A CRISE ARGENTINA DE 2001 E SEUS DESDOBRAMENTOS: GOVERNO KIRCHNER

crise-argentina

Por Gustavo Rigonato*

A situação argentina atual se difere muito da do início do século passado, quando apenas sua economia representava 50% do PIB latino americano e se lançava como um dos países mais desenvolvidos da região. Entretanto, durante a segunda metade do século passado houve uma queda no preço das commodities e a Argentina – diferentemente do Brasil – não passou por um período de industrialização e substituição de importações, fragilizando sua situação visto que se manteve o tempo todo como uma economia exclusivamente agrário-exportadora e importadora de produtos com maior valor agregado.

Já na década de 1980, recém-saída de uma ditadura militar e com sua estrutura econômica pouco desenvolvida (praticamente a mesma do início do século), a Argentina passa por um processo de hiperinflação em 1989 que corrói o poder de compra da população, gerando desemprego e baixa produtividade no país (Bello, 2002, p. 251-252).

Visando principalmente o combate da inflação, o governo representado pelo ministro Domingo Felipe Cavallo, lança em maio de 1991 o Plano de Conversibilidade, no qual a moeda argentina estaria atrelada ao dólar americano na paridade de um para um. Na primeira metade da década de 1990 esse modelo (também denominado currency board), somado ás políticas liberalizantes propostas pelo Consenso de Washington, demonstraram bastante sucesso, sendo que a Argentina foi considerada um país exemplar na adoção de tais medidas.

Destaca-se que com a volta do crescimento, a Argentina atraiu grandes volumes de capitais externos já que o mercado de títulos do país oferecia melhor remuneração apesar dos riscos, o que também permitiu com que o modelo antes citado fosse sustentado. O resultado disso foi um sucesso no combate a inflação, o crescimento da renda no país e a economia crescendo em um ritmo de 6% ao ano;

Entretanto, o cenário no final da década de 1990 é outro. O grande volume de capitais entrando no país, visando às altas taxas de remuneração da economia argentina, promoveu um aumento substancial da dívida pública; somado a isso, o Plano de Conversibilidade garantiu um aumento nas importações de bens manufaturados para o país, o que promoveu sucessivos déficits comerciais enquanto a economia crescia. O cenário positivo que o país vinha apresentando passou a se modificar com as repercussões das crises da Ásia (1997) e da Rússia (1998) antes mencionadas.

A partir de então, o modelo argentino foi sendo cada vez mais desgastado. Entre 1999 e 2002, o país foi atingido por uma grave recessão que teve como resposta um maior endividamento do Estado, agravando sua situação fiscal e tornando-o mais vulnerável aos choques externos.

Somado ao cenário de recessão e essa “contradição cambial”, o dólar – moeda âncora do país – tem uma supervalorização no período que faz com que o peso argentino tenha uma expressiva valorização cambial, agravando ainda mais o desequilíbrio nas contas externas e na dependência em relação a financiamento internacional (Batista Jr., 2002, p. 90). Então, novamente, a Argentina tem de recorrer ao FMI: a crise chegou a tal ponto crítico que o país teve de adotar o denominado corralito[1], travando e destruindo a confiança em todo o sistema bancário. O episódio foi o estopim para uma crise política que levou ao fim do governo eleito.

Com um novo governo no poder, novas medidas são tomadas e o resultado das políticas adotadas pelo então presidente Duhrale foi uma desvalorização imediata do peso, o que provocou a quebra de empresas na Argentina, afetando sua situação social e agravando o desemprego. Entretanto, uma melhora econômica no sistema internacional proporcionou uma recuperação do país a partir do segundo trimestre de 2002.

Em 2003, a população argentina elege um candidato pertencente a uma ala de esquerda, Néstor Kirchner, que tinha como objetivos fundamentais: retomar o crescimento econômico com base no câmbio competitivo, trazer estabilização social através de programas de assistência aos desempregados e normalizar as relações com o FMI. O governo também adotou baixas taxas de juros, contrariando a recomendação do Fundo e defendendo que essa medida era importante para a promoção do crescimento econômico e redução do desemprego (Da Silva, 2009, p. 21).

