Caso Charlie Hebdo: Breves reflexões sobre ética e religião

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Imagem: Google Images / ucobserver.org

Por Gustavo Rigonato*

Após os atentados à redação da revista francesa Charlie Hebdo no dia 8 de janeiro, o mundo trouxe ao debate temas como a intolerância religiosa, os limites da liberdade de expressão e também o terrorismo associado a uma religião. Enquanto alguns grupos tratam os cartunistas como heróis e propagam a frase Je Suis Charlie (Eu Sou Charlie), há que considere que a revista ultrapassou os limites – mesmo que nada justifique os ataques – e na França se observa o fortalecimento de sentimentos xenofóbicos e de uma extrema direita liderada por Marine Le Pen. Para início deste debate, devemos compreender a relação entre ética e a religião.

Tradicionalmente, entende-se a ética como a ciência que estuda a conduta do ser humano e suas ações/costumes dentro da sociedade em que está inserido. Diferencia-se da moral, uma vez que esta diz respeito ao conjunto de regras estabelecidas dentro de tal sociedade e que moldam o comportamento das pessoas; a ética, por sua vez, seria a reflexão que o ser humano faz deste código moral estabelecido e até que ponto é válido o exercício daquele.

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Imagem: Google Images / geekfill.com

Religião, de forma geral, é um sistema de práticas, experiências e pensamentos que consiste em estabelecer uma relação particular com o sagrado, seja como ele for entendido dentro de cada cultura. O estudo das religiões denomina-se “teologia”.

Desde os tempos mais remotos, o ser humano estava cercado por fenômenos naturais que não podiam ser explicados, suspeitou-se então da existência de uma força sobrenatural maior que a própria humanidade. A partir disto, as religiões surgem como forma de buscar explicar o lugar do homem no universo; com elas também se criaram os primeiros hábitos e tradições, que mais tarde evoluem e se tornam definidores de um comportamento moral.

Nos termos éticos, isso tem um profundo impacto: o ser humano deixa de agir conforme sua natureza e busca repensar seus atos, de forma que deve agradar ao seu Deus e buscar ser “santo”. Segundo Valls (1994, p. 34) “a religião trouxe, sem dúvida alguma, um grande progresso moral à humanidade. A meta da vida moral foi colocada mais alto, numa santidade, sinônimo de um amor perfeito, e que deveria ser buscada, mesmo que fosse inatingível”.

Contudo, devemos levar em conta que por mais que religião e conduta social tenham nascido praticamente juntas, as duas não estão necessariamente unidas: apesar de muitas religiões possuírem seus próprios códigos éticos, não significa necessariamente que todos os códigos éticos do mundo estejam ligados a uma religião. Nesse caso, o que é ou não ético também se torna relativo de cultura para cultura.

Não significa também que somente porque um indivíduo pertença a uma determinada religião é que este siga seu código ético. O próprio fundamentalismo religioso, que muitas vezes impede uma reflexão ética, acaba por ser a justificativa de preconceitos, guerras e atentados aos direitos humanos em nome da “salvação”. O ponto chave dessa discussão é que não deve haver generalizações: tal como existem bons cristãos e maus cristãos, bons mulçumanos e maus mulçumanos, também existem pessoas éticas com ou sem religião.

Aplicaremos isso ao caso francês: a França possui hoje uma população de 6,2 milhões de mulçumanos que se encontram em situação marginalizada. Ataques como o da semana passada ajudam a reforçar os estereótipos e preconceitos que essa religião estaria totalmente ligada ao terrorismo, assim como também fazem algumas charges da Charlie Hebdo. O fato de dois fundamentalistas realizarem os ataques, isso não necessariamente significa que seja a vontade de toda uma população[1].

Por fim, o que se deve levar em conta é uma abertura para a conscientização e o diálogo: independente se for um ensinamento de Buda, Maomé ou Jesus Cristo, o que mais importa é a lição de preservação da vida, ou seja, a partir de uma leitura crítica, cabe a nós uma decisão racional, sem imposições e com liberdade de escolha. Tal como Avelino (2011), conclui-se: “esse tipo de leitura tornaria qualquer livro sagrado bem-vindo em todas as culturas. Não se trata de abandonar sua cultura, seus costumes, mas conhecer e até somar. Seria, para tanto, necessário uma compreensão de religião como modo cultural.”

[1] Após os ataques, muçulmanos contrários ao extremismo divulgaram a campanha #NotInMyName (Não em meu nome), a fim de repudiarem os ataques feitos na capital francesa.

REFERÊNCIAS
HITCHCOCK, Susan Tyler. História das religiões: onde vive Deus e caminham os

peregrinos. São Paulo: Editora Abril, 2005.

PASSOS, João Décio; USARSKI, Frank. Compêndio de ciência da religião. São Paulo: Paulinas: Paulus, 2013

VALLS, Álvaro L. M. O que é ética. Editora Brasiliense, no 177. 1994 ALMEIDA, M. Moralidade, Ética e Religião, 2008.

AVELINO, Márcia. Reflexão sobre ética e religião, 2011.


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[*] Estudante de graduação em Relações Internacionais pela UNIMEP / Piracicaba (SP) e concomitantemente estudante de graduação em Gestão de Políticas Públicas pela UNICAMP/ Limeira (SP). Atualmente vice-presidente do Centro Acadêmico de Relações Internacionais UNIMEP. Possui interesse em política internacional, economia e administração pública. E-mail: gustavo.rigonato@gmail.com

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