Os árabes, o islã e o Ocidente

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Imagem: Google Images / Lurie’s NewsCartoon

Por Patricia Galves Derolle*

As a Muslim, it pains me when someone derides Islam and my religious beliefs. It also pains me when someone derides other religions and other people’s religious beliefs. But what offends me more, much more, are the actions of the criminals who, this week, dared to use Islam to justify the cold-blooded murder of innocent civilians.“ Rainha Rania, da Jordânia.

O atentado à redação do semanário francês, Charlie Hebdo, ocorrido há uma semana, é um fato deveras triste mas que nos serve de grande reflexão. A mais importante delas, talvez, é a de que o mundo esteja passando por certa mudança em sua organização, que pode ser traduzida por uma luta tácita, – mas nem sempre! -, contra o domínio e os pré-conceitos ocidentais em relação ao resto do mundo. Os árabes e o islamismo são exemplos disso.

Os árabes, embora sejam um povo heterogêneo, provenientes de diferentes partes do mundo, do Magrebe ao Maxerreque, são considerados erroneamente como um único povo, geralmente temido e alijado pelo ocidente. O Islã, por sua vez, é uma religião ainda pouco compreendida e estudada no ocidente e quando é mencionada associam-na diretamente ao terrorismo ou aos atos terroristas de uma minoria fundamentalista. Segundo Edward Said, no livro “Orientalismo”, existem dogmas no estudo dos árabes e do islamismo, sendo um deles a percepção arrogante do ocidente de que o oriente é “anômalo, subdesenvolvido e inferior”.

O governo francês não permite, desde a promulgação de uma lei datada de 1872, realizar censo sobre credo e raça dos cidadãos franceses, por isso é difícil saber precisamente a quantidade de muçulmanos vivendo em território francês. Pesquisas independentes apontam que há cerca de 6 milhões de muçulmanos na França, sendo a maioria de origem argelina, marroquina e tunisiana. Conforme alguns estudos, os muçulmanos, sobretudo magrebinos, preferem a França pois entende-se serem mais bem integrados à sociedade, devido à cultura (são países colonizados pela França) e à língua. Entretanto, eles também têm mais dificuldade em encontrar empregos permanentes.

A situação dos imigrantes na Europa é preocupante, uma vez que a ascensão da extrema direita, com pensamentos muitas vezes xenofóbicos, vem tomando espaço. Na França, essa liderança tem nome: Marine Le Pen. A presidente do partido “Front National – FN” declarou guerra contra o islã radical após o atentado ao Charlie Hebdo (veja o artigo do Le Monde: Pour le FN, la guerre est ouverte contre l’islam radical). Diferente de outros países europeus, como Reino Unido e Alemanha, na França os imigrantes, inclui-se portanto os muçulmanos, devem submeter-se aos princípios basilares e à civilidade (liberté, egalité e fraternité) franceses, havendo, portanto, pouca felixibilidade por parte deles em aceitar o diferente. Para respaldar isso, vimos mais de 1,5 milhão de pessoas nas ruas de Paris para protestar contra o terrorismo e a favor da “liberté” de expressão.

Edward-Said

Imagem: Edward Said / Fonte: hilobrow.com

Nota-se que o atentado surgiu de dois irmãos de origem tunisiana. Ora, não podemos deixar de lembrar da ocupação francesa na Tunísia entre os anos de 1881 a 1956. A conclusão que se pode tirar, se recorrermos ao passado e se corroborarmos com a opinião de alguns muçulmanos, é a de que ainda há mágoas causadas pela “descaracterização” do modo de vida dos tunisianos imposta pelos franceses naquele país durante a ocupação. A visão colonizadora do Ocidente em relação ao Oriente continua perpetuando-se e não pode ser deixada de lado: Edward Said nunca esteve tão certo… À luz dos atentados, a reflexão que podemos ter é a de que existe pouca tolerância em relação ao diferente, sobretudo o diferente que não vem do Ocidente. Os países ocidentais são aqueles que impuseram seus pensamentos ao mundo sem pedir licença, por isso talvez hoje acabem se tornando alvos dos intolerantes que vêm o Ocidente como opressor.

No islamismo, a imagem de Maomé é sagrada e não deve ser exposta da forma que o semanário Charlie Hebdo fez com bastante frequência. É certo que eles fizeram isso como forma de chamar atenção ao fundamentalismo extremo, com humor igualmente extremo. As charges utilizam-se da liberdade de expressão, entretanto para tudo há limites, sendo um desses limites o respeito. E respeito ao diferente faz parte da educação, em qualquer lugar do mundo. Particularmente, em relação ao caso Charlie Hebdo, eu não me coloco nem ao lado dos “Je suis Charlie” tampouco dos “Je ne suis pas Charlie”. Eu sou a favor da liberdade de expressão, mas também sou a favor do respeito ao diferente. Eu sou completamente contra o atentado à vida de inocentes, bem como de usar o nome de Jesus, de Maomé, de Buda ou de qualquer divindade para embasar assassinatos. Na verdade, “Je suis paix” (eu sou paz) – e sempre serei.

No comment TV: Today, Paris is the capital of the world.

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Paty_1_1* Patricia Galves Derolle é graduada e pós-graduada em Relações Internacionais. Já estagiou na Missão do Brasil junto à União Europeia, em Bruxelas, na Missão do Brasil junto à ONU, em Genebra, já trabalhou no Escritório de Representação do Itamaraty em São Paulo e na Organização Internacional para Transportes Terrestres (IRU) em Genebra. Atualmente, é Advisory Board Member da revista digital Modern Diplomacy e  fundadora do site e-Internacionalista. Contato: e.internacionalista@gmail.com

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