Surgimento do nacionalismo árabe: contextos e perspectivas

Imagem: Google Images / Un mundo de Luz

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Por Guilherme Carvalho*

Não há exatamente um consenso sobre definições de nacionalismo. Dessa forma vemos que o nacionalismo é adaptável aos fatores culturais e históricos de cada povo, que por sua vez se identificam de diferentes formas com diferentes fatos, variando de nação para nação. Nas palavras de Michal Luczwenski (2005) “o nacionalismo é um verdadeiro caos teórico”. Vicenzi (2006) define que “a ideia de nação é um fruto do imaginário de seus cidadãos promovido pelas elites, e produto do desenvolvimento histórico da modernidade”.

O contato entre o Ocidente e o Mundo Islâmico foi reforçado pela experiência da conjuntura colonial, surgindo consigo inúmeros estranhamentos e reações de ambas as partes. O mundo muçulmano em diversos momentos expressou em relação ao Ocidente, ao mesmo tempo, um sentimento de admiração e aproximação, contudo também de repulsa e reação.

Nos países árabes, o nacionalismo (também apresentado como pan-arabismo) nasce como uma forma de resposta teórica e política à apresentação de um modelo estrangeiro. Se voltarmos às definições clássicas de Nação e Nacionalismo e tentarmos aplicá-las aos países que compõem a Liga dos Estados Árabes, vamos nos deparar com fatos que nos levam a constatar a imensa e pesada influência religiosa, e um predomínio sobre os povos que compõem a Nação, passando pelos séculos, e desafiando a geografia.

Enquanto o Império Otomano se manteve no controle político dos países árabes, os movimentos sociais de certa forma não estavam em uma situação de insatisfação completa. Porém com as expansões imperialistas rumo ao Oriente médio (principalmente pela França e pelo Reino Unido), os movimentos sociais começam a se fortificar em torno de assuntos em comum, e da identidade, além de abrirem espaço para a premissa “inimigo do meu inimigo, é meu amigo”

Desde o fim do Império Otomano, oficialmente extinto em 1924, o mundo árabe fragmentou-se em movimentos nacionais que lutavam contra o controle imperialista franco-britânico na região. A partir do final da década de 20, o sionismo foi considerado um movimento intruso em meio às aspirações nacionalistas árabes. Na medida em que o fascismo tornava-se uma poderosa força política na Europa, grande parte das lideranças nacionalistas árabes dos recém criados Síria, Transjordânia, Líbano, Iraque e Arábia Saudita, assim como as lideranças palestinas, viam nos nazistas e fascistas potenciais aliados contra o imperialismo anglo-francês, que controlava a região até o início da II Guerra Mundial. Dessa época até hoje, o anti-israelense nesses países prosperou em progressão geométrica, acirrado pela criação do Estado de Israel, pelas derrotas militares que os israelenses infringiram aos países árabes, depois de sua independência, em 1948 e pela ocupação dos territórios palestinos em 1967 (MILMAN, 2004, p.1).

 Com o desenvolvimento dos acontecimentos no Ocidente, o Oriente não pôde se manter de fora, uma vez que agora passaram a ter movimentos sociais que eram respostas á presença ocidental (antítese) e as suas posições de colonizadores, e suas interferências nos assuntos dentro dos países árabes. Assim como não existiam forças suficientes para combaterem seus adversários ocidentais, resolveram se unir á quem possuía posições antagônicas á deles:

 Os antecedentes do nacionalismo pan-arábico, no entanto, devem ser buscados na politica de stalinistas e nacionalistas árabes durante a II Guerra Mundial. Enquanto os comunistas árabes e judeus faziam campanha pelo alistamento no exército colonial britânico, assim como os sionistas, os nacionalistas árabes se alistavam na Legião Árabe. Os sionistas de esquerda juntaram-se ao Partido Comunista Palestino para organizar um Comitê Palestino de auxílio à URSS, já alinhada com os “aliados” incluindo a Inglaterra, opressora histórica dos povos árabes do Oriente Médio. Todas as forças políticas da Palestina se uniram em apoio ao Império britânico, exceto os seguidores do Mufti pró-nazista. As massas árabes, fosse na Palestina, Egito ou Iraque, não apoiavam a potência britânica nem mesmo contra os regimes nazi-fascistas do Eixo (COGGIOLA, 2007, p. 18).

