Je suis Gaulois: O colonialismo francês e sua presença na África

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Imagem: Google Images / trop-libre.fr (tradução: três cores, uma bandeira, um império)

Por Gustavo Macedo*

Os atentados terroristas que aconteceram em Paris nos dias 7, 8 e 9 de janeiro últimos colocaram em evidência uma informação que, nos últimos anos, tem sido fonte de importante debate na França. Neste país, de 5% a 10 % da população de 65 milhões de habitantes é muçulmana, majoritariamente de origem árabe, fazendo da França o país de maior população árabe e islâmica da Europa. Isso explica, em parte, o crescimento de forças políticas de extrema direita (especialmente o Front National, ou a Frente Nacional, liderada por Marine Le Pen), que reagem a um suposto risco de se perder o tradicional estilo de vida francês, bem como de ser verem perecer as liberdades e valores ocidentais diante de um islamismo dito intolerante.

O que explica, no entanto, a forte presença árabe-islâmica na França? O passado colonialista francês talvez seja a principal resposta. Neste artigo, faremos uma sucinta exposição do histórico do colonialismo francês, como exercício necessário para compreender os desafios da França de hoje.

O colonialismo francês pode ser dividido em duas fases. A primeira fase corresponde à conquista de territórios no período das grandes navegações e da expansão ultramarina europeia, quando Espanha e Portugal dominavam os oceanos Atlântico e o Índico. No início, a França ainda não era uma potência marítima, mas já almejava galgar seu espaço. Quando o papa Alexandre VI, por exemplo, emitiu as bulas Inter-Coetera, que dividiam as terras do novo mundo entre Espanha e Portugal, o rei Luís XII, da França, ironicamente perguntou em qual artigo do testamento de Adão ele dividia a Terra entre Espanha e Portugal.

Os franceses tentaram estabelecer colônias nas Américas, no século XVI, inclusive no Brasil: primeiramente, na Baía de Guanabara, em 1555 (“França Antártica”), e depois no Maranhão, em São Luís (assim batizada em homenagem aos reis Luís IX e Luís XIII), em 1612 (“França Equinocial”). Em ambas as tentativas, os portugueses expulsaram os franceses, que também foram expulsos da Flórida pelos espanhóis após a fundação do Forte Caroline em 1562.

O império colonial francês nasceu oficialmente em 1605, com a fundação de Port Royal na colônia de Acádia, na América do Norte, onde atualmente fica a Nova Escócia. Três anos depois, os franceses fundaram Quebec, que seria a capital de uma imensa colônia, a Nova França, a que chamavam também de Canadá e que se tornaria a província de Quebec no Canadá contemporâneo.

Assim surgiu um vasto domínio francês na América do Norte, que se estendia da porção mais setentrional da Acádia, até o sul dos atuais Estados Unidos, na Louisiana, além de domínios no Caribe, como o Haiti. Além disso, já estabeleciam entrepostos comerciais na África, como no Senegal, em 1624, e na Índia.

A esta altura, os franceses já eram uma potência econômica e militar, viviam um período de enorme poder na Europa (especialmente sob Luís XIII – este com o Cardeal Richelieu – e Luís XIV, no auge do absolutismo) e se utilizavam de suas colônias para levar adiante as práticas mercantilistas de acúmulo de metais preciosos e de enriquecer por meio do exclusivo colonial.

A segunda fase do império colonial francês se iniciou após a Revolução Francesa e a Era napoleônica. Vivia-se a Revolução Industrial e a decadência do Império Otomano, o “grande enfermo da Europa”. As grandes potências europeias, em especial Grã-Bretanha e França, fizeram do século XIX o século do neocolonialismo, procurando sistematicamente estabelecer domínios coloniais em busca das vantagens econômicas, acentuadas no contexto industrial, e de prestígio político e militar. As potências avançavam sobre o debilitado império Otomano, mas iam além, em uma corrida frenética para conquistar a África e a Ásia (a esta altura, boa parte da América já se tornara independente). O comércio abria caminhos, mas por trás sempre vinha uma estrutura administrativa e militar, para defender os interesses das potências, como demonstra o historiador Albert Hourani (2013).

