O Boko Haram e a Oportunidade de Cooperação na África

Imagem: Google Images / BBC

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Por Adalto Rafael*

O Boko Haram

Os atentados em Paris foram um grande choque para a comunidade internacional. Muito se discutiu sobre a extensão do terror. Uma convulsão mundial se instalou e os ecos dos tiros disparados no Charlie Hebdo servem para apurar os ouvidos para outras regiões do mundo, onde o terror já se tornou (quase) cotidiano. É preciso falar da Nigéria e do Boko Haram.

Em 2002, uma escola que oferecia educação gratuita atraiu a atenção de famílias pobres, alcançado relativo sucesso. Mohammed Yusuf formou o que hoje conhecemos por Boko Haram[1], a partir de suas bases: a antiga escola passou a centro de recrutamento de guerrilheiros e em 2009 realizou seu primeiro atentado, em retaliação à morte de Yusuf. O grupo é dividido em facções e pouco se sabe sobre sua estrutura: apesar das possíveis ligações com terroristas de outros lugares, não se sabe ao certo como seus soldados são armados. Quase não há preocupação sobre suas raízes, além da sua explícita finalidade religiosa.

Em primeiro lugar, não se deve corroborar com a verborreia midiática que nos compele a acreditar que o islamismo é oposto à racionalidade. O fenômeno é muito maior: é fruto de um norte pobre, historicamente explorado e esquecido pelo sul; tomado pela corrupção endêmica, gerada no ventre de uma exploração colonial que deixou marcas; a formação do estado se deu de maneira frágil e desigual. A sharia já havia sido instalada em partes da Nigéria em outro tempo, por vontade do povo, em resposta à corrupção, ao esquecimento, à opressão. Os integrantes do Boko Haram podem ser remanescentes dessa “fatia insatisfeita” e elevaram a níveis extremos a sua insurgência.

Nesse sentido, o objetivo principal do grupo não é (ao contrário do que se pensa) a violência por si só: “Boko Haram” significa algo próximo de “não à educação ocidental”. Ou seja, o grupo busca a libertação da dominação ideológica do ocidente e consequentemente preservar um estilo de vida baseado numa interpretação própria do Corão. Em declarações recentes, fizeram questão de se separar da Nigéria, pois não se entendiam como participantes dessa democracia e que estavam, na verdade, criando um novo estado islâmico.

E para isso se utilizaram de violência e terror. O Boko Haram não faz distinção entre civis, militares, políticos, diplomatas, muçulmanos e católicos e ateus. Hoje o grupo detém o controle de áreas de grande importância na Nigéria e conquista uma vitória após a outra, avançando lentamente. O último caso envolveu crianças que foram forçadas a se explodir, um ato de barbárie singular, repudiado oficialmente pela Organização das Nações Unidas.

A Oportunidade

Pode parecer mórbido ou até mesmo desumano, mas o Boko Haram se mostra como grande oportunidade para a cooperação na África. A campanha de terror encabeçada pelo grupo gera um rastro de destruição singular pelo continente; o ocidente não parece interessado com o que acontece e o apoio das Nações Unidas se mostrou, na melhor das hipóteses, insuficiente. Mas o ponto crucial está relacionado à probabilidade de extrapolação para o campo regional, expondo à riscos os circunvizinhos. Esse risco é iminente: a guerra civil protagonizada pelo grupo já toma proporções regionais. Nacionais dos países fronteiriços estão sendo recrutados em escala cada vez maior; Camarões sofre ataques constantes e seu o presidente, Paul Byia, já foi ameaçado.

Nesse sentido, um concerto entre estados africanos poderia mitigar riscos e afastar esta ameaça, mesmo que para isso seja necessária uma intervenção direta. Essa aliança pode ser uma resposta à altura e ainda geraria benefícios no médio prazo para todas as nações envolvidas, demonstrando a capacidade gerencial dos países africanos e sua habilidade para resolver seus próprios problemas. O que está em jogo aqui não são os ideais do Boko Haram (que podem ser considerados legítimos), mas a maneira como o grupo levanta sua bandeira.

No entanto, esse concerto traz consigo o fantasma da relativização da soberania e a obrigação de divisão de informações estratégicas que poderia gerar incertezas no médio prazo. Mas então fica a dúvida: a Nigéria é capaz de desmontar o califado do Boko Haram sozinha? Até agora nenhuma ação parece demonstrar isso. E se não, que tipo de solução poderá ser empregada? No caso de uma intervenção externa, qual opção poderia gerar mais impactos à população e mais riscos à segurança, uma que partisse de seus vizinhos diretos, ou dos ocidentais, aqueles a quem o Boko Haram jurou exterminar?

