Book Review: Memórias, George F. Kennan

kennan capas

Por Daniel Longhi*

As relações internacionais são o palco principal onde conflitam e cooperam as atuações estatais, guiadas por interesses que ultrapassam o tempo de vida das pessoas que as compõem, tornando-as, tantas vezes, invisíveis e quase dispensáveis. Não raro, contudo, há indivíduos cuja obra condiciona diretamente os rumos do Estado a que servem. No Brasil, é impossível dissociar os nomes de José Maria da Silva Paranhos, ou de Azeredo da Silveira, da atuação internacional brasileira de seus respectivos tempos. Os EUA do pós-Segunda Guerra, por sua vez, devem a George F. Kennan os moldes da diplomacia norte-americana durante os períodos mais críticos da Guerra Fria, principal idealizador da política de contenção que levaria, pode-se argumentar, à implosão soviética, quarenta anos mais tarde. Suas “Memórias” (Editora Topbooks, 2014, tradução de Vera Giambastiani e Antonio Sepulveda) são o mais preciso testemunho da gênese de suas ideias e de sua trajetória.

Costuma-se mencionar Kennan como expoente do realismo nas relações internacionais, linha teórica que privilegia em suas análises a atuação eminentemente estatal e a busca pelo equilíbrio de poder, em oposição às teses liberais de cooperação entre Estados e de ênfase às Organizações Internacionais. De fato, discordou do “caráter universal dos compromissos que implicava” a formulação da Doutrina Truman, em seu “dever de apoiar os povos livres que estejam resistindo à sujeição por minorias armadas ou pressões externas”, remontando à primazia americana primeiro idealizada por Woodrow Wilson. Para ele, o auxílio norte-americano deveria se dar após profunda e objetiva análise de cada caso, sopesada a variedade de fatores envolvidos e chances objetivas de eficácia; seria justificado no caso da Grécia, por exemplo, mas nunca em favor da China ou Iugoslávia. Da mesma forma, ainda que posteriormente viesse a rever sua posição original, suas ressalvas, à época da criação das Nações Unidas, representam precisa descrição do pensamento realista, pelo que interessa transcrevê-las na íntegra:

“Se pelo menos o status quo puder ser rigidamente preservado, não haverá mais guerras na Europa, e o problema europeu, pelo que toca ao nosso país, estaria resolvido. Esse raciocínio, que confunde sintomas com enfermidade, não é novo. Serviu de base para a Santa Aliança, para a Liga das Nações, e numerosas outras estruturas políticas criadas por nações que estavam, no momento, satisfeitas com a configuração internacional e não a desejavam diferente. Essas estruturas sempre serviram ao fim para o qual foram desenhadas – desde que os interesses das Grandes Potências lhes dessem substância e realidade. Quando essa situação mudava, no momento em que se tornava do interesse de uma ou outra das Grandes Potências alterar o status quo, nenhum tipo de estrutura erguida por tratado jamais foi obstáculo para essas alterações. A vida política internacional é algo orgânico, e não mecânico. Sua essência é a mudança; e os únicos sistemas para uma regulamentação da vida internacional que pode ser eficazes por longos períodos são os suficientemente sutis e flexíveis de modo a se ajustarem às constantes mudanças de interesse e poder dos diversos países interessados”.

Não surpreende, portanto, que algum dos mais contundentes elogios que a ele se dirigem venham das palavras de Henry Kissinger, para quem Kennan foi “um dos mais importantes, complexos, comoventes, desafiadores e exasperantes servidores americanos”. Lamenta, contudo, notar que, para a atual geração de internacionalistas americanos, Kennan tenha sido relegado a um vago passado, injustiça que passa a ser desfeita pela publicação da presente obra.

Tanto quanto os desdobramentos em High Politics de sua vida, a leitura de seu memoir é indispensável pela redescoberta do homem. Em prosa clara e elegante, bem retratada pela tradução brasileira, fica evidente a voracidade intelectual com a qual se debruçava Kennan por sobre qualquer matéria com que se envolvesse. Em sua longa estada na Rússia, nas décadas de 1930 e 40, aprendeu à perfeição o idioma, com intenso contato com a literatura e a historiografia do país, por meio do que adquiriu inédita intimidade, entre os estadistas americanos, com a natureza singular da política e do povo russos, registrada com poesia e afeto. Destacam-se, entre suas anotações, as impressões de um homem russo sobre o caráter nacional: “Quanto mais êxito tivermos, menos nos importará a opinião estrangeira. Isso é algo que vocês devem ter em mente sobre os russos. (…) Somente em condições desfavoráveis somos humildes, brandos e conciliatórios. Quando bem sucedidos, saiam da frente”.

A singular experiência russa foi responsável direta por aquelas que, provavelmente, foram suas principais contribuições para a política externa norte-americana: o “Longo Telegrama” e o “Artigo X”. O primeiro documento foi escrito em 1946, enquanto servia em Moscou. Em suas dezenove páginas de linhas apertadas, desconstruiu a noção então vigente de que o governo russo se encaminhava para um aggiornamento de suas relações para com o Ocidente, em direção a um posicionamento de colaboração. Pelo contrário, afirmou Kennan, Stalin implementava versão robusta da política externa centenária de desconfiança russa do mundo exterior, com a novidade de pretensões mundiais – ideológicas, econômicas e políticas – de origem bolchevique. O “Artigo X”, escrito anonimamente para a Foreign Affairs em 1947, desenvolveu o conteúdo do Longo Telegrama, dando-lhe contornos fatalistas e prescrevendo a postura norte-americana para os próximos anos, antecipando os moldes do que viria a ser a política de contenção contra a União Soviética. Ao contrário do que afirmam equivocadas interpretações, longe de defender a necessidade das ações militares que eventualmente ocorreram, Kennan previa que a URSS, se contida politicamente em determinada faixa continental, terminaria por sucumbir pelo peso de suas próprias instituições e modelo político.

George F. Kennan viveu para ver parcela significativa de suas previsões tornarem-se verdade; morreu em 2005, aos 101 anos. Com o fim da Guerra Fria, decretou o fim da própria relevância. Escreveu em seu diário: “Reconcilie-se com o inevitável; não mais lhe será permitido, na curta vida que lhe resta, fazer nada significativo”. As atuais circunstâncias, infelizmente, provam-no errado. Com tantos equívocos sendo cometidos, em nome da confusa e renovada divisão entre Rússia e o Ocidente, com tantas e lamentáveis consequências, Kennan faz-se, talvez tanto quanto antes, relevante e necessário.

REFERÊNCIA

KENNAN, G.F. Memórias. Rio de Janeiro: Topbooks, 2014.


foto - Daniel Longhi* Advogado, graduado Bacharel em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. Por meio de convênio com a UFPE, fez parte de sua graduação na Eberhard Karls Universität Tübingen, Alemanha. Durante a graduação, atuou como estagiário no Ministério Público Federal e no escritório da Fonte, Advogados, na área de Direito da Propriedade Intelectual

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s