CRISE GREGA E OS IMPACTOS GLOBAIS: David Ricardo e Karl Marx postos em prática

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Por Guilherme Carvalho*

Recentemente os noticiários mundiais têm sido ocupados por torrentes de análises sobre a crise econômica grega. Apesar de não ser novidade, a fúnebre imagem de um país com 11 milhões de habitantes se afundando em dívidas exorbitantes, bem como em enormes déficits em sua balança comercial, causam incertezas em diversas partes do globo. Mas como analisar tal crise sob uma lente teórica abrangente que seja capaz de entender para além das questões nacionais? Escolhemos analisar a partir das visões de David Ricardo, e das lentes positivistas e internacionalistas de Karl Marx, não em uma perspectiva econômica empírica – pois não é o foco do autor trabalhar esse problema a partir de números – mas sob um olhar teórico desses importantes pensadores. Também, não é nossa intensão pensar em um geral do problema econômico grego, mas sim refletir sobre os fatores microeconômicos que influenciaram diretamente na macroeconomia grega, e para além dela, a de diversos países que tem suas economias ligadas diretamente ao problema em questão.

A globalização abarca fenômenos nascidos dela, e que repercutem para além dela. A interdependência é um desses fenômenos, porém para além de um senso comum de um elemento que se mostra extremamente recente, veremos que a interdependência não acompanha uma lógica temporal de evolução dos acontecimentos Pós-Guerra Fria, mas sim a lógica da evolução do próprio capitalismo e suas nuances. Marx em sua obra Zur Kritik der Politschen Ökonomie (1859), tem como principal estudo o capital, que para ele é um movimento social histórico abrangente, que incorpora tudo e todos, avançando em seu processo de inclusão do trabalho, renda da terra, comércio mundial, Estado e valor. Nesse sentido, o capital é um fenômeno sem fronteiras.

Nos debates das Relações Internacionais, é comum atribuir o termo “interdependência” aos transnacionalistas Robert Keohane e Joseph Nye, em suas obras entre os anos de 1960 e 1970. Porém, Marx já postulava tal noção em uma análise prévia do movimento do capital global, em sua aclamada obra Manifest der Kommunistischen Partei (1848): “Em lugar do antigo isolamento de regiões e nações que se bastavam a si próprias, desenvolveu-se o intercâmbio universal, uma universal interdependência das nações. Isto se refere tanto à produção material como à produção intelectual” (MARX, 2005, p.26). Já David Ricardo em sua obra Principles of political economy and taxation (1817), não entende interdependência pelo termo, mas pelo fenômeno do comércio entre as nações. “Tal efeito é produzido não apenas no país onde ocorrem as causas perturbadoras, mas, em maior ou menor grau, em todos os países participantes do comércio internacional” (RICARDO, 1996, p. 102).

A crise grega, assim como a de diversos outros países iniciou em 2008 devido ao alto grau de correlação com a norte-americana, que foi pega pela crise imobiliária. Porém, pouco depois adquiriu formato próprio ao se descobrir que o governo vinha maquiando contas públicas. Segundo o jornal Folha de São Paulo (2015), a Grécia atualmente tem uma dívida referente a 177% do seu PIB. Sua dívida pública dentro da Zona do Euro chega a 91,9% desse montante, representando 320 bilhões de euros. Para Trevizan (2015), uma consequência da crise que já começa a ser vista desde agora nos países com economia mais frágeis da zona do euro é um aumento de juros, para tornar os títulos de suas dívidas mais atraentes a investidores assustados. Ou seja, em grande parte a dívida grega deixou lastros para além de suas fronteiras.

Achamos pertinente delinear as fronteiras da ideia de capital em Marx e em Ricardo. Marx herdou de David Ricardo suas análises que geraram a teoria do “valor trabalho”, várias das concepções das consequências do capital, dentre elas se destaca a “mais valia”. Ricardo enxerga que a aplicação conjunta de trabalho, maquinário e capital no processo produtivo gera um produto, o qual se divide entre as três classes da sociedade: proprietários de terra, trabalhadores assalariados e os arrendatários capitalistas.

Karl Marx acredita que após o fim da era medieval surge um novo tipo de capital, o capital que é obtido dentro da esfera da produção. Esse capital advém da agricultura, da indústria, da pecuária, e nas demais esferas em que se necessita do trabalho de um terceiro. Essa produção gerará um excedente da produção, conhecido como “mais valia”a força de trabalho como um valor que gera outro valor, nesse caso um valor agregado, trabalho mais produção, mais matéria. Esse terceiro, o trabalhador é quem move a economia do Estado a partir dos seus ganhos do trabalho, e isso para Marx impacta diretamente na economia do Estado.

É interessante pensarmos em como o movimento – ou a redução – do capital em crise gera consequências para além do próprio sistema, impactando o âmbito individual, repercutindo na formação de grupos afetados pelo sistema capitalista. Na perspectiva ricardiana o trabalho mais valor gera o capital. Marx discorda dessa premissa de Ricardo, ao passo que para ele o trabalho é o que agrega valor às mercadoria, e efetivamente gera o capital. Segundo a Folha de São Paulo (2015), a taxa de desemprego na Grécia chegou ao patamar de 25,6% nesse ano. “A dependência pessoal caracteriza tanto as condições sociais da produção material quanto as esferas de vida estruturadas sobre ela.”; “A forma natural do trabalho, sua particularidade, e não, como na base da produção de mercadorias, a sua generalidade, é aqui sua forma diretamente social” (MARX, 1996, p.202-203). Sendo assim, no caso grego, sem emprego, sem desenvolvimento do capital.