O islã hoje é uma das religiões que mais agregam seguidores em todo o mundo. Porém apenas 20% da população muçulmana está concentrada em países árabes. A questão da associação do muçulmano ao “fundamentalismo religioso” se encontra bem equivocada, dentro da perspectiva histórica:

O termo “fundamentalismo”, originado no cristianismo protestante, presta-se à confusão. A origem do fundamentalismo se encontra no protestantismo americano, em meados do século XIX, e formalizado numa coleção de livros, Fundamentals: a Testimony of the Truth (1909-1915). Era uma tendência de fiéis, pregadores e teólogos, que tomavam as palavras da Bíblia ao pé da letra. Se Deus consignou sua revelação no Livro Sagrado, então cada palavra e cada sentença deveriam ser verdadeiras e imutáveis. Opunham-se às interpretações da chamada teologia “liberal”. Esta usava os métodos histórico críticos e hermenêuticos para interpretar os textos escritos há milênios (COGGIOLA, 2007, p.16).

 Ao muçulmano são imputados séries de imagens, que na verdade não lhe pertenciam originalmente, mas graças ao “colonialismo teórico” passaram a haver uma série de reflexos negativos sobre o indivíduo árabe e toda a sua cultura. Apesar das diferenças mínimas no significado do termo “fundamentalismo”, no Ocidente e no Islã, o pensamento ocidental permanece prisioneiro de sua experiência histórica e de seu longo conflito com o fundamentalismo cristão. É esta visão “paroquial” que o Ocidente estaria tentando, agora, aplicar ao Islã. Isto não teria base na realidade, porque o “fundamentalismo”, de acordo com o Islã, seria o exato oposto ao existente no Ocidente.

Hoje os movimentos muçulmanos organizados politicamente, em sua grande diversidade, respondem a fatores que são bem distintos daqueles de quando foram formados. Há vinte e cinco anos, por exemplo, um ponto importante era o debate se a democracia seria compatível com o Islã. “Mas, hoje, para a grande maioria dos grupos muçulmanos, este debate já está superado, exceto para uma minoria que acredita que os princípios democráticos contradizem os do Islã” (FULLER, 2010, p.54).

Muitos intelectuais do ocidente são conscientes, mas escolheram ignorar o fato por muitas razões, inclusive por causa da profunda hostilidade ao Islã e da sua imagem distorcida, promovida por orientalistas de várias gerações e, mais recentemente, em razão das alegações de que, com a queda do comunismo, o Islã emergiu como “o novo inimigo”. Os escritos de Samuel Huntington são típicos desta tendência. Consequentemente, “o Ocidente tem muito da responsabilidade por fortalecer o entendimento do “fundamentalismo islâmico”, como nos mesmos moldes do fundamentalismo cristão do século XVIII” (COGGIOLA, 2007, p.17).


REFERÊNCIAS

COGGIOLA, Osvaldo. O islã histórico, e o islamismo político. São Paulo: Instituto de cultura árabe, 2007.

FULLER, Grahan E. “The Spectrum of Islamic Politics”, In: BARZEGR, Abbas; RICHARD, C. Martin. (org.): Islamism: Contest Perspectives on Political Islam.Stanford: Stanford University Press, 2010, p.51-56.

MILMAN, Luis. Origem dos movimentos islâmicos revolucionários. Revista Espaço Acadêmico N° 35, 2004.

VICENZI, Roberta Aragoni Nogueira. Nacionalismo árabe: apogeu e declínio. Universidade de São Paulo, São Paulo – SP, 2006.


servletrecuperafoto * Guilherme Carvalho é graduando em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás e bolsista do programa BIC-PUC. Contato: guilherme.rel1404@gmail.com

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