Islamização da Europa? Uma questão para a integração

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Imagem: Google Images / yiddishwit.com

* Por Johnny Kallay

“Se a montanha não vai a Maomé, Maomé vai à montanha”. Este provérbio está corretíssimo ao afirmar que não se deve esperar pela ação do outro para que algo aconteça, pois corre-se o risco de que nada realmente aconteça. Sendo assim, se o sujeito quer realmente estar na montanha ele deverá dirigir-se a ela.

Os recentes ataques terroristas na França trazem força à discussão acerca da robusta imigração e da integração – ou da pouca integração – muçulmana na sociedade europeia. Atualmente, em países como França, Reino Unido e Alemanha já são comuns manifestações populares contra a islamização da Europa e com motivos potencializados neste momento imediatamente após os atentados em Paris, pois as pessoas ainda estão sob influência das emoções, da raiva e do choque que fomentam perigosamente sentimentos de rejeição e desconfiança em relação ao Islã, cuja cultura é rígida em termos de autoridade e punições e o indivíduo necessita de maiores limitações e consequências mais severas para estar em situação de adaptar seu comportamento à sociedade em que vive. Um outro ponto que chama a atenção é a crescente percepção entre alguns liberais europeus de que a contínua imigração muçulmana pode estar destruindo os seculares valores liberais europeus e por isso passa a representar uma ameaça à cultura europeia e possivelmente às crenças cristãs do velho continente. Esta percepção é alimentada por declarações de alguns muçulmanos radicais de que o Islã se tornará a principal religião em alguns países europeus, e o código de leis do islamismo, a Charia, irá se sobrepor à democracia, despertando o medo da religião diversa e desconhecida e principalmente das associações com a violência e morte que radicais de ambos os lados fazem desta religião.

As manifestações contra a islamização ajudam a quebrar o tabu de se debater os altos custos que os fluxos migratórios de muçulmanos causam naquela sociedade. Segundo o jornalista britânico, Ed West, a imigração não beneficiou de fato a economia de seu país, mas colocou uma pressão sobre os serviços, danificou o tecido social e fez da Inglaterra um país mais violento, desigual e infeliz, e chegou mesmo a ameaçar a sua própria democracia. Na Noruega, na Dinamarca e nos Países Baixos eleitores estão se voltando para os partidos que se opõem abertamente à imigração em massa, são pessoas comuns que têm empregos regulares, que viajam para o exterior e têm amigos de todas as raças e credos, mas que não querem ser uma minoria no seu próprio país.

Atualmente, aproximadamente 6% da população europeia é muçulmana, mas temos que lembrar que muitos deles são cidadãos franceses, alemães, dinamarqueses etc., com direitos e deveres, porém com pensamentos desalinhados em relação à cultura e aos princípios ocidentais, vivem em guetos porque os europeus não os veem como europeus, veem-nos sob a ótica do multiculturalismo que fragmenta a sociedade e incentiva o separatismo, e por outro lado estimula que pessoas com os mesmos fundamentos culturais estejam juntas em suas zonas de conforto. Digamos também que o imigrante chega à Europa não para ser europeu mas para ganhar dinheiro e ter uma vida possivelmente mais digna. Isto tudo nos leva novamente ao pensamento inicial deste texto, o dilema entre a montanha e Maomé: os europeus naturalmente afastam os muçulmanos de seu convívio por conta das diferenças culturais enquanto os muçulmanos resistem em se fundirem numa cultura ocidental, ou seja nem Maomé vai à montanha e muito menos a montanha a Maomé, e assim o drama social se estabelece.

Com os ataques terroristas deste início de ano na França estabeleceu-se uma guerra contra o Islã radical, porém como combater algo que não é visível ou marcado e que é carregado de componentes imprevisíveis e inusitados? Como discernir o que é bom do que é mau? Generalizar e dizer que toda a comunidade islâmica é potencialmente criminosa é simplesmente um erro. Pensar no terrorismo islâmico como um adversário único e coeso engana e é perigoso. Os diferentes grupos têm diferentes origens e objetivos, assim como as diásporas muçulmanas no Ocidente são originárias de diferentes países e culturas. Muitos muçulmanos franceses, por exemplo, tem raízes no Norte de África e carregam consigo as marcas e as consequências da colonização e da independência, enquanto outros se ofendem com a proibição de uso de burcas em lugares públicos, e nenhuma destas implicações se aplicam por exemplo à Grã-Bretanha. Pensar em muçulmanos como um grupo homogêneo é ainda mais temerário por mais que alguns líderes partidários de direita manipulem as opiniões dos eleitores para isso. A maioria não é extremista e muito menos apoia a violência.

