#Kwibuka21: 21 anos do Genocídio em Ruanda

Kwibuka

Por Camila Andrade*

Hoje, 7 de abril, faz 21 anos do acontecimento que marcou o período pós Guerra Fria e corroborou para um dos debates mais intensos e controversos acerca das missões de paz e intervenção humanitária. Kwibuka, em kinyarwanda, significa lembrança: o propósito da comemoração do genocídio tem como objetivo deixar acesa a vela da união, lembrança e renovação para que nunca mais aconteça o genocídio – não apenas em Ruanda, mas em outras partes do mundo.

Em 1994, o Estado com pequena extensão territorial situado na região dos Grandes Lagos, na África, esteve sob os holofotes internacionais: o confronto entre hutus e tutsis – grupos étnicos componentes da sociedade ruandesa, construídos ao longo do processo colonial belga – culminou na morte de aproximadamente 800.000 ruandeses (NAÇÕES UNIDAS, 1999). Em suma, um dos países mais pobres do mundo carrega em sua história palavras como colonização, racismo, dominação e genocídio.

O evento, o qual marcou uma profunda crise humanitária, não ocorreu como um fato inesperado: existiam indícios relevantes de que as movimentações poderiam levar a um conflito maior (DES FORGES, 1999). Apesar dos sinais existirem desde 1993, o Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU) reconheceu tardiamente que se tratava de um assassinato em massa, com o conflito obtendo o status de genocídio meses após a perpetuação das atrocidades.

As transformações na conjuntura internacional, com a saída de um cenário bipolar para unipolar no final da Guerra Fria (WOHLFORTH, 1999), contribuíram não só para o posicionamento e as decisões tomadas no CSNU, mas também para as consequências das ações do Conselho em conflitos intraestatais (o caso de Ruanda, como exemplo).  Rezende (2013, p. 12) apresenta algumas das implicações da mudança conjuntural no desenvolvimento das funções da Organização das Nações Unidas (ONU), em especial duas: a “inquestionabilidade das políticas estadunidenses” e a ONU “como mantenedora da posição favorável dos Estados Unidos”.

Essas implicações são evidenciadas com o reconhecimento de que graves atividades que atingiam o Direito Internacional Humanitário estavam sendo empreendidas e “possíveis atos de genocídio” em julho de 1994 (NAÇÕES UNIDAS, 1994, p. 2), quando centenas de pessoas já estavam mortas. Em um momento de decisão, o CSNU não se posiciona de forma rápida, influenciado pelos interesses norte-americanos de não engajar forças na África – uma área pertencente da estratégia de desengajamento dos Estados Unidos entre 1990 e 2001, principalmente a partir da retirada das tropas na Somália em 1994 (MONTEIRO, 2011). Com isso, a política de desengajamento tem uma relação essencial com a crise de legitimidade da ONU diante o genocídio de Ruanda, perpetuando a dependência da ONU em relação às tomadas de decisão dos Estados Unidos na ascensão da unipolaridade.

A ONU utilizava as missões de paz para resolver conflitos entre Estados, mas com o pós Guerra Fria as mesmas eram comumente usadas para resolver conflitos intraestatais (ou seja, dentro de Estados) (REZENDE, 2012), com a atuação da Missão de Assistência das Nações Unidas para Ruanda (UNAMIR) encaixando-se nesse escopo. Diante da repercussão internacional do genocídio, acrescido pela baixa margem de manobra de atuação da UNAMIR, parâmetros de intervenção humanitária foram revisados, com a reflexão por parte da ONU sobre o que deu errado na contenção das atrocidades perpetuadas em Ruanda por meio do Inquérito Independente (Independent Inquiry).

Em consonância, houve uma mobilização de recursos de cunho emergencial humanitário, de reabilitação e de desenvolvimento, fazendo com que algumas das ações iniciais fossem patrocinadas/organizadas pela ONU. Por meio das pressões internacionais é vista a necessidade de legitimar os recursos disponibilizados para o desenvolvimento de projetos no que tange a reabilitação e reconstrução de Ruanda, ilustrada como um modelo próspero de desenvolvimento. Segundo as Nações Unidas (1995, s/p, tradução nossa), um “[…] progresso significante tem sido feito por parte do Governo de Ruanda e seus parceiros internacionais para restaurar uma aparência de normalidade no país.”.

