O papel da desigualdade na economia internacional

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Por Gustavo Rigonato*

Neste ano, o Fundo Monetário Internacional – FMI prevê uma tímida retomada do crescimento das grandes economias mundiais e, por outro lado, uma previsão menos otimista para as economias emergentes, visto a queda dos preços de commodities – principalmente do petróleo – afetando Rússia e Brasil. Porém o que mais surpreendeu Christine Lagarde, diretora geral do FMI, foi o aumento das desigualdades: 37 milhões de pessoas que compõem o 1% mais rico da população mundial terão, em 2016, mais dinheiro do que os outros 99% juntos segundo a ONG Oxfam.

Entretanto, tal dado não é novidade. Piketty demonstrou no ano passado, com a publicação de O Capital no século XXI, que esse fenômeno sempre se manteve crescente e teve momentos de redução somente em determinados períodos. Apesar da desigualdade entre países ter diminuído substancialmente nas últimas décadas, principalmente devido ao crescimento dos países emergentes, o mesmo fenômeno não se observou no plano interno dos Estados: por exemplo, um terço da riqueza dos EUA se concentra, novamente, nas mãos de 1% dos americanos.

Mesmo que isso seja absurdo, não é um fenômeno recente. Tal como Piketty fez em seu estudo, se voltarmos a leitura para “O pai Gariot” de Balzac, percebe-se que na Europa do início do século XIX o rendimento de propriedades urbanas ou rurais girava em torno de 5% ao ano, muito mais que qualquer profissão poderia proporcionar. Ou seja, compensava se casar com uma herdeira do que exercer um trabalho duro durante anos.

Isso explica a alta concentração de renda que a sociedade foi colocada e também o poder que as famílias mais ricas detinham: os grandes proprietários de terra estavam situados em uma posição em que havia condições de acumular mais renda e de perpetuar seu poder e fortuna enquanto os mais pobres não possuíam mesma sorte, mantendo assim a hierarquia socioeconômica. Tal fenômeno, denominada de poverty trap pelo Banco Mundial, é cada mais vez mais propagado até os dias atuais, de forma que se não houver intervenções externas – como taxação pelo governo, distribuição de renda e até mesmo as grandes guerras – a desigualdade global se torna uma realidade difícil de ser revertida.

Dowbor (2015, p. 9) critica duramente essa realidade, uma vez, segundo ele “um sistema que sabe produzir, mas não sabe distribuir, é tão funcional quanto a metade de uma roda”. Ou seja, é preciso haver distribuição de renda para que a economia se torne sustentável e que os “pequenos barcos” também possam se elevar, impulsionando o crescimento global.

Os próprios estudos publicados pelo FMI neste ano comprovam tal fato: elevar em 1 ponto percentual a parcela da renda dos pobres e da classe média aumenta o crescimento do PIB de um país em até 0,38 ponto percentual em cinco anos. Enquanto, elevar em 1 ponto percentual a parcela da renda dos ricos reduz o crescimento do PIB em 0,08 ponto percentual. Explica-se isso uma vez que, novamente, os ricos gastam uma fração menor de sua renda, o que poderia reduzir a demanda agregada e enfraquecer o crescimento. Ao contrário das parcelas mais pobres, que com maior renda, são incentivadas a consumir, aquecendo a economia.

Para reverter esse quadro de desigualdade extrema, colocam-se algumas sugestões. Piketty incentiva a taxação de grandes fortunas e heranças, de forma a evitar, ainda que parcialmente, a perpetuação da riqueza e, com o dinheiro arrecadado, seria possível investir em programas sociais capazes de atender as parcelas populacionais mais vulneráveis.

Destaca-se ainda o papel dos programas de transferência condicionada de renda: o Banco Mundial também afirma que existe uma causalidade entre crescimento e pobreza de um país, de modo que a pobreza seria o fator determinante do baixo crescimento das economias e isso causaria um círculo vicioso[1]. Segundo o estudo, a baixa escolaridade é outro motivo essencial que impede a participação dos pobres no mercado, do mesmo modo que os coloca na condição de pobreza.

Sendo assim, ficando evidente o círculo vicioso, com tendência a se perpetuar cada vez mais; as famílias pobres tendem a manter tal constante, uma vez que não conseguem investir em educação de modo a se desenvolverem. Portanto, as políticas focalizadas também são grandes aliadas – e até recomendadas pelo Fundo Monetário Internacional – para superação das desigualdades.

Por fim, o FMI sugere por sua vez que, a partir da estabilização econômica, os países devam investir em uma política fiscal eficiente, visando “desenvolver medidas tributárias e de gastos que tenham efeitos adversos mínimos em termos de incentivo ao trabalho, poupança e investimento. O objetivo deve ser promover tanto a maior igualdade como a maior eficiência.” Além de também destacar reformas eficientes nos quesitos de saúde, educação, mercado de trabalho e investimentos em infraestrutura, de forma a aumentar a produtividade e lidar com os novos desafios tecnológicos da globalização.

REFERÊNCIAS

LAGARDE, Christine. Erguer os pequenos barcos. Discurso nas Grandes Conférences Catholiques. Bruxelas, 17 de junho de 2015

PIKETTY, Thomas. A economia da desigualdade. Tradução de André Telles. 1 ed. – Rio de Janeiro: Intrínseca, 2015.

PIKETTY, Thomas. O capital no século XXI. Tradução de Monica Baumgmarten de Bolle. 1 ed. – Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.

DOWBOR, Ladislau. Entender a desigualdade: reflexões sobre O Capital no século XXI. In Thomas Piketty e o segredo dos ricos. Organização de Silvio Caccia Bava. Tradução: Le Monde Diplomatique Brasil. Editora Veneta: São Paulo: 2015

BOUCHINHAS, André Dutra. O segredo de Escobar. Revista Piauí, nº 105. 2015

FMI: ‘Aumento da desigualdade reduz crescimento econômico’. Disponível em:

<http://www.cartacapital.com.br/economia/fmi-aumento-da-desigualdade-reduz-crescimento-economico-277.html&gt; Acesso em: 29/06/15

[1] O baixo crescimento impede a redução da pobreza e esta, por sua vez, seria um obstáculo ao crescimento. Resultando assim no “círculo vicioso”.


unnamed[*] Estudante de graduação em Relações Internacionais pela UNIMEP / Piracicaba (SP) e concomitantemente estudante de graduação em Gestão de Políticas Públicas pela UNICAMP/ Limeira (SP). Atualmente vice-presidente do Centro Acadêmico de Relações Internacionais UNIMEP. Possui interesse em política internacional, economia e administração pública. E-mail: gustavo.rigonato@gmail.com

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