Feliz (?) Ano Novo: Os desafios para os mercados emergentes em 2015

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Imagem: Google Images / caglecartoons.com

Por Carolina Moehlecke*

A economia promete seguir como um dos elementos centrais dos arranjos da política internacional em 2015, sobretudo para o grupo dos países emergentes. Além da queda dos preços globais do petróleo e do gás e da consolidação da retomada do crescimento dos Estados Unidos, a desvalorização das taxas de câmbio em diversos países do mundo em desenvolvimento será um dos tópicos na pauta das agendas desses governos ao longo do próximo ano, produzindo efeitos no âmbito doméstico que serão projetados no plano internacional, e afetando profundamente as relações de poder entre alguns dos principais atores da economia global.

O caso mais emblemático até o momento é, sem dúvidas, o russo. Nos últimos dois meses, o rublo perdeu mais de 50% do seu valor em relação ao dólar, impulsionando uma inflação de 8% que já interfere diretamente no poder de compra da população. Na semana do Natal, os russos correram às lojas para garantir o estoque de produtos antes dos preços subirem descontroladamente, o que antecipa uma desaceleração da economia estimada em, pelo menos, 4% para o próximo ano. A desvalorização do rublo está diretamente relacionada à queda dos preços internacionais do petróleo, produto responsável por mais de dois terços das receitas de exportação da Rússia, ao prolongamento do conflito com a Ucrânia e às sanções econômicas impostas pelo Ocidente. Essa complicada conjuntura já afeta a balança de pagamentos russa e obriga o governo a promover uma política de defesa do rublo que, só em outubro[1], consumiu USD 10 bilhões das reservas do país, cuja fração líquida é estimada em apenas USD 150 bilhões. Como agravante, o mercado interpreta essa política monetária defensiva como insuficiente para solucionar a crise, e a fuga de capitais já se configura como realidade. Convencer o investidor externo a voltar a confiar na Rússia em um cenário de crise econômica e política de múltiplas causas é uma tarefa de dimensões gigantescas para o Kremlin.

Em termos políticos, a tendência da manutenção de um cenário econômico doméstico desfavorável é produzir instabilidade, que deve crescer no momento em que a crise começar a afetar de maneira mais incisiva os preços dos alimentos, que são, em grande medida, importados. Não se descarta a possibilidade de acentuação do autoritarismo do governo russo, especialmente se a população resolver demonstrar seu descontentamento com a conjuntura econômica do seu país, e de um eventual spillover desse efeito para os países da Ásia Central, economias ainda muito dependentes da Rússia, tanto em termos de comércio bilateral, quanto de remessas de dinheiro oriundas das populações de imigrantes. Da mesma forma, os problemas domésticos já obrigam que Putin reveja a estratégia de expansão da sua influência em relação à Europa, exercida, sobretudo, pela dependência dos países europeus em relação às fontes energéticas russas. Com os preços das suas commodities de exportação em baixa, a balança de pagamentos desfavorável e a capacidade de investimento de médio e longo prazo prejudicada, as ambições geopolíticas russas devem figurar em segundo plano no próximo ano.

Em outros mercados emergentes, a situação ainda não atingiu um estado crítico como na Rússia, mas os efeitos da desvalorização de suas moedas já exigem o estudo da implementação de medidas difíceis por parte dos governos locais. Em países como Brasil, Índia, África do Sul e Turquia, as autoridades monetárias enfrentam um dilema que deve ficar cada vez mais complicado: podem defender suas moedas da desvalorização em relação ao dólar, consumindo suas reservas de moeda estrangeira necessárias para a manutenção dos fluxos de comércio exterior, ou podem permitir a desvalorização, o que impulsionaria a inflação em economias ainda muito dependentes da importação de manufaturados e bens de capital, prejudicando o crescimento da atividade econômica. Há ainda outro aspecto a considerar: embora taxas de câmbio desvalorizadas possam incentivar a exportação ao tornar os preços dos bens mais competitivos no mercado internacional, somente esse aspecto não é suficiente para garantir eficiência e produtividade. A vulnerabilidade dos preços das commodities, o intervencionismo estatal na economia e a instabilidade política presente em diferentes graus nos Estados emergentes anulam um potencial efeito positivo da desvalorização cambial, e acabam compondo uma conjuntura delicada e difícil de ser superada no curto prazo, principalmente porque as soluções apresentadas frequentemente se limitam a medidas meramente paliativas, como o uso das reservas cambiais.

A questão fundamental que segue impedindo a integração completa dos Estados emergentes na economia internacional globalizada é a incapacidade desses governos de aumentarem a competitividade de suas atividades econômicas de maneira sustentada e definitiva. A falta de investimentos em infraestrutura, os gargalos logísticos e a precariedade de políticas educacionais focadas no desenvolvimento de mão-de-obra eficiente impedem que os Estados emergentes aproveitem a depreciação das suas moedas, tornando esse fenômeno uma ameaça em determinadas conjunturas, como a atual. A tendência para 2015 é de agravamento dessa situação, não só pela ausência de planejamento e execução das medidas mencionadas, mas também pelo sinal dado pela autoridade monetária central dos Estados Unidos de que as taxas de juros do país devem voltar a subir em breve, atraindo os fluxos de dólares para a compra de títulos do tesouro norte-americano em detrimento de investimentos nos mercados emergentes. No tabuleiro da economia política internacional, os emergentes, sobretudo a Rússia, iniciam 2015 em desvantagem, e precisarão estar atentos ao complicado equacionamento entre suas políticas domésticas, os interesses de seus grupos dominantes e a realização de seus objetivos no sistema internacional.

[1] Último mês para o qual os dados foram divulgados.

Referências:

BEATTIE, Alan. WHEATLEY, Jonathan. Rising dollar set to harm emerging markets. Financial Times. 10 de dez. de 2014. Disponível em: <http://www.ft.com/intl/cms/s/0/d152b624-8063-11e4-872b-00144feabdc0.html?siteedition=intl#axzz3N6MjyoJE&gt;

CLOUD, Daniel. Revenge of the Ruble. Foreign Affairs. 18 de dez. de 2014. Disponível em : <http://www.foreignaffairs.com/articles/142693/daniel-cloud/revenge-of-the-ruble&gt;

KURSON, Ken. Russians stunned by sudden collapse of the ruble. The Observer. 18 de dez. de 2014. Disponível em: <http://observer.com/2014/12/the-stunning-collapse-of-the-ruble&gt;

WHEATLEY, Jonathan. Emerging markets grapple with rouble crisis. Financial Times. 16 de dez. de 2014. Disponível em <http://www.ft.com/intl/cms/s/0/2ba83ad8-8517-11e4-bb63-00144feabdc0.html?siteedition=intl#axzz3N6MjyoJE&gt;


Carolina Moehlecke - foto

* É bacharel em Relações Internacionais pelo Centro Universitário La Salle (Canoas – RS). Possui experiência na área de Administração com ênfase em negócios internacionais e interesse sobre os temas de economia política internacional, cooperação e desenvolvimento e análise de política externa.

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