Edge: The Geopolitical Consequences of the Shale Revolution. Foreign Affairs, v. 93, n. 2, mar/abr 2014. Disponível em: < http://www.foreignaffairs.com/articles/140750/robert-d-blackwill-and-meghan-l-osullivan/americas-energy-edge&gt;. Acesso em: 25 de nov. de 2014.

COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS. World Energy Outlook 2014. Disponível em: < http://www.cfr.org/global/world-energy-outlook-2014/p33870?cid=rss-fullfeed-world_energy_outlook_2014-112514&gt;. Acesso em: 29 de nov. de 2014.

RÜHL, Cristof. The five global implications of shale oil and gas. The Energy Post, 2014. Disponível em: < http://www.energypost.eu/five-global-implications-shale-revolution/&gt;. Acesso em 25 de nov. 2014.

THE ECONOMIST. OPEC Flexing. The Economist, 2014. Disponível em: < http://www.economist.com/blogs/graphicdetail/2014/11/daily-chart-15?fsrc=scn/tw/te/bl/ed/opecflexing&gt;. Acesso em 27 de nov. de 2014.


Carolina Moehlecke - foto

[1] É bacharel em Relações Internacionais pelo Centro Universitário La Salle (Canoas – RS). Possui experiência na área de Administração com ênfase em negócios internacionais e interesse sobre os temas de economia política internacional, cooperação e desenvolvimento e análise de política externa.

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