Neste cenário, é de vital importância que a cultura seja separada da religião, já que há muitos muçulmanos que além de não frequentarem mesquitas ignoram o que está escrito no Corão, e o ponto em comum seria mesmo a forte influência no nível cultural, um exemplo disto é a forma como a cultura muçulmana aceita e incorpora o sentimento de raiva, de agressividade e de vingança em nome da honra, provando neste ponto o antagonismo com relação à cultura ocidental. A cultura muçulmana é forte, o que acaba tornando seus membros praticamente incapazes de se adaptarem a outros valores.

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Imagem: Google Images / nicolaisennels.dk

Segundo o psicólogo dinamarquês Nicolai Sennels as culturas muçulmana e ocidental são fundamentalmente muito diferentes e os muçulmanos precisariam fazer grandes mudanças em sua identidade e em seus valores para chegar ao ponto de aceitar os valores das sociedades ocidentais. “Mudar as estruturas básicas de sua própria personalidade é um processo psicológico e emocional extremamente exigente. Aparentemente, poucos muçulmanos sentem-se motivados a este empreendimento”, afirma o psicólogo.

Diante dos obstáculos à uma integração muçulmana na sociedade europeia, como afirmar que realmente está ocorrendo uma islamização da Europa se as culturas não se fundem, não se integram? Seria a cultura ocidental débil o bastante para ser tragada pela orgulhosa cultura muçulmana? E ainda a realidade pode perfeitamente ser deturpada por percepções. Uma pesquisa Ipsos-Mori, em 2014, descobriu que os franceses acreditam que 31% de seus compatriotas sejam muçulmanos, porém o número real fica em torno de 8%, o mesmo ocorre em outros países como por exemplo na Alemanha onde a percepção do tamanho da população muçulmana é de 19% enquanto na realidade é de apenas 6% e na Bélgica, cujo percentual real de muçulmanos é de 6% porém a percepção atinge a marca dos 29%. O mesmo fenômeno acontece na Espanha (16% para percepção e 2% para o real), na Itália (20% para percepção e 4% para o real) e no Reino Unido (21% para percepção e 5% para o real). Tais percepções se mostram perigosas, pois o público europeu superestima demais a proporção de sua população muçulmana e com isso estimula o xenofobismo, a ocorrência de manifestações contra uma eventual islamização, a crença de que os processos imigratórios e de concessões de asilo ao consumirem grandes somas retiram investimentos de outras áreas, o sentimento de que uma sociedade mais homogênea tem menos problemas e que a situação de pobreza da comunidade muçulmana gera violência e insegurança, enquanto, na verdade a, pobreza não é uma causa e sim uma consequência da baixa prioridade que eles concedem à escolaridade juntamente com sua falta de motivação para planejar uma carreira. É importante destacar também que as minorias muçulmanas não são 100% radicais, muito pelo contrário, são na maioria cidadãos respeitáveis, dóceis e trabalhadores, embora pareça haver falta de disposição de se integrar na sociedade europeia gerando uma tendência de viver numa “sociedade paralela”.

De toda forma, desmistificar os motivos pelos quais os europeus consideram o Islã uma ameaça é uma tarefa tão complicada e possível somente com a ajuda dos próprios muçulmanos, quanto fazer com que os muçulmanos derrubem as barreiras que criaram para sua integração, separando “o alho do bugalho” num complexo processo que exige a recuperação de uma confiança que está profundamente abalada pelo terrorismo islâmico. A islamização não ocorrerá unilateralmente pela força da cultura e da religião muçulmana, por outro lado os europeus temerosos precisam confiar no poder de seus valores democráticos para suplantar o medo do desconhecido que só será vencido com um esforço paciente de integração de ambos os lado, e não de segregação. Tanto para europeus quanto para muçulmanos é importante que se deem conta de que a montanha não se moverá e portanto terão que fazer o papel de Maomé no provérbio, de ir até a montanha e assim provar que é possível integrar: respeitando as diferenças, minimizando as divergências e enaltecendo a convivência harmoniosa, mas para tanto é necessário, antes de tudo, muita boa vontade.


Johnny* Johnny Kallay é graduado em Comunicação Social pela Escola Superior de Propaganda e Marketing e pós-graduado em Relações Internacionais pela Fundação Getúlio Vargas. Possui interesses nas áreas de geopolítica e segurança global, energia e desenvolvimento econômico mundial.


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