Com uma campanha midiática favorável, sendo “um modelo para o renascimento africano” (ZAKARIA, 2009, s/p, tradução nossa) e “um caso de alto perfil de reconstrução pós-conflito e pós-atrocidade a qual a experiência reverbera para além da África Central” (STRAUS; WALDORF, 2011, p. 5, tradução nossa), Ruanda sai da condição de país fora dos holofotes do cenário internacional para o país queridinho das organizações internacionais e da mídia, representando o “símbolo de esperança para o continente africano” (STRAUS; WALDORF, 2011, p. 6, tradução nossa).

Segundo o relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) (2009), o processo de capacity building do Estado ruandês é uma representação de renascimento social, além da urgência da comunidade de doadores do processo ter sucesso. Além disso, é relevante a análise das realizações das atividades durante os quinze anos de processo de reconstrução, sendo Ruanda uma lição de aprendizado para o mundo (ORGANIZAÇÃO PARA A COOPERAÇÃO E DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO, 2009). Aliado à propaganda positiva do progresso econômico do país, é vista a preferência de exaltar o sucesso econômico do que falar sobre as questões políticas existentes em Ruanda (COOKE, 2011).

Ocupando a sétima posição como o país mais lucrativo para se investir (ALTMAN, 2014), Ruanda tem alcançado grandes progressos, saindo de um cenário de devastação estrutural para a reconstrução e reabilitação, por meio de normas sociais (BANCO MUNDIAL, 2009). Apesar dos números consideráveis e de propagandas em relação à reabilitação, reconstrução e desenvolvimento, para Straus e Waldorf (2011) Ruanda é um caso crítico de análise por sua condição de passagem de um período de conflito (genocídio), o grande fluxo de ajuda internacional para a sua reconstrução desde 1994 e a sua representação como um modelo pós-conflito.

Diante do contexto de degradação, o Governo de Ruanda iniciou estratégias para a reconstrução pós-genocídio essencialmente por meio da tentativa de mudança na engenharia social ruandesa, com o objetivo de mudar a maquinaria colonial perpetuadora das atividades genocidas (STRAUS; WALDORF, 2011). Partindo disso, a nova engenharia social do Governo de Ruanda é composta por quatro áreas: 1) cultural, 2) espacial, 3) economia, e 4) política, com as iniciativas interligando-se e transbordando para outras áreas.

Especialmente no plano cultural, o Governo de Ruanda buscou modificar a forma como os ruandeses se veem, saindo da ideia de categorias étnicas para a percepção de uma nacionalidade ruandesa, com base na ideologia de “unidade nacional e reconciliação” (STRAUS, WALDORF, 2011, p. 8). Para auxiliar nesse processo foi organizado um programa de reeducação nacional para se reflexionar sobre o passado nos níveis locais de Ruanda. O Kwibuka é um mecanismo de reflexão e de afirmação de que todos os mortos e os que vivem hoje em dia são ruandeses, sem distinção de etnias.

Para mais informações:

Para acompanhar os eventos do Kwibuka em Ruanda e em outras partes do mundo, o Governo de Ruanda criou um site (http://www.kwibuka.rw/) exclusivo para as comemorações, com fotos, vídeos e eventos. Ademais, há um arquivo de fotos históricas sobre o genocídio, o Genocide Archive Rwanda (http://www.genocidearchiverwanda.org.rw/index.php/Welcome_to_Genocide_Archive_Rwanda). O projeto brasileiro My Ruanda Brasil (www.facebook.com/myruanda) está fazendo uma semana especial sobre o genocídio, com fotos e informações sobre o mesmo.

Referências:

ALTMAN, Daniel. Where to Invest Around the World, 2014 Edition. Foreign Policy. Washington, 24 mai. 2014. Disponível em: <http://foreignpolicy.com/2014/ 05/29/where-to-invest-around-the-world-2014-edition/>. Acesso em: 5 abr. 2015.

