Relações Internacionais e Pós-Colonialismo: Agenda acadêmica e desafios metodológicos

FIGURA CAMISETA 2

Imagem: Google Images / cari-facinter-curitiba.blogspot.com

Por Guilherme Augusto Batista Carvalho*

     O surgimento das Relações Internacionais como área autônoma de estudos e positivada se dá no início do século XX. Porém seu estudo como área não fragmentada data ainda da guerra do Peloponeso, quando Tucídides realiza as primeiras análises sobre as relações entre os Estados e suas implicações. “O saber internacional, como objeto categórico analítico, é antiquíssimo e remonta à investigação positiva, normativa e descritiva do enigmático fenômeno humano em suas múltiplas teias de relacionamento interativo social e em vários compartimentos” (CASTRO, 2012, p. 52). As Relações Internacionais desempenham um papel fundamental como área teórica, uma vez que ela (a área de estudo) reúne uma gama de teorias e metodologias de áreas “irmãs/afins”, destacando a Ciência Política, Sociologia, História, Direito, Economia, Filosofia e Antropologia.

       No decorrer do desenvolvimento das Relações Internacionais como campo de estudos surgiram debates um tanto quanto pragmáticos, os quais visavam captar as lacunas e serem variações das teorias que acabavam não considerando como relevantes ao estudo a área para além das teorias clássicas e já consagradas (realismo e idealismo). Na passagem da década de 80-90 surge a crítica pós-colonial. Essa crítica é engendrada principalmente pela Antropologia e pela Sociologia, para servir como deslocamento da agenda eurocêntrica de estudos. Para Barbosa (2010) o surgimento da agenda de estudos pós-coloniais liga o surgimento desta tradição à trajetória ascensional de certos intelectuais do Terceiro Mundo nas academias europeias e estadunidenses, a partir da década de 1980.

       O estudo da crítica pós-colonial tem como principais referênciais Homi K. Bahbha (indiano) que tem como principal obra voltada para os estudos culturais e pós-coloniais, “The location of Culture” (1994). Assim como também Edward W. Said (palestino) tendo como principal contribuição “Orientalism” (1978) obra essa que pretendia desconstruir o discurso colonial a partir da metodologia arqueológica foucaultiana acerca das relações entre saber e poder na modernidade. Ambos os autores trazem grandes contribuições para estudos dos discursos assimétricos, da imposição de cultura e das demais consequências deixadas pelo colonialismo.

         As Relações Internacionais no final da Guerra Fria necessitavam abranger suas análises para além do paradigma “conflito e cooperação”, devido à multiplicidade de fatores que se iniciavam em decorrência do conflito, e um deles eram as descolonizações africanas. Após o inicio do descongelamento das tensões, houve espaço para se pensar além das possibilidades de um conflito iminente. Assim, abriam-se os leques nos estudos sobre centro-periferia, visando dar respaldo a algumas temáticas antes nem pensadas como relevantes. Sendo assim temos o pós-colonialismo como um estudo complementador para diversas áreas das humanidades, mas em especial para as Relações Internacionais, em suas consequências.

       As Relações Internacionais analisavam no tocante colonização as tipologias geopolíticas e fronteiriças (Ratzel e Renner), a preocupação com a guerra e ampliação do poder (Shun Tzu, Hobbes e Maquiavel), mas negligenciavam suas consequências sociais e culturais. Os estudos pós-coloniais trazem análises sobre as colonizações presenciais (estatais), e também da colonização cultural, e é exatamente aí que temos um “casamento” entre a teoria e empirismo, como também entre Relações Internacionais e pós-colonialismo.

     Apesar de ser uma teoria extremamente recente, o pós-colonialismo tem sido bastante utilizado, e nas Relações Internacionais mais recorrentemente do que nunca. Após o início da multilateralização do sistema internacional, outros movimentos e relações tem ganhado projeção. O estudo das relações sul-sul tem sido prova dessa virada de agenda de estudos internacionais, em que Universidades de países antes denominados coloniais iniciaram o aprofundamento em seus estudos nos mais diversos temas. “A crítica pós-colonial ficou famosa tanto por seu objeto de pesquisa, quanto por aquilo a que indiretamente se opunha: os discursos nacionalistas anticoloniais e racialistas, dominantes da primeira metade do século XX” (HALL, 2003, p.111).