A França “inaugura” a segunda fase de seu império com a invasão de Argel, na atual Argélia, em 1830, e com a efetiva conquista de todo o país em 1847. Ali se inicia um longo período, de mais de um século, de forte e marcante presença francesa no norte da África. Os domínios do império colonial francês naquele continente correspondiam aos atuais Marrocos (colônia que foi cenário do clássico filme Casablanca), Argélia, Tunísia, Camarões, Senegal, Togo, Madagáscar, Benin, Níger, Burkina Faso, Costa do Marfim, Chade, Congo, Gabão, Mali, Mauritânia, Comores, Djibouti e República Centro Africana. Assim, enquanto os franceses dominavam a porção ocidental da África, os britânicos, seus renhidos rivais, dominavam a porção oriental, como fica claro no mapa abaixo:

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África em 1914 (Fonte: HowStuffWorks – disponível em http://history.howstuffworks.com/african-history/history-of-africa4.htm)

Os territórios dominados pelos franceses na África eram majoritariamente habitados por povos árabes, seguidores do Islamismo. Essa regiões haviam pertencido aos califados abássida, omíada e, depois, passaram ao controle otomano. Uma das principais características da colonização francesa nesse segundo império foi sua tentativa de não só proteger os interesses estratégicos da França nos territórios controlados, mas de levar o modo de vida francês a esses povos. Os franceses pretendiam remodelar essas sociedades à imagem semelhança da sociedade francesa, como nota Dan Smith (2008). Essa é a nota distintiva da colonização francesa, sobretudo em relação aos domínios britânicos, o que parece ecoar o sentido de missão civilizatória da Revolução Francesa e de Napoleão, ainda que em tempos da Restauração (1815-1848).

Os franceses procuravam enviar grande quantidade de colonos para seus domínios coloniais, além de ali investirem grandes capitais. Estradas de ferro, portos, hospitais, bases militares e escolas foram construídas em toda a “África francesa”, seja com a finalidade de auferir retornos de capital, de facilitar a exploração de recursos naturais ou de “civilizar” os povos locais – afinal, a educação francesa e o serviço militar eram obrigatórios. Nas escolas, inclusive, as crianças dos povos colonizados tinham de repetir a velha fórmula – Nos ancêtres les Gaulois.

O resultado desse esforço era, sem dúvida, um choque cultural, com inúmeras revoltas e sublevações que sempre eram reprimidas com enorme violência. A situação piorou para a França no século XX, especialmente após a Segunda Guerra Mundial, quando, sob a inspiração do princípio da autodeterminação dos povos, simbolizado nas Nações Unidas, os povos dos domínios franceses pegaram em armas para lutar por sua independência. As décadas de 1950 e 1960 serão marcadas pelas sangrentas guerras de independência, especialmente a da Argélia, que durou de 1954 a 1960. Os franceses entendiam que suas colônias eram parte da França, e lutaram violentamente para impedir a independência. No entanto, em 1961, após a realização de um referendo em que ficou claro apoio à independência argelina, e diante de forte pressão internacional, o presidente Charles de Gaulle desistiu de lutar pela Argélia, que se tornou independente em 1962, sendo o último grande domínio francês a fazê-lo. A luta de independência da Argélia mobilizou de tal forma a sociedade francesa que seus intelectuais se engajaram fortemente em um debate público, sendo famosa a querela entre Jean-Paul Sartre e Albert Camus.

O que vemos hoje, na sociedade francesa, é uma forte presença de imigrantes argelinos, tunisianos, marroquinos, malianos e de outras ex colônias. Sua presença no país europeu gera inúmeras controvérsias, pois são acusados de não se integrarem à cultura francesa, além de serem alijados da economia formal. A taxa de desemprego entre os imigrantes africanos na França é muito elevada, maior do que a média nacional, sendo que, em geral, eles procuram a antiga metrópole em busca de condições dignas de vida e de emprego, diante da debilidade econômico-social existente na ex colônias.

A recepção aos imigrantes nem sempre é calorosa. Pelo contrário, vai da indiferença à mais estridente xenofobia, a cargo em geral do Front National. No entanto, a França, em especial sua classe política, deveria refletir sobre o seu papel na sociedades que outrora colonizara, e pensar na presença dos imigrantes como uma consequência do seu passado colonialista. Os franceses pretenderam mostrar seu país aos povos colonizados como uma terra de excelência, de valores democráticos e de direitos humanos universais. Atualmente, acusam os imigrantes de quererem islamizar a França e destruir a secularidade da sociedade francesa. Não seria, portanto, o caso de mostrar verdadeiramente a esses mesmos povos, agora imigrantes, a universalidade dos princípios e valores da República francesa? E como fazer isso? A liberdade, a igualdade e a fraternidade nunca foram tão necessárias como agora. Afinal, nos ancêtres, les Gaulois…

REFERÊNCIAS

HOURANI, Albert. Uma história dos povos árabes. São Paulo: Companhia de bolso, 2013.

SMITH, Dan. O atlas do Oriente Médio. São Paulo: Publifolha, 2008.


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* Gustavo Macedo é graduado em Direito pela Universidade de São Paulo e pós-graduado em Relações Internacionais pela Fundação Getúlio Vargas. Possui interesse nas áreas de Relações Internacionais, Política Externa Brasileira e História.

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