Berlim antes do muro

BerlinMap

Por Pedro Gryschek 

O início

Berlim é uma cidade comparativamente nova, entre as demais capitais europeias. Resultado da fusão de dois vilarejos, no início do século XIV, tornou-se capital do então Margrave de Brandemburgo (um dos vários Estados que então existiam na região da atual Alemanha), é bem mais nova que as capitais de outros grandes Estados europeus, como Londres e Paris (ambas fundadas ainda na Antiguidade), Roma (com mais de 2.500 anos de história) ou Moscou, fundada ainda na Alta Idade Média. Mesmo algumas cidades alemãs, como Colônia ou Munique, são bem anteriores a Berlim.

No entanto, graças à sua localização estratégica, às margens do Rio Spree e não tão distante do Mar Báltico, a cidade tornou-se importante rapidamente. Brandemburgo não era um Estado dos mais fortes na Alemanha, sendo superado pela Áustria e as cidades hanseáticas, como Hamburgo, Lübeck e Bremen e havia uma forte influência eslava na região, inclusive (o nome da cidade tem origem em palavra de origem eslava significando pântano). Já no século XV, porém, a cidade passaria ao controle dos Hohenzollern, família que reinaria na Prússia e, posteriormente, também no Segundo Império Alemão, até o ano de 1918. Em 1539, a cidade tornou-se oficialmente luterana, característica que seria uma marca também do Império Prussiano, fundado no século XVIII.

No século XVII, a cidade, assim como boa parte do Sacro Império, foi arrasada pela Guerra dos Trinta Anos. A cidade perdeu um terço de suas moradias e aproximadamente metade de sua população. Depois da Guerra, Frederico Guilherme iniciaria um período de promoção da imigração e tolerância religiosa, que seria decisivo para a reconstrução e repovoamento da região. Muitos foram os imigrantes da Boêmia, Polônia e Áustria e, algo surpreendentemente, da razoavelmente distante França, especialmente os huguenotes protestantes. Os franceses seriam importantíssimos para o desenvolvimento cultural da cidade, inclusive por sua influência linguística decisiva sobre os Hohenzollern, que se comunicavam no dia-a-dia usando o idioma gaulês.

Capital do Império Prussiano

Desde 1618, o Principado de Brandemburgo tinha uma união pessoal (o mesmo que acontece com Escócia e Inglaterra, atualmente) de poderes na figura de um Hohenzollern. No início do século XVIII, alguns outros vilarejos como Cölln (não confundir com Colônia, no oeste da Alemanha, também chamada Köln), Friedrichswerder e Friedrichstadt. Também formou-se, em 1701, o Reino da Prússia, embrião do que seria, pouco mais de um século e meio mais tarde, o Império Alemão.

FredericoFrederico II, também conhecido como Frederico, o Grande, subiu ao trono em 1740. Foi um dos expoentes do chamado Despotismo Esclarecido, tornando Berlim uma cidade importante no Movimento Iluminista. Curiosamente, só comunicava-se em alemão com seus cavalos e patos, usando o francês na maior parte do tempo. Frederico, o Grande transformaria a Prússia em uma das potências europeias, mas ainda assim, uma potência distante do nível da França e da Grã Bretanha.

Liderados por Napoleão, os franceses derrotaram com facilidade os prussianos, com ajuda dos saxões, especialmente na Batalha de Iena. Ao contrário do que aconteceria com a Áustria e outros países, entretanto, a Prússia manteve um grau razoável de autogoverno e foi decisiva para as derrotas de Napoleão nas batalhas de Leipzig e Waterloo, que derrubariam definitivamente o grande general corso. Já no Congresso de Viena, os prussianos foram considerados entre os grandes europeus, facilitando seu trabalho, posteriormente no século XIX, no sentido de unificar boa parte da Alemanha em união aduaneira que excluía a Áustria, possivelmente o Estado alemão mais forte e líder natural em uma eventual unificação.

Também no século XIX, Berlim dispararia de uma provinciana capital de Estado para uma das quatro maiores cidades europeias, ao lado de Londres, Paris e Viena. Não era um centro cultural tão relevante como as duas últimas, mas tinha belos monumentos, como o Portão de Brandemburgo, o Reichstag (edifício do Parlamento) e a Siegelei, estátua da vitória e também belas e arborizadas ruas, como a Kufürstendamm. Hegel, Humboldt, entre outros intelectuais viveram na cidade durante o período, atraindo estudantes de todas as partes da Europa. Nos arredores da cidade, Potsdam, com os palácios de Sans Souci e o bairro holandês, também era (e continua a ser) uma atração.

BismarckNa segunda metade do século, a cena berlinense seria dominada por outro grande personagem: Otto von Bismarck, nobre prussiano que seria o chanceler de Guilherme I, Rei da Prússia e, com a unificação alemã em 1870, também o primeiro Kaiser (Imperador) da Alemanha unificada. Considerado um gênio diplomático, Bismarck conseguiu, ao derrotar Dinamarca, Áustria e França, unificar a Alemanha em torno da coroa dos Hohenzollern. O país era consideravelmente maior que a atual Alemanha, contendo partes dos territórios hoje pertencentes à Rússia, Polônia, França e Bélgica.

A cidade também se tornaria um importante entroncamento entre as duas zonas industriais alemãs, no Ruhr e na Silésia, com sua população sofrendo um enorme aumento. No fim do século, Bismarck teve seus serviços dispensados pelo ambicioso Kaiser Guilherme II, que embarcaria em um projeto desprezado pelo Chanceler de Ferro: a obtenção de colônias ultramarinas, para maior prestígio do Império Alemão. Berlim começava o século XX como um dos grandes centros da belle époque e uma das três maiores cidades do mundo, mas a ameaça da guerra era cada vez mais discernível em um horizonte que parecia cada vez mais próximo. A história de Berlim entre 1914 e 1989 será tema do próximo artigo.

Belle

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