     Com as descolonizações, surgiram questões de gênero, identidade e separatismo. “A questão da identidade nacional, especialmente, torna-se problemática, sendo papel do intelectual mostrar que as fronteiras refletem um objeto construído, por vezes inventado, o que implica contestar suas imaginações binárias e estáticas” (CARVALHO, 2013 p.467). Os estudos sobre terrorismo utilizam-se do pós-colonialismo para nele buscar o cerne das questões históricas, culturais, econômicas e sociais que geraram o grupo/movimento terrorista. O pós-colonialismo também tem se relacionado com estudos de movimentos emancipatórios e de busca pela democracia, como por exemplo o da Primavera Árabe, suas razões e suas consequências, assim como mostra Celso Paciornik (2013): “Com exceção de nações históricas como o Egito e o Marrocos, a maioria das outras é formada por criações artificiais, produtos do colonialismo europeu que juntou tribos e etnias diferentes em Estados unitários que só conseguiam se manter através de um Estado autoritário”.

       Através dessa infinidade de temas profundos (em todas as áreas do conhecimento) para serem tratados no “casamento” entre pós-colonialismo e Relações Internacionais, é claro quais desafios são postos. As experiências empíricas estão a todo vapor. Processos históricos se desenrolando, surgimento de movimentos transnacionais que tem seu cerne em questões culturais e coloniais ainda do século XIX (e até mesmo bem antes) tem impacto direto em diversos fatores da vida acadêmica ao redor do mundo por provocarem incertezas e dificuldades de lerem os processo apenas por questões políticas, econômicas e militares. Talvez a maior dificuldade da junção entre Relações Internacionais e pós-colonialismo esteja justamente ai, na negligência de mais fatores.

      O desenvolvimento dos fatores históricos tem levado ao desenvolvimento metodológico e científico dessa afinidade entre pós-colonialismo e Relações Internacionais. As dificuldades da aplicabilidade de uma na outra, em artigos, trabalhos monográficos, dissertações e teses, tem se concentrado nos distanciamentos linguísticos e na dificuldade de se superar a literatura eurocêntrica (ainda mais utilizada para ler os processos internacionais). O sistema internacional tem mostrado que há a necessidade de se interpreta-lo de diversas formas. Sendo assim, o que nos resta questionar é se esse debate tem de fato condições para se sustentar, uma vez que condições metodológicas de uso e agendas de pesquisa existem, porém as incertezas do uso se conservam devido ao pragmatismo da área das Relações Internacionais, a qual tem ainda o Realismo como seu principal expoente. O caminho para o aprofundamento das relações entre as duas está traçado, resta saber se ele terá continuidade e se a agenda se ampliará com o decorrer do tempo.

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REFERÊNCIAS

BARBOSA, Muryatan Santana. A crítica pós-colonial no pensamento indiano contemporâneo. Revista de História da África e de estudos da diáspora africana, n° 39, p. 57-77, 2010.

CARVALHO, Bruno S. Entre o universalismo e a condição contextual: concepções e limites do humanismo secular de Edward Said. Revista Sociologia & antropologia rio de janeiro, v.03.06: 465 – 488, novembro, 2013.

CASTRO, Thales. Teoria das Relações Internacionais. Fundação Alexandre de Gusmão, Brasília – Brasil, 2012.

CELSO, Paciornik. As incertezas e o pós-colonialismo no Oriente Médio. ESTADÃO –Internacional, janeiro de 2013. Disponível em: <http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,as-incertezas-e-o-pos-colonialismo-no-oriente-medio-imp-,983677&gt;. Acessado em: 26/01/2015.

HALL, Stuartl. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: UFMG, 2003, p. 111.

SAID, Edward W. Orientalismo – o Oriente como invenção do Ocidente. Trad. Rosaura Eichenberg. Coleção Companhia de Bolso. São Paulo:Companhia das Letras, 2007.


servletrecuperafoto * Guilherme Carvalho é graduando em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás e bolsista do programa BIC-PUC. Contato: guilherme.rel1404@gmail.com


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