Tigres Asiáticos e os BRICS: O que devemos (e não devemos) aprender

Imagem: Google Images / Exame-Abril

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Por Adalto Rafael Nascimento Silva*

No pós Segunda Guerra Mundial, um grupo países asiáticos conquistaram desenvolvimento impressionante. Chamados de Tigres Asiáticos, foram capazes de alcançar esse desenvolvimento a partir de caminhos diferentes, caminhos estes que os aproximam de outro grupo de economias em ascensão: o BRICS.

Talvez esse “desenvolvimento diferente” possa ser explicado a partir de uma análise da racionalidade do mercado. Os defensores do desenvolvimento guiado pelo Estado (diferente do intervencionismo) pregavam que, justamente em função da sua racionalidade, o mercado estabelecerá foco nas atividades mais vantajosas no momento da tomada de decisão, muitas vezes prejudicando ganhos de longo prazo. Atores racionais raramente irão investir em atividades subótimas, motivo pelo qual o Estado precisa guiar as ações do mercado nessa direção(1).

E esse Estado forte, legitimado por lideranças capazes de gerar bem estar social, juntamente ao desenvolvimento econômico, são pontos convergentes nos históricos de Coreia do Sul, Taiwan, Cingapura e Hong Kong. De maneira geral, todos os Estados mencionados passaram por estágios bem delimitados de desenvolvimento, de dependência, à indústria leve e reivenstimento na indústria pesada e educação, nos casos de Coreia do Sul e Taiwan; do foco em exportações à atração de empresas internacionais para suprir a demanda por mão de obra especializada e se estabelecer como centro comercial e financeiro do Sudeste Asiático(2), no caso de Cingapura; de colônia britânica para centro industrial, no caso de Hong Kong, onde o mercado foi de importância capital(3). É possível notar que a “visão” dos Tigres foi mais poderosa do que o desejo preguiçoso de persistir no óbvio, transformando-os profundamente.

Os Tigres Asiáticos são economias poderosas, de certa forma relevantes no tabuleiro regional, que demonstram bons índices de desenvolvimento humano. Certamente esses pontos positivos seriam suficientes para colocá-los num altar. Mas no cenário internacional, para onde essa pujança econômica os levou?

Não é possível perceber claramente nenhum movimento de alinhamento destes países, muito menos posições de liderança em questões de importância global. Hong Kong e Taiwan são esmagados pelo gigantismo chinês, a Coreia do Sul mantém atenção constante no norte e espera pelas palavras de conforto de Japão e Estados Unidos para se posicionar, enquanto Cingapura se mantém afastada do jogo, numa espécie de “isolacionismo internacionalista”. Nesse sentido, é lugar comum admitir, do ponto de vista político, que os elementos de poder conquistados pelos Tigres Asiáticos não foram traduzidos em poder real. Apesar de sua magnificência, esses são tigres de zoológico, admirados pelas suas cores, não pelo poder de suas mandíbulas.

E é nesse fator específico que o BRICS se diferencia dos últimos, e talvez por isso tenha sustentado seu status de estrela por mais tempo. O modelo de desenvolvimento guiado pelo Estado pode não ser tão evidente quanto foi no Milagre Asiático (exclusive a China), mas não se pode chamar nenhum desses gigantes de laissez-faire. Tentando girar o tabuleiro para melhorar seu posicionamento internacional, estes países não apenas buscaram maneiras de desenvolvimento que fugiam das regras do momento, inclusive apoiando-se mutuamente para diminuir a dependência do chamado centro, como institucionalizaram suas relações através de reuniões periódicas, onde discutem de tudo um pouco. Esse comportamento foi decisivo para que países como Brasil, Índia e África do Sul pudessem ter mais voz e relevância, pois agora estavam apoiados e, na maioria dos casos, alinhados com dois dos membros permanentes do Conselho de Segurança. Finalmente, os BRICS desafiam ainda mais a ordem internacional quando decidem criar um banco de desenvolvimento com foco nos países do antigo terceiro mundo, uma mensagem clara de que os tempos de Bretton Woods estão cada vez mais próximos do fim.

Conclusão

Podemos inferir de uma análise dos Tigres Asiáticos que os mesmos são casos únicos na história. Seu desenvolvimento foi incomum tanto pela sua velocidade quanto pelo modelo adotado, muito diferente daquilo que era pregado à época. Da mesma maneira, podemos avaliar o aparecimento dos BRICS, países semi-periféricos que viram sua relevância internacional aumentar a partir de um crescimento econômico magnífico e crescente formalização da cooperação intra-bloco. Nesse sentido, os Tigres Asiáticos são um exemplo de que não é necessário voltar ao neoliberalismo para que o crescimento econômico seja mantido: através de um plano de desenvolvimento claro, os BRICS podem continuar crescendo e desafiando o ordenamento das peças do tabuleiro internacional. Por outro lado, somente uma análise mais profunda dos Tigres Asiáticos poderia responder porque os mesmos não empregaram seus recursos de poder com o objetivo de aumentar sua relevância, ou até mesmo se unir num bloco extra-oficial, como fizeram Brasil, Rússia, Índia e China, num primeiro momento. O BRICS e os Tigres Asiáticos se aproximam quando analisamos sua trajetórias de desenvolvimento incomum e se afastam quanto à utilização do poder acumulado em decisões internacionais. Com os Tigres devemos aprender como crescer de maneira duradoura. Aos Tigres podemos ensinar que a força pode vir da união.

(1) Um exemplo dessa tese, pode ser extraído do comportamento dos investimentos em países com abundância de matéria-prima. A decisão óbvia para os empreendedores locais, seria o foco em agronegócio, extração de recursos naturais e indústria leve. Isso prejudicaria o desenvolvimento a longo prazo, simplesmente porque os gastos com importação de bens com alto valor agregado raramente são inferiores aos ganhos com a venda de matéria-prima. Para que essa lógica fosse quebrada, seria necessário grande investimento em educação e atividades que envolvam produções mais complexas o que, no momento, não seria a atividade mais lucrativa. É evidente que essa não é uma regra sem exceções.

(2) É tentador pensar em Cingapura como um exemplo do chamado “market-led development”. No entanto, o papel central de órgãos governamentais no direcionamento de investimentos para setores críticos da economia foi o verdadeiro motivo de seu sucesso singular.

(3) mas não sem se aproveitar dos pesados investimentos públicos em setores cruciais ao desenvolvimento da indústria que ainda precisaria de mais de uma década para receber uma demanda significativa.

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Adalto_Internationalista*Adalto Rafael, soteropolitano, 23 anos, é Bacharel em Relações Internacionais pelo Centro Universitário Jorge Amado e Especialista em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas. Em seus tempos de academia, demonstrou interesse pela atuação de países em desenvolvimento, sistema internacional e integração regional. Liderou, por um ano e meio, as atividades de consultoria e pesquisa do Núcleo de Pesquisa e Extensão em Relações Internacionais – NURI. Atualmente trabalha no ramo de consultoria empresarial.

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