A Nigéria e o Boko Haram: a questão do fundamentalismo religioso

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Imagem: Google Images / Breitbart.com / “CHRISTIAN, MUSLIM NIGERIAN LEADERS UNITE AGAINST BOKO HARAM”

Por Michelle Leite*

Esta semana, o mundo parou com a notícia do atentado em Paris, e mais uma vez foi observada a questão de como o fundamentalismo religioso é capaz de gerar a guerra e a intolerância entre os povos. Enquanto isso, paralelamente, no continente africano, ocorria o que poderia ser um dos maiores massacres da Nigéria, causado pela tentativa de impor o poder através de leis religiosas deturpadas.

Entre os dias 3 e 7 de janeiro, um grupo fundamentalista que atende ao nome de Boko Haram, atacou a cidade de Baga na Nigéria e a estimativa é de que pelos menos 2000 pessoas morreram durante os ataques, segundo a Anistia Internacional, porém oficialmente através do governo nigeriano foram divulgados apenas 150 mortes. As informações sobre o “massacre” são vagas e foram quase que imperceptíveis em comparação as notícias sobre o ataque terrorista, que levou a morte de 20 pessoas, do então polêmico periódico “Charlie Hebdo” em Paris.

O grupo radical Boko Haram que em sua tradução aproximada seria “Conduta ocidental é pecado “ é uma organização de base islâmica fundada no ano de 2002, que busca a implementação da sharia (lei baseada no alcorão), através da imposição da religião e o terror. Ou seja, o grupo terrorista acredita na constituição de um novo Estado regido pelas leis islâmicas e não considera o governo nigeriano como legítimo. O grupo fundamentalista, vem sendo frequentemente associado a ataques a cristão e mulçumanos desde o ano de 2009, principalmente ao norte e nordeste da Nigéria.

_42799319_nigeria_religion_gra203A Nigéria possui a maior população da África, sendo dividida entre as religiões mulçumana e cristã além de 300 tribos de diversas etnias. O país é marcado pela contradição, onde pelo menos 70% da população vive abaixo da pobreza, enquanto é apontado como um dos maiores produtores de petróleo do continente.

A Nigéria é marcada por um histórico de conflitos religiosos, principalmente após a sua independência nos anos 60, onde a luta pelo poder dos recursos em sua maioria na região sul, foram disputados com violência. Considerado um país laico, o governo tem obtido pouco sucesso, ao repelir os ataques terroristas, ora por sua fragilidade na questão de segurança, ora por seu histórico de escândalos e corrupções associadas ao governo.

Um país que em sua formação define-se como laico, como a Nigéria, carrega por anos o peso da religião como fator determinante na política do País, onde mulçumanos e cristãos não se entendem e onde o fundamentalismo religioso está incorporado em grupos terroristas como o Boko Haram. Sendo assim, PIOVESAN (2006) comenta que a ordem jurídica de um Estado não deveria ser atrelada a religião, já que a contestação de dogmas, poderia gerar conflitos e a democracia e liberdade estariam ameaçados.

“Os grupos religiosos têm o direito de constituir suas identidades em torno de seus princípios e valores, pois são parte de uma sociedade democrática. Mas não têm o direito a pretender hegemonizar a cultura de um Estado constitucionalmente laico.” (PIOVESAN, 2006, p.15)

A fragilidade do Estado em relação, a garantir os direitos religiosos da população nigeriana, leva o país a um clima de caos, são centenas de mortes, sequestros e ataques devido a um ódio fundamentado a partir de uma ideologia de um grupo que baseia suas decisões em uma lei religiosa e que por muitas vezes não é partilhada com os demais da mesma religião, levando o desespero e o clamor de uma nação em um continente “esquecido” pelo mundo.

Referências:

Anistia Internacional. https://anistia.org.br/precisamos-conversar-sobre-nigeria/ Acesso em: 14/01/2015

PIOVESAN, Flávia. Caderno de Direito Constitucional. 2006

Revista eletrônica Mundorama. http://mundorama.net/2013/04/20/o-boko-haram-na-nigeria-entre-a-sharia-e-ineficiencia-estatal-por-natalia-nahas-carneiro-maia/ Acesso em 14/01/2015

BBC. http://www.bbc.com/news/world-africa-30743030  Acesso em 14/01/2015


mi* Bacharel em Relações Internacionais com ênfase em comércio exterior, pela Universidade Estácio de Sá e autora de ” A Operação Pan- Americana e as consequências para a Política Externa Brasileira”. ( pesquisa apresentada, para a obtenção do título de bacharel, com nota máxima ). Voluntária em projetos sociais, fascinada por Política Externa e Direitos Humanos.”

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