BANCO MUNDIAL. Rwanda: From Post-Conflict Reconstruction to Development. [S.I.]: IDA at Work, 2009. Disponível em: <http://siteresources.worldbank.org/ IDA/Resources/ida-Rwanda-10-02-09.pdf>. Acesso em: 5 abr. 2015.

COOKE, Jennifer G. Rwanda: Assessing Risks to Stability. [S.I.]: Center for Strategic and International Studies (CSIS), 2011. Disponível em: <http://csis.org/files/publication/110623_ Cooke_Rwanda_Web.pdf>. Acesso em: 5 abr. 2015.

DES FORGES, Alison. Leave None to Tell the Story: Genocide in Rwanda. [S.I]: Human Rights Watch, 1999.

MONTEIRO, Nuno P. Unrest assured. Why unipolarity is not peaceful. International Security, Vol. 36, No. 3, (Winter 2011/12), pp: 9-40.

NAÇÕES UNIDAS. Letter Dated 15 December 1999 from the Secretary-General Adressed to the President of the Security Council (S/1999/1257). 1999. Disponível em: <http://www.securitycouncilreport.org/atf/cf/%7B65BFCF9B-6D27-4E9C-8CD3-CF6E4FF96FF9%7D/POC%20S19991257.pdf&gt;. Acesso em: 5 abr. 2015.

_________. Emergency international assistance for a solution to the problem of refugees, the restoration of total peace, reconstruction and socio-economic development in war-stricken Rwanda. Report of the Secretary-General (A/50/654), 1995. Disponível em: <http://www.un.org/documents/ga/docs/50/plenary/a50-654.htm&gt;. Acesso em: 5 abr. 2015.

_________. Resolution 935 (1994) adopted by the Security Council. Genebra, 1994. Disponível em: <http://daccess-dds-ny.un.org/doc/ UNDOC/GEN/N94/273/51/PDF/ N9427351.pdf?OpenElement>. Acesso em: 5 abr. 2015.

ORGAZANIZAÇÃO PARA COOPERAÇÃO E DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO (OCDE). Statebuilding in fragile situations – How can donors ‘do no harm’ and maximise their positive impact? Country case study – Rwanda. 2009. Disponível em: <http://www.oecd.org/ countries/rwanda/ 45582738.pdf>. Acesso em: 5 abr. 2015.

REZENDE, Lucas. O Engajamento do Brasil nas Operações de Paz da ONU. Análise dos efetivos enviados e recomendações para o fortalecimento da inserção internacional brasileira. Curitiba: Ed. Appris, 2012.

_________. Mal Acostumado, Você me Deixou Mal Acostumado! O Paradoxo do Ara Ketu e a Atuação da ONU na Síria. O Debatedouro, ed. 82, março 2013, pp: 11-15.

STRAUS, Scott; WALDORF, Lars. Introduction: Seeing Like a Post- Conflict State. In: STRAUS, Scott; WALDORF, Lars (eds.). Remaking Rwanda: state building and human rights after mass violence. Madison: University of Wisconsin Press, 2011, pp. 3-21.

WOHLFORTH, William C. The Stability of a Unipolar World. International Security, Vol. 24, No.1 (Summer 1999), pp. 5-41.

ZAKARIA, Fareed. A Way Forward for Africa. Newsweek. Nova York, 17 jul. 2009. Disponível em: <http://www.newsweek.com/zakaria-way-forward-africa-81993&gt;. Acesso em: 5 abr. 2015.


Camila-Andrade1-506x483
* Mestranda em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC e Pós-graduanda em Gerenciamento de Projetos pelo SENAC – SC. Graduada em Relações Internacionais pelo Centro Universitário Jorge Amado – UNIJORGE Bahia. Pesquisa na área de Paradiplomacia (Brasileira e Africana), temáticas relacionadas à Ruanda, Cooperação Internacional e Desenvolvimento Local. Atualmente escreve e é idealizadora do projeto My Ruanda.

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