A Cinderela e a questão dos territórios

Google Images: Binary Moon

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Quem aprecia a sétima arte deve ter visto que em cartaz está uma nova versão do clássico “Cinderela” pelos cinemas de todo o país. Sem estragar quaisquer surpresas do filme, se você já viu ou pretende vê-lo, além da conhecida história dramatizada e das várias que crianças que, certamente, acompanharão essa sua jornada ao assistir ao filme, não é hora para se desligar das Relações Internacionais.

Sim, até mesmo entre os altos e baixos que envolvem um par de sapatinhos de cristal pode ser vislumbrado as Relações Internacionais (ou mesmo movimentos Diplomáticos) no curso da trama. Aviso de ante mão que, uma outra referência ao filme de 2015, poderá dar a entender a existência de um spoiler, mas nada que estrague a sua pipoca.

Pela história se passar em um mundo de reinados, onde há clara relações mais fortes à terra, em um território unido sob a batuta de um soberano e a linhagem real é que dá a primazia dos sucessores ao trono, percebe-se que a história se passa em meio a formação dos Estados Modernos e há um sistema de governo absolutista em vigência.

De fato, antes da existência do que hoje conhecemos como Estado, pelo menos na Europa Medieval, todo o vasto território era divido por um sem fim de feudos, onde em cada um deles havia um Senhor de terras detinha todo o controle da terra da qual era dono. É de bom alvitre lembrar que, se um idioma poderia ser um facilitador entre feudos de origem cultural comum, outros fatores atrapalhavam a estabilidade social: havia uma constância no que tange batalhas pela expansão de territórios; os feudos possuíam sistemas de trocas diferentes uns dos outros; a exploração do campesinato e/ou as relações de suserania e vassalagem serviam de combustível para revoltar internas em relação ao Senhor das Terras; entre outras situações. Todo este caldeirão tornava qualquer relação instável, apesar do sistema feudal ter perdurado por séculos.

Aos territórios que haviam semelhanças culturais, alguns conseguiram maior destaque sobre outros senhores de terras, o que acabou direcionando para a união de fronteiras, nomeando um senhor comum a todos (que acabou conhecido como o Monarca) proporcionando, entre outros: fronteiras “nacionais” definidas; unificação de leis; a criação de forças armadas; a elaboração de uma moeda comum para facilitar as trocas comerciais; o estabelecimento de um nobreza para apoiar ao Rei; bem como tentativas de apaziguamento com a burguesia (aqueles que ganhavam ascensão social pelos bens que conseguiam acumular e não por possuir títulos de nobreza); além do apoio da Igreja para validar todo o laico terreno pelas vistas Divinas.

E o que a Cinderela tem haver com isso? O príncipe se apaixona por uma camponesa, porém um dos membros da corte negocia o casamento do herdeiro real por uma princesa de Zaragoza. Os motivos, para o “pequeno reino” são claros: o arranjo matrimonial dará, ao futuro, anexar outro reino para expandir suas fronteiras. Assim, deixaria de se tornar uma anã entre as nações vizinhas e fazer frente em caso de guerras. Porém, Cinderela é Cinderela.

Na gênese dos Estados Nacionais, muito se percorreu para que as fronteiras tomassem a dimensão que hoje possuem. Casamentos eram arranjados, suborno de cargos para adentrar a realeza era feitos para atender aos interesses do Rei (mas principalmente também daqueles que queriam gozar de privilégios diretamente), entre outros tantos artifícios. É claro que reinos caíram (bem como sistemas monárquicos) após a Revolução Francesa (dado a ruptura social que dali surgiu no coração da Europa). Porém, o berço das negociações do Mundo Diplomático muito tem relação desde a formação dos Estados Modernos.

Dado o acima exposto, ao assistir Cinderela, não deixe de notar todos os meandros que levaram as teorias de Relações Internacionais. Um consolo para um momento de lazer? Saiba que o sapatinho de cristal dos que nutrem sentimentos pela seara internacional é enxerga-la em tudo, e perceber que o mundo não se faz apenas por entre ilhas.


Foto - Lucas Macedo* Advogado. Bacharel em Direito pela Universidade de Fortaleza – UNIFOR (2014). Especializando Lato Sensu em Direito Processual Civil (UNIFOR). Especializando Lato Sensu em Direito e Relações Internacionais (UNIFOR). Especializando Lato Sensu em Relações Internacionais (DAMÁSIO). Especializando Lato Sensu em Estudos Diplomáticos (CEDIN). Membro da Comissão de Direito Internacional da OAB-CE e Membro da Comissão de Direito Marítimo, Portuário, Aeroportuário e Aduaneiro da OAB-CE.

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