O ensino das Relações Internacionais no Brasil

140H

Por Gustavo Rigonato*

Apesar da institucionalização da graduação em Relações Internacionais ser um processo recente na história do Brasil, a produção acadêmica tem um caráter mais tradicional, uma vez que desde o início do século XX vêm se produzindo material relacionado às RIs por outros pesquisadores de áreas mais clássicas, como economistas, juristas, cientistas sociais e historiadores. Vale destacar ainda que, inicialmente, a produção era ligada à militares e tinha cunho geopolítico, com foco principalmente sobre a projeção do Brasil como potência na região da Bacia do Prata (Miyamoto, 1999).

Entre as décadas de 1950 e 1960, três marcos podem ser destacados como fundamentais para o avanço do estudo de Relações Internacionais no país, são eles (Vigevani et al, 2014, p. 7):

  1. Os trabalhos do Instituto Superior de Estudos Brasileiros – ISEB, criado em 1955 pelo Ministério da Educação e Cultura;
  2. A criação do Instituto Brasileiro de Relações Internacionais – IBRI em 1954 e a publicação da Revista Brasileira de Política Internacional a partir de 1958;
  3. Publicação entre 1965 e 1966 da revista Política Externa Independente.

Com o período militar no Brasil, a academia sofreu censura tal como os jornais da época. Miyamoto, (1999, p. 86) ainda comenta que, além da censura, nesse período havia um número muito restringido de pessoas ligadas à Universidade e com capacidade técnica de fazer boas análises sobre as relações internacionais do país.

O ensino de Relações Internacionais no Brasil só será institucionalizado durante o governo do general Geisel (1974-1979) dada a política de abertura “lenta e gradual” e assim o primeiro curso de graduação da área foi estruturado somente em 1974 pela Universidade de Brasília – UNB e reconhecido em 1976 pelo Ministério da Educação – MEC. Segundo Lessa (2005, p. 35):

A intenção de criar este programa, justamente na universidade da capital federal, era o de formar profissionais que pudessem vir a ser chamados a atuar de algum modo nas atividades de Estado relacionadas com a expansão da internacionalização do Brasil que então se observava. Mais do que preparar bons candidatos ao difícil concurso de acesso à carreira diplomática, como muitos suspeitaram, a ideia da criação deste curso se amparava na constatação de que os organismos oficiais (além do Itamaraty), de fato necessitavam criar e aparelhar estruturas administrativas que fossem capazes de atuar na formulação e na implementação de políticas públicas que tinham grandes vinculações com as possibilidades abertas pela política externa.

O que se observa durante as décadas de 1970 e início de 1980 é uma multiplicação de associações e grupos acadêmicos voltados para a área de Relações Internacionais, principalmente em Brasília e no Rio de Janeiro; São Paulo, entretanto, não demonstra muitos avanços. Com a transição do regime autoritário para a democracia, o país passou a observar novos avanços nos estudos das relações internacionais, uma vez que se trouxe maior transparência e acesso a documentos governamentais, além da queda da censura.

A década de 1990 é marcada pelo crescimento exponencial de graduações em Relações Internacionais no Brasil. Miyamoto (1999) e Lessa (2005) apresentam pontos semelhantes e que ambos julgam fundamentais para o crescimento da demanda por esse curso no país: os processos de integração e blocos econômicos que ganharam força (tal como o MERCOSUL); a estabilidade econômica que o país apresentava e o processo de globalização e inserção brasileira no cenário internacional nas mais diversas áreas (meio ambiente, direitos humanos, politica econômica, etc.).

Herz (2002, p. 22), por outro lado, destaca que a partir de tal década houve também a ampliação do mercado de trabalho – seja em assessorias internacionais, em órgãos públicos ou como resultado dos novos postos criados em organizações internacionais governamentais e não governamentais – o que favoreceu o crescimento da área.

O Brasil conta, atualmente, com mais de 100 cursos de graduação em Relações Internacionais[1], sendo que a grande maioria está concentrada na região Sudeste do país. Lessa (2005, p. 44) aponta que essa distribuição desigual é dada uma vez que as regiões Norte e Nordeste ainda não perceberam com clareza o potencial deste mercado de trabalho.

Miyamoto (1999, p. 94), no entanto, revela que mesmo com o grande número de cursos surgindo no país, não há ainda uma “única direção” do ensino, visto que o MEC não aprovou uma grade curricular base para o oferecimento do mesmo. Assim, cada região apresenta diferenças nas matrizes curriculares, fazendo com que determinados cursos se tornem mais especializados em determinados assuntos do que outros.

Por fim, apesar das dificuldades apresentadas, muito se tem avançado: em 1998 foi fundada a Federação Nacional dos estudantes de Relações Internacionais – FENERI como forma de consolidação do curso no país. Propõem-se encontros três vezes ao ano como forma de estabelecer um conselho dos estudantes a fim de se consultar, fiscalizar e deliberar assuntos acerca do curso de Relações Internacionais em nível nacional.

Também se realiza anualmente o Encontro Nacional dos estudantes de Relações Internacionais – ENERI, que neste ano realizou sua vigésima edição e o Americas Model United Nations – AMUN que diz respeito à simulação do modelo da ONU e este ano acontece em Brasília, em agosto. Somado a isso, é de grande destaque a criação do Centro Brasileiro de Relações Internacionais – CEBRI, voltado para a pesquisa em temas internacionais.

REFERÊNCIAS

 HERZ, Mônica. O crescimento da área de relações internacionais no Brasil. Contexto internacional, v. 24, n. 1, p. 7-40, 2002.

LESSA, Antônio Carlos. O ensino de Relações Internacionais no Brasil. SARAIVA, José Flávio Sombra Saraiva; CERVO, Amado Luiz. O crescimento das Relações Internacionais no Brasil. Brasília: Instituto Brasileiro de Relações Internacionais (IBRI), p. 33-50, 2005.

MIYAMOTO, Shiguenoli. O estudo das relações internacionais no Brasil: o estado da arte. Revista de Sociologia e Política, v. 12, n. 1, p. 83-98, 1999.

MIYAMOTO, Shiguenoli. O ensino das relações internacionais no Brasil: problemas e perspectivas. Revista de Sociologia e Política, v. 20, n. 1, p. 103-114, 2003.

VIGEVANI, Tullo; THOMAZ, Laís Forti; LEITE, Lucas Batista. As Relações Internacionais no Brasil: notas sobre o início de sua institucionalização. Inter-Relações FASM, n. 40, 2014.

VIZENTINI, Paulo Fagundes. A evolução da produção intelectual e dos estudos acadêmicos de relações internacionais no Brasil. O crescimento das Relações Internacionais, p. 17-31, 2005.

 —

[1] Segundo dados da FENERI. Disponível em: <http://www.feneri.org.br/feneri/faculdades.html&gt;


unnamed[*] Estudante de graduação em Relações Internacionais pela UNIMEP / Piracicaba (SP) e concomitantemente estudante de graduação em Gestão de Políticas Públicas pela UNICAMP/ Limeira (SP). Atualmente vice-presidente do Centro Acadêmico de Relações Internacionais UNIMEP. Possui interesse em política internacional, economia e administração pública. E-mail: gustavo.rigonato@gmail.com

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