O limite do riso: Caso Charlie, democracia e a França

Goethe

* Por Nathália Cortez 

São cinco milhões de vozes. Cinco milhões de pessoas. Sim, cinco milhões de franceses. Cinco milhões de mulçumanos. Uma minoria que sempre enfrentou preconceitos, que é frequentemente exposta a islamofobia- ou xenofobia- fruto de embates entre o ocidente e o oriente, que insistem em estereotipar uma população.

O caso Charlie Hebdo não foi diferente. Um lamentável ato terrorista que ceifou muitas vidas e ao mesmo tempo o orgulho francês: A democracia- caracterizada pelo ideal revolucionário da liberdade e a liberdade de expressão- a qual culminou para uma luta, uma verdadeira guerra que anseia pela retomada da estabilidade do ideal de 1789. Porem, quem de fato é o inimigo? Há de se perguntar. Seriam todos os mulçumanos, estereotipados por anos como terroristas? É claro que não. É preciso ter clareza dos fatos antes de taxar, ainda que tacitamente, uma população de jihadistas.

As charges do Jornal Charlie, carregam um grande teor contestador, seja de dogmas, religiões, culturas ou minorias. No entanto, faz-se importante perguntar, qual o limite do humor a fim de se balancear direitos humanos, relativismo cultural e a liberdade de expressão?

Ao discorrer sobre o documentário de Pedro Arantes, intitulado o riso dos outros, Antônio Ozai da Silva, professor do Departamento de Ciências Sociais – Universidade Estadual de Maringá (DCS/UEM) e Doutor em Educação (USP)- fundamenta que o humorseja qual for o seu objeto, não se explica apenas pela capacidade individual de criação. Seu fundamento são os valores compartilhados socialmente. O humorista não é um indivíduo isolado, mas um ser social. A linguagem do comediante não é axiologicamente neutra. Todo discurso tem raízes na sociedade. Nem a piada nem o riso ocorrem no vácuo, seus alicerces são culturais, sociais, políticos e ideológicos. Quem fala, fala de um lugar determinado, está consciente do que pronuncia, espera um determinado efeito: provocar o riso. Quem ri também o faz conscientemente, e ao fazê-lo reforça a mensagem. Neste sentido, nem a fala nem o riso são naturais. O fundamento é social.”.

O preconceito, portanto, está na sociedade. O humor dialoga com o preconceito, neste caso em relação aos mulçumanos, mas este diálogo não está livre de tensões. O humor pode reforçar – ou não – os estereótipos enraizados na sociedade. Ele busca o reconhecimento, o aplauso e o riso.

Antônio ressalta que não se trata de tolher o direito do escritor em expressar-se, mas sim, fazer com que sua produção contribua para a diminuição de diferenças e preconceitos, ao fazer pensar, por exemplo, sobre as minorias, o racismo, o sexismo, etc.

O limite entre a liberdade e o respeito à diversidade é uma linha tênue, que deve ser cuidadosamente observada, a fim de se reforçar os alicerces deste Estado democrático que é a França. Afinal, democracia, é o tratamento com equidade de um povo.

Por tal exposição, posso dizer com veemência, eu não sou Charlie. Eu sou as minorias estereotipadas. Eu sou o respeito aos direitos humanos na França e no mundo. Eu sou contra a violência. Eu sou contra o terrorismo. Je suis démocratie (eu sou democracia).

Bibliografia consultada: https://espacoacademico.wordpress.com/2013/06/12/o-riso-dos-outros-o-humor-tem-limites/


IMG_4254* Aluna de Graduação em Direito na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Membro do grupo “Núcleo de Acesso a Justiça”, projeto desenvolvido pelos alunos da Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie com o objetivo de promover, fomentar e contribuir para o acesso à justiça no Brasil. Estagiária do Ministério Público do Estado de São Paulo e entusiasta no estudo de Direito Internacional.

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