Dessa forma, o capital exerce influências para além das fronteiras particulares e nacionais, formando grupos sociais impactados pela sua crise, além de criar relações sociais advindas do dinheiro e da falta dele e de seu valor. “O ciclo econômico, nesta nova fase do capitalismo, e, de tempos em tempos, crises comerciais arrochavam a lucratividade dos empresários e trazem o aumento do desemprego, que piora ainda mais as condições das massas urbanas” (RICARDO, 1996, p. 5).

Segundo o jornal do Brasil (2015), não há dúvida de que o panorama para a Grécia está sombrio. O sistema financeiro do país foi interrompido no fim de semana quando autoridades europeias  rejeitaram seu último apelo para mais tempo visando negociar as duras reformas que os europeus pedem em troca de ajuda adicional. Os gregos têm  retirado seus depósitos durante semanas, mas as interrupções das conversas levaram o Banco Central Europeu a congelar empréstimos de emergência para os bancos do país e limitar o montante que os cidadãos podem retirar ao equivalente de apenas US$ 66 por dia.

Nos fatos aqui apresentados, em Marx essa crise do capital está diretamente ligada à precariedade de mão de obra. “O crescimento absoluto do capital está ligado ao acréscimo absoluto de seu componente variável ou da força de trabalho absorvida por ele; o capital continua a crescer sobre sua base técnica dada e atrai força de trabalho adicional em proporção a seu crescimento” (MARX, 1996b, 261). Ricardo (1996) acredita que o crescimento do capitalismo está ligado ao decréscimo populacional, e com o aumento das forças produtivas, portanto antagonicamente a Marx. Dentro dessa concepção, a crise é alimentada por seu próprio resultado: o desemprego. Ou seja, o desemprego é a consequência e o que nutre a crise.

Como falado anteriormente, a interdependência gera impactos para além das fronteiras nacionais, devido ao grau de envolvimento de dois ou mais atores em um mesmo processo. E sobre isso, Santos (apud Trevizan, 2015), aponta para uma sequência de dificuldades impostas a um membro da União Europeia poderia prejudicar países que são parceiros comerciais. Além disso, o jornal do Brasil (2015b) mostra que a provável intensificação da crise grega cria um leque adicional de riscos internacionais no curto prazo, compensado pela oportunidade de pontos de entrada atraentes mais adiante.

Dessa forma, a névoa e os contornos dessa crise ainda hão de trazer novos fatos. Nossa ideia foi de trazer uma proposta teórica para se pensar a crise capitalista – dentro das perspectivas de capitalismo ricardianas e marxistas – que tem-se instaurado a partir de um único ator, que graças à interdependência tem gerado consequências em todo o globo. A partir do que foi apresentado, concluímos que os impactos da crise estão para além de meras compreensões político-econômicas, mas merecem uma atenção especial para o olhar sociológico e internacionalista. Talvez uma mera análise teórica ainda não seja capaz de unir todos os conceitos aqui apresentados e instrumentaliza-los no sentido de construir uma análise mais abrangente, a fim de compreender todos os problemas envolvendo as atualidades do sistema capitalista. Por isso a provocação é deixada.

REFERÊNCIAS

FOLHA DE SÃO PAULO. 12 Pontos Para Entender a Crise Grega. 2015. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/asmais/2015/06/1644556-7-pontos-para-entender-a-crise-grega.shtml&gt;. Acessado em: 11/07/2015.

JORNAL DO BRASIL. O que a crise grega significa para as economias dos EUA e do mundo. 2015. Disponível em: < http://www.jb.com.br/economia/noticias/2015/06/30/o-que-a-crise-grega-significa-para-as-economias-dos-eua-e-do-mundo/&gt;. Acessado em 12/07/2015.

MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

__________. O capital: o processo de produção do capital – Tomo II. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

MARX, Karl; ENGELS, Frederich. O Manifesto Do Partido Comunista. São Paulo: Boitempo editorial, 2005.

RICARDO, David. Princípios de economia política e tributária. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

TREVIZAN, Karina. Grécia pode deixar a zona do Euro. 2015. Disponível em: <http://g1.globo.com/economia/noticia/2015/06/o-que-acontece-se-grecia-der-calote-no-fmi-entenda crise-no-pais.html>. Acessado em: 11/07/2015.


servletrecuperafoto* Guilherme Carvalho é graduando em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás e bolsista do programa BIC-PUC, tem ênfase de pesquisa em Política Internacional, (identidades coletivas regionais contemporâneas da América do Sul e Oriente Médio), História dos conceitos e estudos Pós-ColoniaisContato: guilherme.rel1404@gmail.com

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Uma resposta para “CRISE GREGA E OS IMPACTOS GLOBAIS: David Ricardo e Karl Marx postos em prática

  1. Gostaria de parabenizar aos criadores e aos membros que participam do site … É a primeira vez que acesso e de fato será bastante importante para me auxiliar a compreender certos conceitos. Estou no segundo semestre da graduação em Relações Internacionais, até breve e conto com a ajuda de vocês.

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