Geisel e o II Plano Nacional de Desenvolvimento

Por Gabriela Cruz*

O processo de expansão da economia brasileira conhecido como “milagre econômico” teve fim com o primeiro choque do petróleo, em 1973. O aumento dos preços do insumo, um dos principais da pauta de importação brasileira, levou ao avanço da inflação (elevação dos custos industriais), desequilíbrio do balanço de pagamentos (maior saída de dólares para compra de petróleo), e redução do crescimento (menor oferta de energia). É nesse cenário que Ernesto Geisel assume a Presidência da República e anuncia o II Plano Nacional de Desenvolvimento – II PND, em 1974.

O desafio que se apresentava ao novo governo (1974 – 1979) era a escolha entre o ajuste externo (políticas ortodoxas) ou manutenção do crescimento via financiamento estrangeiro (política heterodoxa). Geisel decidiu pela segunda opção, baseando-se na ideia de que o Brasil precisava reduzir sua vulnerabilidade em relação à economia internacional. Essa era uma estratégia para evitar que novos choques externos, como o primeiro choque do petróleo, abalassem a economia nacional. Acreditava-se que, uma vez completo, o parque industrial brasileiro impulsionaria a participação de produtos com maior valor agregado na pauta de exportações, possibilitando o retorno do crescimento.

O II PND incluía a realização de investimentos ousados, principalmente direcionado às empresas estatais, naqueles que eram considerados os pontos de estrangulamento da economia nacional: setores de energia, principalmente petróleo; bens de capital; e tecnologia. As principais medidas adotadas foram a desvalorização cambial, facilitação das condições de crédito, e investimentos públicos nos setores de estrangulamento. O financiamento do II PND foi possível por meio dos petrodólares (receitas da OPEP ingressantes no mercado financeiro), que expandiram a disponibilidade de crédito no Sistema Financeiro Internacional. Em resumo, adotava-se uma política expansionista anticíclica para reduzir a dependência da indústria nacional de importações.

O resultado esperado dos investimentos era a recuperação do crescimento no longo prazo, previsto para o início dos anos 1980. Entretanto, os efeitos imediatos foram o aumento da dívida externa e a propagação do desequilíbrio externo, graças a manutenção das importações de insumos industriais e contratação de novos empréstimos. O segundo choque do petróleo, em 1979, marca o final do II PND. O problema do desequilíbrio externo agravou-se em consequência dos aumentos dos juros internacionais (elevação do custo da dívida), e dos preços das importações (déficit comercial). Diferentemente de 1973, o financiamento externo não estava mais disponível, pois os países credores passaram a adotar postura restritiva.

As interpretações acerca dos efeitos do II PND para a história econômica brasileira são variadas. Alguns defendiam a escolha pelo ajuste externo em troca da manutenção do crescimento por meio de mais endividamento. Eles argumentam que os ajustes eram inevitáveis, e, quando postos em prática, entre 1981 – 1983 com Delfim Netto no Ministério da Fazenda, levaram a recuperação econômica. Em oposição, outros acreditam que a estratégia de 1974 foi fundamental para a recuperação no começo da década de 1980, como defende Antonio Barros Castro (2004), uma vez que os resultados dos investimentos eram de longo prazo, e se concretizaram neste período.

Referências:

CASTRO, Antonio Barros de; SOUZA, Francisco Eduardo Pires de. A Economia Brasileira em Marcha Forçada. 3ª Edição. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2004.

GIAMBIAGI, Fábio (org.). Economia Brasileira Contemporânea. 2ª Edição. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011.

ABREU, Marcelo de Paiva. A Ordem do Progresso. 1ª Edição. São Paulo: Editora Campus, 1990.


GabrielaGabriela Cruz, Bacharel em Relações Internacionais pelo UniCEUB, e pós-graduanda em Relações Internacionais pelo Clio Internacional. Atualmente trabalha como assessora no Tribunal de Contas do Distrito Federal. Já trabalhou como assistente de negócios internacionais na Apex-Brasil, além de diversos estágios, inclusive no Ministério das Relações Exteriores.

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