A ONU e os atores não tradicionais

Imagem: Google Images / Wikicommons

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Por Taynara Dettmann*

Uma análise partindo do ponto de vista do neorrealismo sobre como o sistema ONU age frente aos novos atores internacionais.

O conceito de sistema internacional teve sua edificação na Europa do século XVII, inicialmente com Vestfália e, por conta do processo de descolonização, expandiu-se ao restante do mundo. Posto que antes entidades político-econômicas tornam-se agora atores, agindo como protagonistas no sistema internacional. Desde então, as relações entre Estados vêm sendo conduzidas por conceitos surgidos na época, como: soberania e nação, bem como o poder logrado por cada um destes. Atualmente, o sistema internacional é fracionado entre atores estatais, atores não estatais e alguns novos atores não tradicionais, e esta composição do atual cenário internacional contempla com a tendência de um comum interesse entre estes: a sobrevivência no sistema.

A partir do pressuposto neorrealista, o ser humano, assim como no Realismo Clássico de Hobbes, e no Moderno de Morgenthau, que tende buscar seus interesses e sua sobrevivência, portanto é ambíguo perante a sua essência. Desta maneira, torna-se igualmente inábil à cooperação, e mesmo quando há cooperação, tende a sanar suas ganâncias. Por cooperação têm-se há 70 anos um esforço à interdependência mútua; A Organização da Nações Unidas -ONU-, alçada na paz mundial, atua secundariamente à anarquia, que de fato é uma derivação do sistema internacional.

Com efeito, em todo sistema anárquico há espaços, que afetam os atores secundários. A partir destes espaços surgem também novos temas na agenda, desfalecendo a hierarquização de temas antigos. Nos dias que correm, é notável a presença de novos atores emergindo no cenário internacional, quase que diariamente. Um ótimo exemplo, seria uma questão panoramicamente vinculada na massa midiática. A questão dos conflitos regionais que acabam por tomar proporções internacionais, gerando hesitação na opinião pública como um todo.

Efetivamente, os conflitos no Oriente Médio se enquadram neste fenômeno dos novos atores não tradicionais, insurgindo e gerando perplexas reflexões sociais. Embora este não seja um tema novo na agenda, principalmente o terror – Terrorismo Social-, o qual já foi tema de associação à grandes organizações nacionalistas -Mão Negra-, num período pré Primeira Guerra Mundial. Isto posto, ressurge agora no contexto do Oriente Médio, demandando por uma nova proposição, por certo uma nova resolução.

O sistema ONU diante de atores não tradicionais nas relações internacionais, que por vezes são conflituosas, como a hostilidade Ocidental avante Oriental, e o próprio embate civilizatório, encontra-se impotente e inábil para a promoção da resolução destes conflitos regionais. Em tal grau que, desde os anos 90, a mediação da atuação substancial da ONU, levando em consideração a sua estagnação durante a Guerra Fria, não houve considerável deliberação efetiva à resolução. O que se vê são apenas cuidados paliativos, que muitos julgam ser culpa de seu caráter normativo. Ocorrendo por vezes até um certo agravamento dos conflitos, como por exemplo na desagregação da Síria, o esvaziamento do Líbano, a fragilidade do Iraque, e a expansão irremediável do estado islâmico.

A ONU como ator secundário, depende de duas variáveis: ante o neorrealismo, a primeira variável é independente e abarca o conceito de sistema internacional, já a segunda variável é dependente, e abarca o que os Estados tendem como interesse, e por sua ambiguidade, busca por satisfazer egoísmos próprios.

Contudo, as proposições de intervenção humanitária da ONU, não seriam isentas de motivações particulares de cada Estado. Não há pureza no Estado, a relação entre Estados, é simplesmente transitória à interesses, e a própria cooperação se revela desta forma. Por estes fatores a ONU convive com a sua inaptidão frente à resolução conflituosa deste que compõe uma natureza não tradicional no sistema internacional.

A título de exemplo e análise prática do que foi dito, a modo que o próprio conselho de segurança delibera o que é por vezes conveniente aos países e notavelmente conveniente aos seus interesses. Deveras, a utilização e escolha dos pesos e medidas das ações, levarão às reações expectadas por estes que compõem a cadeira decisória, de veto obviamente.

Por fim, crendo no obsoletismo do sistema ONU em face à incerteza da natureza e aplicações humanas, podemos inferir então que a natureza humana deve ser levada em consideração, e principalmente sua pretensão à manutenção de sua sobrevivência no sistema, retratando a Organização das Nações Unidas como fruto da própria essência humana. E por conseguinte podendo expectar da ONU, quase o mesmo que se espera do ser humano, de sua natureza.

Mas mesmo ante ao atrofiamento, esta organização confere a algumas demandas globais, principalmente no que se diz à promoção e à discussão de alguns temas. Inclusive, é válido dizer que a ONU e todo o seu sistema de organizações internacionais cooperativas deste último século, impuseram uma nova dimensão nas relações internacionais, desconhecida tanto à época do “ equilibro de potências” quanto na fase Vestfaliana. De certa maneira, este é o papel que lhe cabe, de mediadora que conta com as deformidades do indivíduo. Por conclusão só resta reverberar de forma enfaticamente Neorrealista, Waltz: “Uma vez que só se opõe a força à força, e este é o preço da fraqueza”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

SARAIVA, Jose. História das Relações Internacionais Contemporâneas – Col. Relações Internacionais – Vol. 1 – 2ª ed.

SARFATI, Gilberto. Teoria das relações internacionais. — São Paulo: Saraiva, 2005.

PASSAÚRA, Gisele. O conflito em Gaza e o esfacelamento do modelo ONU, disponível em <

http://mundorama.net > Acessado em: 30/05/2015


IMG_2731* Taynara de Souza Dettmann Adami reside em Brasília. Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Católica de Brasília, e cursa paralelamente Letras – Línguas Estrangeiras Aplicadas pela Universidade de Brasília. Atualmente é estagiaria no Ministério das Relações Exteriores, na Divisão de Acessos a Mercados, setor ao qual apresenta interesse dentro das Relações Internacionais. Envolvida em projeto de análise do processo de ascensão e construção da União Europeia, estudando: A Europa de Vestfália até a então União Europeia. “

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