A incapacidade nigeriana de lidar com o problema está criando uma tensão regional; esse é apenas um dos impactos gerados pelo terror nos países vizinhos. Camarões recuperou 24 reféns capturados no último ataque às suas fronteiras, e se frustram em saber que nada podem fazer depois do seu território. O Chade deseja liderar forças para reprimir as investidas do Boko Haram, e já avança nas negociações para a formação de uma aliança militar. Qual será o papel da Nigéria nesse cenário?

Alguns analistas serão categóricos para descartar a possibilidade de intervenções militares e quaisquer tipos de ingerências externas que possam colocar em cheque a soberania nigeriana. Esse poderia ser um golpe muito forte na face já machucada de uma população espremida entre a opressão colonial e o terror. Mas a própria população deseja que algo seja feito. É necessário ao menos levantar questionamentos para apurar se alguma opção pode ser descartada em casos como esse.

No entanto, é evidente que esta não seria solução mágica. Uma intervenção militar poderia trazer ganhos imediatos, mas, no longo prazo, não se pode negar que uma melhor gestão dos serviços públicos, divisão mais equânime de riquezas e reorganização interna são necessárias. Só assim essa ameaça poderia ser afastada com segurança. A ascensão do extremismo não está enraizada somente na religião, mas também na insatisfação social com o status quo desigual, brutal, injusto. Existe racionalidade no desespero. Precisamos falar de Nigéria.

[1] Seu nome verdadeiro é Jama’atu Ahlis Sunna Lidda’awati wal-Jihad, algo como “Povo Comprometido com a Propagação dos Ensinamentos do Profeta e a Jihad”, em tradução livre.

Referências

Al Jazeera: Cameroon army frees Boko Haram hostages: disponível em: <http://www.al jazeera.com/news/africa/2015/01/dozens-abducted-boko-haramcameroon201511955045 579476.html>

Al Jazeera: Boko Haram: Regional responsibility? Disponível em: <http://www.aljazee ra.com/programmes/insidestory/2015/01/boko-haram-regional-responsibility-201511819213122547.html>

The Guardian: Nigeria’s neighbours unite to fight Boko Haram. Disponível em: <http:// www.ngrguardiannews.com/news/national-news/194284-nigeria-s-neighbours-unite-to-fight-boko-haram>

The Guardian: Boko Haram: Muslims not Behind Attack, Says NOSCEF Sect a Threat to Democracy. Disponível em: <http://www.ngrguardiannews.com/news/national-news/193491-boko-haram-muslims-not-behind-attack-says-noscef-sect-a-threat-to-democracy>

BBC: Boko Haram sequestra dezenas de pessoas em Camarões. Diposnível em: < http:// www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/01/150118_boko_haram_sequestro_camaroes_rb>

United Nations: Ataques de Boko Haram son moralmente repugnantes. Disponível em: <http://www.un.org/victimsofterrorism/es/node/867>

European Union: EU Declaration on the Boko Haram Insurgency. Disponível em: <http://eu-un.europa.eu/articles/en/article_15967_en.htm>

MAIA, Natalia Nahas Carneiro. O Boko Haram na Nigperia: Entre a Sharia e Ineficiência Estatal. Disponível em: <http://mundorama.net/2013/04/20/o-boko-haram-na-nigeria-entre-a-sharia-e-ineficiencia-estatal-por-natalia-nahas-carneiro-maia/>


Adalto_Internationalista*Adalto Rafael, soteropolitano, 23 anos, é Bacharel em Relações Internacionais pelo Centro Universitário Jorge Amado e Especialista em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas. Em seus tempos de academia, demonstrou interesse pela atuação de países em desenvolvimento, sistema internacional e integração regional. Liderou, por um ano e meio, as atividades de consultoria e pesquisa do Núcleo de Pesquisa e Extensão em Relações Internacionais – NURI. Atualmente trabalha no ramo de consultoria empresarial.

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2 Respostas para “O Boko Haram e a Oportunidade de Cooperação na África

  1. A matéria é muito pertinente , precisamos falar de África para mudarmos a realidade do continente Berço, E para esto acontecer temos que tirar em teoria por em pratica.

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