O que significa ser uma potência emergente?

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Imagem: Google Images / mexicaliindustrialpark.com

Embora existam apenas definições relativamente simplistas, entende-se que potência emergente é aquele país cuja conquista de seu espaço no cenário internacional se dá, paulatinamente, por meio de vias econômicas e políticas.

A atuação de uma potência emergente no mundo atual é, geralmente, colaborativa, ou seja, de um país que acrescenta nova visão às decisões (por vezes anacrônicas) das potências estabelecidas. Exemplo disso é a vontade comum pelas reformas das instâncias multilaterais, como a ONU e as instituições de Bretton Woods (Banco Mundial e FMI), que refletem uma Ordem Internacional retrógrada pós-Segunda Guerra Mundial. Em contexto histórico-multilateral, pode-se exemplificar a atuação das atuais potências emergentes em concertações pretéritas, como o Movimento dos Países Não Alinhados (Índia e África do Sul) e o G-77 (Brasil, Índia, China e África do Sul), sob a égide da UNCTAD, em que esses países decidiram formar coalizões reivindicatórias, contra deliberações de países centrais, demonstrando a vontade de se fazer ouvir no cenário internacional. Com efeito, o multilateralismo, como forma de promoção estatal, foi atributo utilizado pelas potências intermediárias (como também pelos países mais fracos) para galgar seus espaços no cenário internacional.

Buscando uma definição teórica, pode-se apontar Robert Keohane[2], o qual afirma que potências intermediárias são “Estados cujos líderes reconhecem que não podem agir de maneira efetiva sozinhos, mas que podem ser capazes de ter impacto sistêmico em um pequeno grupo ou por meio de uma instituição internacional”.

Dessa forma, o que significa ser, no cenário internacional, uma potência emergente? Em outras palavras, com o auxílio de Keohane, significa dizer que países denominados emergentes ou intermediários – aqueles que, segundo Xiaoyu Pu, “não possuem legitimidade reconhecida para governar a hierarquia internacional”[3] – podem ter certa influência (em termos regionais, por exemplo), e dependem de instituições organizadas e com regras pré-determinadas (ONU, OMC etc.) para conseguirem ter voz mais ativa em relação aos mais fortes. Com efeito, a definição de potência intermediária ajuda a compreender que sozinhos esses países não são tão eficazes quanto gostariam, quiçá conseguem produzir efeitos eficazes apenas em uma conjuntura regional, e, por isso, necessitam de estruturas sólidas, oferecidas pelas instituições multilaterais organizadas.

Mesmo havendo uma categoria particular para Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, seja ela a de potências intermediárias, há, ainda, diferenças intrínsecas em cada um dos países, que afetam a percepção que os outros países do cenário internacional têm em relação a eles. Para demonstrar essas diferenças, Robert Keohane[4] categorizou quatro formas de se entender como os países são percebidos em relação ao sistema internacional: i. system-defining States: países fortes que definem as regras do sistema, ii. system-influencing States: países que conseguem mudar as regras já definidas do sistema internacional, iii. system-affecting States: países que, embora não consigam mudar as regras do sistema, podem ter suas vozes ouvidas e iv. system-ineffectual States: países submissos às regras estabelecidas. A partir dessa categorização, nota-se, claramente, que, se de um lado Brasil, Rússia, Índia e, em menor grau, África do Sul encontram-se no rol de países que não podem alterar as regras já estabelecidas, mas que afetam de alguma forma o mundo (system-affecting States), por outro, a China encontra-se no rol de países que influenciam e podem mudar as regras pré-definidas do sistema internacional (system-influencing States).

Outra maneira de as potências intermediárias contraporem-se aos mais fortes é por meio do soft balancing ou buffering, que são exemplificadas pelas concertações pouco institucionalizadas, como os BRICS, o IBAS, o BASIC e o G-20, nas quais esses países conseguem dialogar de maneira mais autônoma em relação aos países centrais. É por meio desses diálogos que se tenta chegar a consensos sobre determinados temas, com o intuito de fazer as posições dos emergentes ganharem força, prevalecendo, dessa maneira, suas vontades. Casos bem sucedidos de diálogos são os diversos acordos de cooperação estabelecidos entre os países, a fim de diminuir suas divergências e de, possivelmente, conquistar seus respectivos espaços no cenário internacional.

Assim, ser uma potência emergente é poder utilizar-se dos mecanismos arquitetados pelas grandes potências, como forma de autopromoção e de inserção no cenário internacional, uma vez que ser detentor de uma posição de destaque é característica basilar do interesse nacional desses países. Além disso, unir-se a outros emergentes, por meio de concertações políticas e econômicas, mesmo havendo assimetrias entre eles, é uma maneira de promover o soft balancing dos Estados.

[2] KEOHANE, Robert. International Organization, Vol. 23, No. 2. (1969), pp. 291-310.

[3] STUENKEL, Oliver et alii. Potências emergentes e desafiosglobais. Cadernos Adenauer XIII (2012), nº 2, Rio de Janeiro: Fundação Konrad, Adenauer, dezembro 2012. ISBN 978-85-7504-172-7.

[4] KEOHANE, Robert. International Organization, Vol. 23, No. 2. (1969), pp. 291-310.


Paty_1_1* Patricia Galves Derolle é graduada e pós-graduada em Relações Internacionais. Já estagiou na Missão do Brasil junto à União Europeia, em Bruxelas, na Missão do Brasil junto à ONU, em Genebra; trabalhou no Escritório de Representação do Itamaraty em São Paulo e na Organização Internacional para Transportes Terrestres (IRU) em Genebra. Atualmente, é Advisory Board Member e Senior Editor da revista digital Modern Diplomacy e  fundadora do site e-Internacionalista. Contato: e.internacionalista@gmail.com

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