Em 2005, a reestruturação da dívida externa e a saída do estado de moratória garantiam a reinserção argentina no comércio internacional, investindo principalmente nas relações comerciais com o Brasil. Avalia-se ainda o governo de Néstor de forma positiva, uma vez que houve uma expansão em relação ao comércio mundial, onde os preços de commodities obtiveram certa valorização[2]. O PIB da Argentina, que tinha caído 20% entre 1999 e 2002, cresceu 8,7% em 2003 e 9% em 2004, e 8,6% em 2005; o desemprego, ainda elevado, caiu de 17,8% para 10% aproximadamente; as taxas recordes de pobreza, que atingiram 57,6% em 2002, caíram para 40,2% em 2005 (VADEL, 2006).

Em 2007, Cristina Kirchner – esposa de Nestor – é eleita presidente da Argentina, com promessas de dar continuidade às políticas do marido. Em 2010, o ex-presidente falece em decorrência de uma parada cardiorrespiratória.

REFERÊNCIAS

BATISTA JR., Paulo Nogueira. Argentina: uma crise paradigmática. Estud. av. [online]. 2002, vol.16, n.44, pp. 83-96. ISSN 1806-9592.

FERRARI, Andrés; CUNHA, André Moreira. As origens da crise argentina: uma sugestão de interpretação. XXXIII Encontro Nacional de Economia, 2005.

VALLE-FLOR, Maria Amélia. A Crise Argentina: Cooperação e conflito nas reformas económicas: o Governo perante o FMI. Lisboa: Universidade Técnica de Lisboa, 2005.

OLIVEIRA, D. L. S. M.; BARBOSA, M. A. G. A economia global no pós Consenso de Washington: uma análise das crises financeiras ocorridas nos países emergentes da década de 1990. Cadernos Sep Administração, n. 3, p. 9-21, 2006.

CAMBAÚVA, Daniella. Nove anos depois, a Argentina relembra sua pior crise. Carta Capital. Dezembro, 2010.

DA SILVA BELLO, Teresinha. Algumas considerações sobre a crise argentina. Indicadores Econômicos FEE, v. 30, n. 2, p. 251-298, 2002.

DA SILVA, Roberta Rodrigues Marques. A Argentina entre as reformas econômicas neoliberais e a redefinição das negociações com o FMI (1989-2007). Revista de Sociologia e Política, v. 17, n. 33, p. 13-37, 2009.

VADELL, Javier Alberto. A política internacional, a conjuntura econômica e a Argentina de Néstor Kirchner. Rev. bras. polít. int.,  Brasília ,  v. 49, n. 1, p. 194-214, June  2006.


[1] Restrição de saques e movimentação bancária, forçando os bancos comerciais a retornarem os dólares ao Banco Central. Convertiam-se assim os depósitos que haviam sido feitos em dólares para pesos (Oliveira e Barbosa, 2006, p. 19).

[2] Produtos como a soja, carne, trigo, milho e o petróleo constituem itens importantes na pauta de – exportação argentina e de grande parte dos países de América Latina


unnamed[*] Estudante de graduação em Relações Internacionais pela UNIMEP / Piracicaba (SP) e concomitantemente estudante de graduação em Gestão de Políticas Públicas pela UNICAMP/ Limeira (SP). Atualmente vice-presidente do Centro Acadêmico de Relações Internacionais UNIMEP. Possui interesse em política internacional, economia e administração pública. E-mail: gustavo.rigonato@gmail.com

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Uma resposta para “A CRISE ARGENTINA DE 2001 E SEUS DESDOBRAMENTOS: GOVERNO KIRCHNER

  1. Em 2007, Cristina Kirchner – esposa de Nestor – é eleita a primeira mulher presidente da Argentina..
    Bom ae seria Isabelita Perón 1 de julho de 1974 a 24 de março de 1976.
    concerta esse erro Cristina Kirchner foi a primeira mulher presidente.

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